[Opinião] O Feminismo que incomoda

Ana Maria Lages CRÓNICAS/OPINIÃO

Há qualquer coisa de profundamente estranha numa sociedade que, em 2026, ainda precisa de discutir se as mulheres precisam ou não do feminismo. Talvez porque, para algumas pessoas, a palavra se tenha tornado maior do que aquilo que significa. Feminismo passou a ser associado a determinadas agendas, a posições políticas, a discursos mais radicais ou a uma certa forma de olhar para a sociedade. E, perante alguns desses excessos, há quem tenha concluído que o melhor caminho é rejeitar o conceito por inteiro. Não concordo.
O feminismo não é uma ideologia com proprietários. Não existe uma única maneira de ser feminista e, sobretudo, não é incompatível com ser conservadora, liberal, social-democrata. O ponto de partida é muito mais simples: homens e mulheres devem ter os mesmos direitos, a mesma dignidade e a mesma liberdade para decidir sobre as suas vidas.
Parece uma evidência. Mas ainda não é uma realidade absoluta. Basta pensar em algumas situações que continuam a fazer parte da vida de muitas mulheres. O receio de regressar sozinha a casa. A necessidade de pensar duas vezes na roupa que se veste para determinado contexto. A expectativa de que a maternidade deve ser prioritária, mas simultaneamente não pode interferir demasiado com a carreira. A pressão para corresponder a determinados padrões de beleza. A dificuldade em ser assertiva sem ser considerada agressiva. Ou a necessidade permanente de provar competência antes de receber o mesmo reconhecimento. Nenhuma destas questões desaparece porque conquistámos importantes direitos nas últimas décadas. E é precisamente por isso que me preocupa a crescente tentação de transformar o feminismo num inimigo.
É perfeitamente legítimo criticar determinadas correntes feministas. O debate deve existir. Aliás, um movimento suficientemente confiante nas suas ideias não deveria ter medo da crítica. Mas uma coisa é criticar o feminismo. Outra, bastante diferente, é convencer mulheres de que defender a sua liberdade exige rejeitar outras mulheres.
Quando a identidade política se constrói essencialmente através da oposição a um adversário, torna-se fácil transformar diferenças legítimas numa guerra cultural. De um lado, as “boas mulheres”. Do outro, as mulheres que pensam mal.
Uma mulher não precisa de abdicar da família para defender a igualdade, nem de rejeitar a maternidade para defender a liberdade. Da mesma forma, nenhuma mulher deveria ser obrigada a escolher entre a vida que deseja e aquilo que outros consideram ser a escolha politicamente correta. A verdadeira liberdade está precisamente aí: poder escolher.
Talvez seja esse o debate que estamos a perder no meio de tantas guerras culturais. Enquanto discutimos quem pode ou não reclamar para si a palavra feminismo, esquecemo-nos de discutir aquilo que ainda condiciona concretamente a liberdade das mulheres.
Não precisamos de menos debate. Precisamos de melhor debate. Precisamos de mulheres conservadoras, progressistas, liberais e social-democratas a discutir entre si. Precisamos de homens que percebam que a igualdade não é uma guerra contra eles. Precisamos de reconhecer conquistas sem fingir que todos os problemas estão resolvidos. E precisamos, sobretudo, de não cair na armadilha de acreditar que defender as mulheres implica escolher quais são as mulheres certas.
Enquanto uma mulher tiver de lutar para que as suas escolhas sejam respeitadas, enquanto a sua segurança depender do comportamento que os outros esperam dela e enquanto o seu sexo continuar a condicionar as oportunidades, dizer que já não precisamos do feminismo será, no mínimo, prematuro.
Talvez o verdadeiro progresso seja chegarmos ao dia em que a palavra deixe de ser necessária. Mas ainda não chegámos lá.

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