[Crónica] Até breve Fatinha

Adélio Castro CRÓNICAS/OPINIÃO

Nem meia dúzia de meses se tinham passado, quando a notícia me esmurrou à falsa fé, anuviando aquele dia soalheiro com um bodum de nefas.

Depois de torturar a agenda de um dia de fugir a sete pés, lá me consegui escapulir para lhe dar, numa corrida, a ela e aos seus entes mais queridos um abraço solidário. Quando a vi, quase sozinha, naquele cubículo triste, rodeada apenas pelo Almério e as suas três colegas e filhas do coração, caiu-me a pressa aos pés e, sem pestanejar, mandei a agenda às malvas. Em lágrimas, o Almério e as suas três meninas abraçaram-me forte e longamente, e triste como a noite, percebi que aquele abraço entrelaçava as únicas cinco pessoas que verdadeiramente estimaram a nossa Fatinha.

Há pouco mais de cinco meses, ela procurou-me para – além da paga – me pedir – o especial favor – de ser assim uma espécie de seu testamenteiro. Explicou-me que, logo agora que tinha resolvido reformar-se, o médico descobriu-lhe – salvo seja, um mal ruim – mas, como pelo vistos não era dos mais ruins, ainda teria, segundo ele, uns tempitos pela frente. Mas como sempre ouvira dizer que – há viver e morrer – e que – “quem se deserda antes que morra, merece uma cachaporra” queria deixar já as coisas arrumadas, mas, como não sabia ainda o que podia precisar, não queria dar já as suas coisinhas antes de chegar – a sua hora. Incumbiu-me então de, quando chegasse a tal má hora, entregar ao Almério, o seu sempre leal arrimo, o seu cordão de ouro de duas voltas, dividir irmãmente as suas poupanças pelas suas três colegas e filhas do coração, como não se cansava de dizer, e entregar ao seu filho duas medalhas de ouro com os dizeres “recordação da avó”.

Desde que a tinha ajudado, a ela e às suas filhas adotivas, a comprar e a organizar a festa surpresa em que ofereceram ao Almério o jipe dos seus sonhos, que a Fatinha, de vez em quando me procurava para a ajudar a resolver pequenos problemas legais. Como topou logo que eu gostava de a ouvir contar, naquela sua linguagem tão castiça, as estórias da sua vida, estas nossas reuniões, para desespero da minha agenda, esticavam-se em longas e deliciosas cavaqueiras.

Foi assim que soube que lhe roubaram o sacrossanto direito de ser avó das suas duas netinhas. Nunca as pôde beijar, abraçar, ou contar-lhes estórias de embalar. Gostava tanto de lhes poder oferecer presentes, guloseimas, de as levar a passear e de as estragar com mimos. Daria tudo para ter espreitado, por um segundo que fosse, os seus batizados, as suas comunhões, as suas festas na escola, os seus sorrisos no Natal ou nos aniversários. Mas, o melhor que tem conseguido é espreitá-las ao longe meia escondida como se fosse uma ladra. A única vez que ganhou coragem para se aproximar delas, quase morreu de desgosto, quando as viu amedrontadas a olhar para a desconhecida que as olhava embevecida de lágrimas nos olhos.

Viveu uma grande parte da sua vida esmagada pelo pânico de falhar o juramento que tinha feito de nunca, em circunstância alguma, deixar que nada, mas mesmo nada, faltasse ao seu filho. Traçou como único desígnio da sua vida adivinhar os mais recônditos desejos do seu Principezinho e realizá-los religiosamente e sem demora, sem olhar a custos nem sacrifícios. O seu Príncipe frequentou um dos melhores colégios e uma universidade das mais exclusivas e caras deste país. Nunca teve menos que os seus colegas. No obsessivo afã de lhe proporcionar o melhor da vida, preparou-o para tudo, menos para enfrentar as incontornáveis frustrações da vida. Findo o curso, seguiu-se uma carreira de crescente sucesso e não tardou a anunciar-se no horizonte um casamento de sonho.

Parecia que, por uma vez, a má vida tinha largado a Fatinha.

Mas uma alma “caridosa”, daquelas que cumpre escrupulosamente os preceitos da Santa Madre Igreja, descobriu o seu grande “segredo” e correu “pesarosa” a transmiti-lo ao Príncipe, e em meia dúzia de palavras amargas, usando apenas uma ínfima parte da verdade acabou por lhe contar uma grande mentira. Completamente devastada, viu nos olhos do seu Príncipe o mesmo asco que, há muitos anos, vira nos olhos do seu pai e dos seus irmãos e teve a certeza que o tinha perdido para sempre. Pela segunda vez, perdia a família e era lançada, sem piedade, ao fogo de um inferno de dor e de solidão.

Desde a morte da sua mãe, que a Fatinha não sentia o conforto de um carinho e menos ainda de um gesto de amor. Por isso, aceitou arrebatada e agradecida o amor daquele homem que incansavelmente a cobria de mimos e carinhos. Não tinha qualquer dúvida de que ele seria o homem e o amor da sua vida.  Mas, mal a soube grávida, desvaneceu-se o amor e desapareceu o homem que, sem hesitações nem remorsos, a descartou.

Naqueles tempos, nestas circunstâncias, a honra da família lavava-se banindo sem demoras a mulher maculada e matando-a para sempre no coração dos seus familiares. Cumprindo escrupulosamente o ritual, as últimas palavras que ouviu ao seu pai e aos seus irmãos foi que para eles, “ela estava morta e enterrada”.

Grávida, sem família, sem amigos, sem casa, sem emprego, nem dinheiro, foi explorada, humilhada, agredida e desrespeitada mais vezes que as que sabia contar. Chorou mais que todas as madalenas deste mundo e, até ser amparada e estimada pelo Almério e as suas meninas, sofreu maldades que nem o mais pintado dos mafarricos inventaria. Foram elas e ele que foram a verdadeira família com que sempre pôde contar. Mesmo com todo o seu arsenal de infindas malfeitorias, a verdade é que a má vida nunca a derrotou.

A Fatinha vendia amor de pechisbeque nos confins da serra da Agrela, mas foi sempre um ser humano de excelência, uma mãe extremosa e uma grande Senhora.

Descanse em paz Fatinha, foi uma enorme honra tê-la como amiga.

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