Memórias da vila pela voz do ‘homem da luz’

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António Martins, também conhecido como ‘Homem da Luz’, foi durante anos responsável pela leitura e cobrança da eletricidade quando o serviço de distribuição era da junta de freguesia de Vila das Aves. Agora, puxa pela memória e reconta alguns episódios.

Quando se sentou no sofá do Entre Margens, António Martins vinha inseguro sobre o que iria dizer, mas as histórias, essas brotam-lhe com a naturalidade de uma fonte de água. Aos 86 anos de idade, o ex-funcionário do serviço de distribuição eletricidade da junta de freguesia de Vila das Aves e posteriormente da EDP é uma máquina de relembrar episódios caricatos e um conversador de primeira água.

Na semana em que a comunidade avense celebra 67 anos desde a elevação a vila, António Martins tem bem presente na memória o dia 4 de abril de 1955. “Era sexta-feira santa”, recorda, “lembro-me de ver o senhor Bernardino Gomes Nogueira sair à rua a tocar acordeão e do padre Joaquim da Barca deitar foguetes”.

Em meados da década de 50, a então freguesia de São Miguel das Aves tinha na presença da têxtil a sua característica fundamental. A grande indústria fixada no território fazia com que diariamente acolhesse milhares de pessoas nos seus postos de trabalho, uma condição que consequentemente se transpunha para duas vertentes: fixação da população e uma rede de infraestruturas invejável.

A rede elétrica, sobretudo, estendia-se já por todo o território, sendo “muito raro passar por qualquer sítio e não ter luz”. Foi neste cenário que, segunda metade dos anos 60, António Martins entrou para a junta de freguesia como funcionário dedicado ao serviço de distribuição de eletricidade e água, ganhando a alcunha que ainda hoje enverga, ‘Tónio da Luz’. Isto porque, sim, à época, era a junta avense que detinha geria esse serviço.

“Quando entrei para a junta fazíamos à volta de três mil recibos por mês de água e luz. Água eram poucos, não mais de duzentos, o resto era de luz. Durante anos fizemos aquilo. Eu, senhor Carneiro e o senhor Machado”, apontou. “Havia um preço base. A taxa era 2 escudos e cinquenta para comércio e 50 centavos para as habitações. Do dia 15 ao dia 30 de cada mês fazíamos recibos. Do dia 1 ao dia 15 começávamos com a cobrança e as leituras”.

“Quando entrei para a junta fazíamos à volta de três mil recibos por mês de luz e água. Água eram poucos, não mais de duzentos, o resto era de luz”

António Martins

No caso da água era diferente. Como explica António Martins, o que existia era uma rede de fontanários espalhados pela vila. Por onde passassem os canos, as pessoas podiam ligar, mas não era obrigatório. “Havia uns poços por trás de onde é agora o cemitério novo. O terreno era do Silva Araújo e foi ele que pagou a captação e os fontanários que eram ligados por canos”, refere. Para ajudar a água a chegar aos vários locais havia uns motores na Tojela.

A odisseia mensal que o conduzia por todas as casas da freguesia, ano após ano, permitem-lhe ter uma visão alargada da evolução do território e da comunidade ao longo das décadas.

“Lembro-me da primeira televisão pública que apareceu aqui nas Aves foi no café do Castro, ali perto do cinema, logo que apareceu a RTP. Mas mesmo tendo eletricidade ainda haviam muitas daquelas cozinhas em terra. Os consumos eram muito baixos, 2 kWh por mês era praticamente só a iluminação”, recorda António Martins.

Depois veio o 25 de abril e o serviço de distribuição de eletricidade deixou a gestão da junta de freguesia e passou a ser integrada nos serviços municipalizados e consequentemente na EDP. Uma transferência que António Martins classifica como “um desastre”, já que nunca foi pago “um tostão” pelo património da rede de distribuição. Ou seja, a junta de freguesia nunca teve qualquer contrapartida financeira desse processo. “Sei que se ficou a dever 50 mil contos e assim ficou até hoje”.

Esta transferência permitiu ainda perceber que o serviço prestado em Vila da Aves estava a “anos luz” da realidade de Santo Tirso, seja do ponto de vista técnico, seja do ponto de vista da organização. “Eu ficava doido quando vi como eles trabalhavam. Estavam muito atrasados. Eu fiquei a ganhar com a mudança, mas foi um desastre para a freguesia”, admitiu.

Quando olha em retrospetiva, não tem dúvidas que “antigamente” a junta de freguesia de Vila das Aves tinha uma independência que hoje não tem, precisamente porque “a eletricidade dava lucro” o que permitia fazer obras. Algo que hoje não acontece. Numa altura em que se prepara um novo concurso de concessão da rede elétrica, em que a câmara municipal irá certamente receber novas contrapartidas financeiras, António Martins lamenta que a “junta de freguesia não vá receber nenhum”, por nunca terem sido feitas as contas ao património que havia.

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