[Crónica] Debates e os seus rescaldos: a indústria do espetáculo contra a Democracia

CRÓNICAS/OPINIÃO Hugo Rajão

A informação vende pouco. A internet e as redes sociais aceleraram o esboroamento das estruturas de mediação informativa. Os jornalistas são atirados para a precariedade.

A consonância entre prossecução de lucro e produção de boa informação parece, assim, cada vez mais condenada. Ao ter de competir na chamada “economia de atenção”, a comunicação social vê-se pressionada a seguir as regras do jogo. A informação afigura-se pouco rentável, mas o entretenimento não. Logo, se não é possível tirar grande dividendos da informação, o instinto de sobrevivência torna a transformação da informação em espetáculo tentadora. Os tabloides já tinha mostrado o padrão. Estamos, agora, a assistir a um processo de tabloidização generalizado.

O “modus operandi” da comunicação social relativamente a estes debates, para as legislativas, com os seus rescaldos e notas, não é, seguramente, novo. Muito antes da aparição do Chega na política nacional, já funcionava assim. A quê que os comentadores, e a imprensa em geral, davam atenção e reconhecimento nos debates de então? Às mesmas coisas. Ao sondbite, à frase catchy, à irritação, à pequena incoerência, ao descaramento, às pequenas provocações e escândalos. Em suma, ao espetáculo.

Por outras palavras, já há muito tempo que a comunicação social visa, essencialmente, extrair dos debates, entre políticos democratas, o máximo do seu ‘açúcar demagógico’. Vende bem, faz manchetes. As pessoas não compram jornais, mas param para ver um acidente.

O fenómeno nem é novo, nem, contudo, exclusivamente nacional. Mas a nova extrema-direita entendeu-o perfeitamente. Se o espaço mediático é sedento desse ‘açúcar demagógico’, mais ou menos residual nos políticos democráticos, o que farão quando surgir um político que tenha despejado sobre si um frasco inteiro? Um que pegue nessas ‘coisinhas’ dos outros e as exorbite? Agarrar-se-ão a ele com certeza. Assim é a nova extrema-direita. Assim é, em Portugal, André Ventura o Chega que dele emana.

Desengane-se quem pensar que a Comunicação Social é fascista. Não o é. Simplesmente a máquina alimenta-se de açúcar, e o Ventura tem-no para oferecer às toneladas. Ele sabe-o e explora essa realidade.

Importa então que a comunicação social, principalmente as televisões, arrepie caminho e volte a fazer jornalismo. É fundamental que deixem de premiar a mentira, as falácias, e o jogo baixo do líder do Chega, com ‘notinhas’ de 0 a 10, valendo os mesmos pontos (ou até mais) da verdade, da argumentação estruturada e do respeito democrático dos outros interolocutores de debate. Tudo isto, obedecendo a uma grelha de avaliação perversa que procura atestar um conceito democraticamente obtuso de ‘eficácia’, que numa democracia de pleno direito ninguém sabe muito bem o que significa. Sejam pedagógicos, caso contrário para que servem esses rescaldos, que excedem em muito o tempo dos próprios debates? Por fim, a gestão de expetativas deve ser reequilibrada. Estes comentadores, geralmente, ‘castigam’ as pequenas falhas e desvios da ‘normalidade democrática’ (que em muitos casos só são falhas aos olhos dos próprios comentadores), no decurso do debate, dos outros políticos de forma desproporcionalmente maior do que fazem com a intolerabilidade padrão com que André Ventura nos apresenta sistematicamente. Não devem ser indiferentes só porque é expectável.

Em suma, não é um tratamento diferente que peço. É precisamente o contrário. Apliquem as mesmas regras. Usem a métrica da democracia para avaliar os debates, e nesse caso só os não-democratas é que poderão sentir qualquer desconforto.

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