A “cena” que Cristiano Ronaldo protagonizou na passada semana, abandonando a seleção, tem sido tema para uma multiplicidade de opiniões, muitas das quais desenvolvendo teorias à volta do “ego”. Segundo a imprensa, Mourinho, que conhece bem o futebolista, terá dito: “CR7 precisa de domar o ego”. No jornal “Público”, João Miguel Tavares titulava “Cristiano Ronaldo, o maior ego de todos os tempos” e admitia que a “única coisa que se aprende com tão triste episódio é ver os abismos até onde pode cair um ego descontrolado”.
São, porém, outras as cenas que me levam a fazer o paralelo com a atualidade futebolística.
Na última edição do Entre Margens publicamos um texto de José Pacheco, que lhe havíamos solicitado para melhor esclarecer um programa de comemoração de 50 anos do projeto “Fazer a Ponte”. O objetivo: fazer uma notícia. Depois de insistência em que pedíamos melhor esclarecimento, nomeadamente sobre o “Coletivo Fazer a Ponte”, o “protótipo de comunidades de aprendizagem”, os nomes dos conferencistas, recebemos aquilo que foi publicado: em vez de notícia, um convite para um encontro que “marcará o início das comemorações do projeto Fazer a Ponte”.
Uma informação de relevo contida no texto: “Aceitei o convite da Direção da minha escola para, no dia 10 de outubro, participar na Sessão Solene, que irá a decorrer na Escola da Ponte. Nesse evento, que comemora (….) o 50º ano do projeto…”. Esta afirmação é contraditada em texto publicado nas redes sociais e noutro recebido posteriormente e não publicado: “Não sei o que será celebrado no dia 10 de outubro”.
Este aparato comemorativo dual e pleno de equívocos foi criado pela pessoa que sabe da cronologia: “no ano letivo de 2025/2026, o projeto completará meio século de existência. Certamente, a Direção da escola, a Associação de Pais, a autarquia e os avenses irão preparar, condignamente, a efeméride”, escreveu Pacheco, em setembro de 2025 neste jornal. Falar de 50 anos da escola provocou ondas de choque. Na edição de agosto, defendemos que, afinal, os 50 anos que passam são, tão só, sobre o início do percurso profissional de Pacheco na Escola da Ponte, já que a escola é mais antiga e o projeto só começou a ganhar forma aquando da ocupação do novo edifício P3, anos depois.
Ora, lançada a ideia de celebrar uma efeméride, a escola assumiu-a. Mas é evidente o confronto. Pacheco não avaliza por inteiro o trabalho de professores e pais de alunos dos últimos vinte anos, acusando-os de traição ao projeto. Mas, catorze anos depois da mudança de instalações para o edifício de Negrelos, que Pacheco nunca quis entender, e vinte e dois anos depois da sua passagem à aposentação (não obrigatória, registe-se) e ausência para o Brasil, a Escola da Ponte está viva e recomenda-se: a avaliação externa recente deu-lhe menção de excelente em todos os domínios.
A seleção do jogo da bola demonstrou no terreno que a ausência do capitão a não afeta. No caso em apreço, a ausência do mentor não impediu que o seu projeto fosse assumido por gente que merece a admiração e o respeito de todos.
Combatem-se os egos fazendo pontes para o entendimento. Aqui está uma ponte por fazer.
