[Crónica] O Frenesim dos Nacionalistas Conservadores

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Desde o início da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Ocidente e o Oriente entraram num novo frenesim. A estupidez de não haver capacidade de diálogo entre os representantes de dois povos irmãos, com uma longa história comum, reverteu-se na flagelação das populações, subjugadas a uma nova era de caos e degredo humano.  As posições nacionalistas dos dirigentes das populações russófonas, de alguns dos oblasts do sul e sudeste da Ucrânia (Donbass e Crimeia), ao chocarem com as posições nacionalistas de Kiev, foram a mecha que ditou o avanço da máquina militar do imperialismo nacionalista-conservador de Moscovo. Já morreram mais de 12 000 civis e 32 000 soldados ucranianos. Os meios de comunicação ocidentais, em jeito de propaganda, têm apresentado inúmeros dados, todos eles díspares, sobre as baixas do Exército Russo. Também são muito duvidosos os números anunciados pela Rússia. Se acreditarmos em qualquer das partes, verificamos que podem ter sido entre 50 000 a 200 000, os militares desse país que tombaram na sua, suposta, “Operação Especial”.

Enquanto isso, combatentes do nacionalismo islâmico palestiniano, desesperados por mais de 100 anos de colonização, ocupação e subjugação sionista, a 7 de outubro de 2023, decidiram fazer justiça sanguinária pelas próprias mãos contra a população israelita, também ela administrada por um governo altamente conservador e nacionalista, dirigido por Benjamin Netanyahu. Esta lógica de vingança resultou em 1139 israelitas mortos e 247 reféns. Desde esse dia que Netanyahu tem tido carta branca para descarregar a sua ira contra um povo que sempre hostilizou, destruindo e aniquilando a Faixa de Gaza. Para já, o exército, às ordens deste nacionalista hebraico, matou já mais de 50 000 pessoas, a maior parte civis, entre os quais milhares de crianças.  

Simultaneamente, o governo turco, do nacionalista Recep Erdoğan, foi atacando e invadindo a vizinha Síria, com operações militares que, supostamente, “previnem” o seu país dos movimentos nacionalistas curdos que, tal como a maioria dos povos, pretendem um estado para a sua cultura e a sua língua. De forma dissimulada, na Síria, para combater o povo curdo, Erdogan tem apoiado até a Al-Qaeda. O Curdistão é a maior nação do mundo que não possui um estado, da qual fazem parte cerca de 30 milhões de pessoas, 14 das quais vivem na Turquia e, as restantes, entre a Síria, o Iraque e o Irão. Além disso, bem ao estilo da escola do seu amigo Putin, o governo de Ancara não se inibe de usar os seus serviços secretos para montar cabalas e assim perseguir e prender muitos dos seus adversários, como o que aconteceu, na semana passada, com o líder da oposição democrática e presidente de câmara de Istambul, Ekrem Imamoglu. De facto, 50 anos depois da invasão da ilha de Chipre, o nacionalismo turco, do pós-imperialismo otomano, continua a ser igual a si próprio, capaz de invadir e liquidar todos aqueles que lhes fazem frente.

Um pouco mais a norte de Ancara, o governo nacionalista do húngaro Viktor Órban, tem sido capaz de tudo para “brincar aos cavalinhos de Troia” no seio da União Europeia. O desprezo demonstrado pelo governo de Budapeste em relação ao humanismo e ao multiculturalismo, colocou a Hungria no nível dos estados párias. Além de não respeitar as instituições democráticas, manipular a imprensa a seu favor, beneficiar oligarcas e hostilizar refugiados e imigrantes, agora, alegando uma suposta “proteção da infância”, acaba de proibir, desfiles e manifestações LGBT.

Hoje, os nacionalismos já quase não passam pelo direito à autodeterminação das nações. Sob a égide da bandeira de um estado, que muitas vezes nem compreendem nem conhecem o significado, os nacionalistas conservadores, estão, de um modo geral, dispostos a combater e destruir os inúmeros passos que se deram em relação à tolerância e ao respeito das minorias. Estes passos deram-se, sobretudo, no século XX, no período do pós-guerra, depois do colonialismo e da derrocada das grandes ditaduras ideológicas. Tal como o neo-imperador nacionalista Donald Trump refere, os nacionalistas, obcecados pela valorização da nação e a defesa dos interesses do seu país, querem estar sempre em primeiro, ignorando todos os atropelos xenófobos que ditam, causados, em especial, pela superioridade étnica e cultural que defendem.

Tudo aquilo que tem sido edificado para aproximar as nações, vai ruir se esta fação política dominar a Europa e o mundo. A concretizar-se, todos aqueles que tombaram pelas conquistas de direitos básicos, como a liberdade de expressão ou o direito à diferença, terão morrido em vão. A Democracia é sempre uma conquista frágil.

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