No Manifesto Comunista, Marx e Engels deixaram-nos duas ideias que continuam atuais: «A história de toda a sociedade até aqui é a história da luta de classes» e «a burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e com eles as relações de produção, e com elas todo o conjunto das relações sociais». A inteligência artificial (IA) é a expressão mais acabada dessa revolução permanente. Mas uma ferramenta não traz inscrito o seu destino. O que decide não é a máquina, é a relação social em que se insere. Por isso o capital, incapaz de imaginar a técnica fora dos seus interesses, já só tem para nos oferecer dois cenários de catástrofe: a superinteligência que nos pode extinguir e o aumento exponencial do desemprego. Ambos servem para semear o medo e fazer-nos aceitar a degradação das condições de vida.
Nas últimas semanas surgiram, por intermédio de vozes dos proprietários de empresas de IA, fantasias apocalípticas de que a IA poderá tornar-se uma superinteligência autónoma que nos ultrapassará e destruirá. A capacidade da IA advém da linguagem humana, do que gerações escreveram, discutiram e produziram. Os dados que a alimentam são o espelho do trabalho intelectual colectivo de gerações. Porém, se existe a capacidade de serem hostis à espécie humana, o perigo está em quem a instruiu nesse sentido ou não evitou tal possibilidade. Se o perigo está em quem instrui, a pergunta decisiva é, portanto, quem a controla. De momento, um punhado de empresas privadas, opacas e sem escrutínio democrático. O discurso do fim do mundo serve-lhes duplamente: apresenta-as como as únicas capazes de domar a fera e desvia o debate da exploração que já hoje molda a tecnologia.
A segunda profecia anuncia o desemprego em massa. Esconde uma contradição interna do capital. Cada empresa substitui trabalhadores para cortar custos; mas o lucro nasce do trabalho vivo, e sem salários não há quem compre o que as máquinas produzem. A automação de um sector cria, paradoxalmente, nova procura por trabalho humano noutras áreas – mas apenas se existir procura efetiva para esses bens e serviços e se os trabalhadores tiverem poder negocial para exigir salários dignos. Sem redistribuição, a automação total conduz a uma crise de procura agregada: se os salários tendem para zero, quem comprará os produtos? A automação total negaria o próprio capitalismo. Por isso o capital não dispensa os trabalhadores: desloca-os para outros setores e usa a máquina como ameaça para conter salários e direitos. Assim, o risco real não é o desemprego universal: é a intensificação da exploração, com mais vigilância, menos autonomia e salários contidos pela ameaça e concorrência da máquina.
A IA é produção social: dados gerados por todos e saber acumulado por gerações. A apropriação, porém, é privada: os lucros ficam com meia dúzia de multinacionais estrangeiras, que dominam ainda os centros de dados, consumindo quantidades gigantescas de energia e água. A questão decisiva é esta: quem controla a IA? Se deixarmos as grandes corporações monopolizar esta tecnologia, aprofundaremos a exploração, a desigualdade e a degradação ambiental. Resolver a contradição exige pôr a propriedade ao nível do carácter social da produção: dados como bem comum, com uso público e governação democrática; soberania sobre as infraestruturas; inventário e controlo público dos custos ambientais. Só assim podemos usufruir de todas as potencialidades da IA: a redução de horários de trabalho, a libertação do trabalho penoso, o reforço na investigação e cura de doenças. A máquina não é o inimigo. O inimigo é a relação social que a põe ao serviço de poucos
