[Reportagem] Universidade sénior explora a fotografia como ferramenta de identidade

ATUALIDADE DESTAQUE

Projeto académico de Teresa Ribeiro e Ari Mouroa explorou a relação dos alunos da universidade sénior de Vila das Aves com a fotografia, seja no seu elemento mais físico, seja no próprio ato de fotografar. Iniciativa vai dar origem a duas exposições.

Mesmo atarefada pela correria do quotidiana, Lucília Monteiro, fotojornalista da revista Visão, entrou na sala de aula da escola de Cense, envergando as suas típicas jardineiras, carregada de histórias para partilhar com os alunos da universidade sénior de Vila das Aves.

A sessão daquela tarde de calor primaveril integrava o plano de atividades do projeto que Teresa Ribeiro e Ari Mouroa estão desde março a desenvolver com os estudantes da instituição avense com o propósito de explorar a relação das pessoas daquela faixa etária com a fotografia. E Lucília Monteiro, não defraudou as expectativas com que a atenção ininterrupta dos presentes a brindou.

Com experiências nos mais variados cenários, a enérgica figura madeirense recorreu aos arquivos da antiga loja de fotografia do pai, no Funchal, para editar um livro onde percorre as memórias de pessoas “anónimas” captadas pelas lentes ao longo das suas vidas, com o intuito de criar uma espécie de ciclo da vida fotográfico. Um processo de arqueologia social em tudo similar, apenas numa escala vastamente superior, àquilo que foi também pedido aos alunos da universidade sénior avense numa das fases deste projeto.

Foi a “cumplicidade artística” que fomentaram durante os três da licenciatura de Fotografia, da Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD), que levou Teresa e Ari a criar o coletivo “Terrário”, chancela com que se aventuram neste projeto que servirá de trabalho final do curso superior. Perceberam que queiram largar a “solidão” fotográfica e criar algo participativo, que envolvesse uma comunidade e lhes permitisse explorar dinâmicas de criação em conjunto. E a universidade sénior de Vila das Aves acabou por surgir naturalmente como plataforma ideal para o levar em diante.

“Primeiro”, como explicou Teresa Ribeiro, em conversa com o Entre Margens, “porque são pessoas naturalmente predispostas as aprender e experimentar coisas novas”, depois, porque “são uma amostra de uma faixa etária que acreditamos ter uma relação muito privilegiada, única até, com a fotografia. Relação essa que as gerações seguintes não têm”.

O “ato solene” de fotografar que o livro de Lucília Monteiro traduzia na perfeição a partir do acervo do pai, definiu durante décadas a relação das pessoas com a fotografia até que o digital colocou uma câmara no bolso de cada pessoa, ampliando o seu alcance, mas destilando o seu valor simbólico.

Uma solenidade que se estende para além do ato em si, transformando-se em memórias guardadas com minúcia nos recantos lá de casa, seja em álbuns fechados no fundo do baú ou expostas com orgulho entre paredes e móveis.

“Percebemos o impacto que a fotografia tem em suas casas”, explicou Ari Mouroa, subdividindo o processo desenvolvido com os alunos em dois momentos. “Fotografias da intimidade”, aquelas que levaram para as sessões e partilham com a turma e “fotografias na intimidade” quando lhes mostraram aquilo que têm dentro de suas casas.

O projeto de Teresa e Ari desenvolveu-se sob o desígnio da cocriação num delicado equilíbrio entre essas duas faces da privacidade da vida de cada um, conseguido através de uma total abertura e honestidade de parte a parte.

“Sobretudo sentirem que não queríamos roubar nada no espaço e da sua privacidade, queríamos apenas um pequeno pedaço que se sentissem confortáveis a mostrar-nos”, assegurou o fotógrafo natural de Penafiel.

Aventuras fotográficas

“Vivemos num mundo onde a fotografia é omnipresente, mas estamos a esquecer a linguagem da imagem”, argumentava Lucília Monteiro durante a sua sessão na Universidade Sénior de Vila das Aves. “Precisamos de aprender a ler uma fotografia da mesma forma como aprendemos a ler e a escrever um texto”.

E que melhor forma de aprender do que experimentar? Arminda Pinheiro integra o grupo de 15 alunos da universidade sénior que aceitaram o desafio de participar neste projeto. Isto, mesmo nunca tendo pegado numa câmara fotográfica na sua vida. Não podia estar mais satisfeita com o que aprendeu no processo.

