Deduzo que entre muitos dos leitores haja um saudosismo do tempo em que as bouças andavam limpas. Da minha infância, recordo o batalhão de jornaleiros e caseiros de terras que ainda trabalhavam nas casas de lavoura de Landim, Carreira, Bente, Bairro, Areias, Lama e Sequeirô. A maior parte dos que conheci, eram já idosos. Eu não percebia que estava a assistir ao fim de linha desta profissão. Na minha simples maneira de ver o mundo, eram gente simples e pobre que trabalhava muito e recebia pouco. Posso ter saudades da felicidade da minha infância, passada em brincadeiras no meio de bouças, campos e presas, mas não posso ser saudosista do modo de vida dessas pessoas. Esses homens e mulheres tinham uma força admirável que eu, já em pequeno, sabia que nunca haveria de ter. À chuva ou ao sol, roçavam a imensidão dos montes à sachola porque as moto-roçadoras eram caras e, ao mínimo descuido, cortavam os rebentos das árvores novas. O mato roçado ia direitinho para as “camas do gado”, essenciais para, na sementeira seguinte, estrumar os campos. Nos pinhais – agora quase inexistentes – rapavam-se as carumas para colocar nos galinheiros.
Recordo-me também das manhãs em que, nos anos 70, enquanto aguardava o transporte para a escola, assistia sempre ao costume de duas senhoras, minhas vizinhas, andarem a roubar lenha. Manhã cedo, munidas de serra e fouce, começavam a cortar varas finas de pinheiros, carvalhos e eucaliptos. Eram paus de 3, 4 e 5 m de comprimento que raramente passavam os 15 cm de diâmetro. Às 8h já tinham inúmeras dessas varas cortadas. As duas corriam sempre entre as bouças e as suas casas, carregando os paus, com uma rodilha de pano à cabeça. Se se atrasassem, escondiam-nos próximo dos caminhos para que, de noite ou na madrugada seguinte, os pudessem ir buscar. Factualmente, toda a gente sabia o que elas faziam, mas todos fechavam os olhos e omitiam.
Hoje, deduzo que o costume de proteger os pobres que roubavam lenha, provém das injustiças criadas com as privatizações dos baldios, por cá realizadas, principalmente, nos séculos XIX e XX. Aliás, foi um caso único a nível europeu. A Espanha, a França e a Alemanha, por exemplo, mantêm os montes comuns, com legislações muito específicas que impedem muros e vedações, regram a gestão florestal, a recoleção de lenhas, a coleta de frutos, a gestão das águas e pastos.

Sob o lema de melhorar a produção desses terrenos coletivos, em oitocentos, a floresta portuguesa entrou num processo de privatização total. Em Santo Tirso e Famalicão isso foi bastante marcante. Os montes, que até aí eram de uso coletivo, forneciam espaço para que os mais pobres aí construíssem as suas habitações de madeira – as cabanas, tivessem pastos para os gados, matos para as cortes, alguns frutos – como a castanha (algo bastante importante para a alimentação da época) – e lenha para cozinhar e aquecer o lar. Com essas privatizações, os de parcos recursos foram espoliados no pouco que tinham. Se quem comprou saiu beneficiado, quem teve terrenos destes doados – sim, doados – ainda saiu mais. As elites burguesas do Liberalismo oitocentista produziram apropriações e distribuições de baldios muito duvidosas, gerando clientelismo e uma grande quantidade de injustiças, uma marca social indelével deste período. Tudo isto gerou inúmeros levantamentos e reclamações contra as administrações de muitos municípios, conforme se pode verificar nas atas dos séculos XIX e XX da Câmara Municipal de Santo Tirso[1]. Feitas as contas finais, os proprietários das casas das maiores quintas, já situadas nos vales, em terras mais férteis (por norma junto às igrejas), conseguiram legislar para se apropriarem também das terras mais agrestes das paróquias, murando-as e subtraindo-as de direitos básicos e vitais de então, como o aquecimento, os pastos para caprinos e ovinos (que desapareceram desta região nesse período), o acesso a águas de fontes e minas para rega e a recolha comunal de frutos e outros recursos silvestres.
Se noutros locais do país ainda sobraram alguns baldios, que no tempo do Estado Novo foram tomados pelos Serviços Florestais, por cá, nada restou[2]. Como os mais velhos assistiram, na ditadura muitos foram ainda subtraídos através de esquemas duvidosos que envolveram a legislação do usucapião ou a anexação a terrenos adjacentes. O que sobrou, e que ainda nos perdura na memória, foi o facto dos mais carenciados terem ficado sem nada, condenados a roubar para sobreviver. Daí que muitos fechassem os olhos ao roubo de lenhas. Já os proprietários destas novas terras, por sinal, na sua suposta “caridade e de fazer o bem”, incentivaram esses sem-terra, quase todos jornaleiros e criados de servir, a construir cabanas de madeira nas suas novas bouças de monte, para aí morarem, a troco de renda e vigilância contra o roubo das lenhas.
Foi esta a herança-mãe da atual floresta portuguesa que chegou até nós, um barril de pólvora totalmente murado, industrializado e lucrativo, dominado por eucaliptos e adverso às árvores autóctones e à biodiversidade. Quando arde é protegido pelo voluntariado dos bombeiros e por meios aéreos pagos pelo erário público.
[1]Sobre este assunto, vejam-se, por exemplo as Atas da Câmara Municipal de Santo Tirso das sessões de 18 de maio, 8 de junho e 3 de julho de 1899 que se encontram no Arquivo Municipal de Santo Tirso;
[2] Compare-se, por exemplo,no Arquivo Municipal de Santo Tirso, o número de baldios existentes em Sequeirô, Lama, Palmeira e Areias em 1974-77 (código de referência “Pasta 175 – 1974-1977: Pastas contendo processos relativos a inventários de baldios”) com o número dos que existiam nas mesmas freguesias em 1832-36, e que hoje estão no Arquivo Alberto Sampaio, de Vila Nova de Famalicão (código de referência “AMAS L5 Tombo de Bens do Concelho de Landim, L.º3.º, 1832-1836).