“No dia em que peguei naquela câmara fotográfica senti que fiquei mais crescida”, confessou ao Entre Margens. “Depois gostei muito do resultado final porque ficou mesmo bonito. Vou olhar para a fotografia com outros olhos.”

Um sentimento que é comum um pouco por toda a sala. Teresa Ribeiro arrisca mesmo dizer que a grande maioria das mulheres daquele grupo nunca tinha pegado numa câmara fotográfica, ao contrário da maioria dos homens. Mas o objetivo não passava por transmitir técnica fotográfica, até porque já existe uma disciplina de fotografia no currículo da universidade. O propósito passava somente por abrir horizontes, dar liberdade para experimentar, para que a partir daí possam ter uma ferramenta para se expressarem artisticamente, mostrando as suas vidas e os seus interesses através de uma narrativa fotográfica.

“Quando lhes pedimos para fotografar arranjamos umas câmaras ‘point & shoot’ precisamente para que fosse o mais democrático possível e ninguém ficasse para trás. Há várias pessoas que nunca tinham fotografado na vida e, orgulhosamente, mostraram as suas primeiras fotografias de sempre. Aliás, uma senhora até nos confessou que levava a câmara todos os dias na bolsa. Tivemos resultados incríveis”, revela a fotógrafa de Santo Tirso.

A base primordial onde todo este projeto assenta é a ideia comunidade e trabalho colaborativo, onde a partilha foi total em cada passo que davam. Começando com as sessões de cianotipias, que ajudaram a desbloquear o grupo e a cimentar a confiança entre todos por ser um processo prático e flexível que, de um momento para o outro, põe toda a gente a dar sugestões sobre os trabalhos uns dos outros, até ao momento de entrega dos rolos com as fotografias, onde toda a gente mostrou as suas imagens e teve oportunidade de falar sobre as suas fotografias.

“Quisemos que este fosse um processo onde cada um pudesse existir e todos existissem em conjunto”, rematou Ari Mouroa. “Cada um deles tem a sua vida, tem o seu passado, tem a sua casa, a sua família. Há coisas que eles veem no dia a dia que não fazemos ideia. E quando eles trazem as fotografias, percebemos a sua perspetiva, o que cada um vê”.

Emoção das memórias

Clemente Sampaio é apaixonado por fotografia desde os seus 18 anos e desde então nunca mais parou. Tem um enorme arquivo fotográfico em casa pelo que o desafio lançado por Teresa e Ari para selecionar algumas fotografias do seu passado foi como mergulhar num oceano de memórias, algumas ainda bem presentes, outras já quase esquecidas que voltaram a assaltar-lhe as emoções.

“Quando vejo uma fotografia de há 50 anos não vejo apenas o que lá está. Vejo o momento em que foi feita. O ato e o convívio com quem fizemos a fotografia. Foi um processo muito emocional”, explicou ao Entre Margens, recordando com especial ênfase a fotografia de um casal que trouxe de França para Portugal no 25 de Abril. “Quando fui mexer nas fotografias e me apareceram as fotografias daquele casal veio-me à memória todo aquele momento e tudo o que vivi naquela altura. Foi muito forte”.

Ninguém escondeu a emoção daquelas sessões que poderiam ter durado horas e horas a fio porque as histórias, essas, inundavam a sala de aula. “Eles abriram-se ao processo”, dizia Teresa Ribeiro, e os resultados foram magníficos porque demonstraram que as histórias de cada um, seja qual for o contexto social e económico, tem um valor sensível e profundo.

“Queríamos mostrar que a fotografia podia ser de toda a gente e não pertencer a ninguém ou a um lugar específico”, acrescentou Ari Mouroa. “Podem-se criar narrativas muito interessantes com pouca coisa”.

Dos três meses de trabalho com sessões praticamente semanais vão sair várias ramificações artísticas. Para Teresa e Ari, a primeira finalidade é entregar o trabalho final de licenciatura que compreende, para além do relatório sobre o processo de criação, uma exposição no Centro Português de Fotografia, na cidade do Porto, com os retratos fotográficos feitos em casa de todos participantes, entre as suas fotografias, e um vídeo documental que explora as suas histórias. Mais tarde será organizada uma exposição no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves.

“Saímos os dois mais musculados deste projeto no que diz respeito à produção artística”, concluiu Teresa Ribeiro. “Este é um grupo de pessoas especial. Aqui descobrimos o lugar que achávamos que podíamos ter: esta ideia de cocriação artística, dando espaço aos outros para participar e criar connosco”.

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