[Crónica] Palheta Bendita: mais do que um festival, um património imaterial

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

A Associação Cultural Tirsense organiza, uma vez mais, nos próximos dias 14, 15 e 16 de junho, do corrente ano, no parque urbano de Geão, o “Palheta”, um festival dedicado às músicas do mundo. Esta é a décima oitava edição do evento, nascido em 2005, pela mão de um grupo de alunos da Escola de Música da Ponte Velha desta associação, que, motivados pela procura de conhecimentos relativos aos métodos de afinação e execução deste instrumento, organizaram, em grupo, oficinas de aprendizagem relacionadas com os inúmeros saberes da gaita-de-fole. Rapidamente, nas edições posteriores, dentro do universo da música folk/popular, programaram mais oficinas, dedicadas a outros instrumentos e práticas musicais, assim como inúmeras palestras e integraram, ainda, no evento uma mostra de construtores de instrumentos musicais, que perdura, desde a sua quinta edição, realizada em 2011, até hoje.

Este ano, além das oficinas de experimentação de instrumentos e da mostra de construtores de instrumentos musicais, provenientes da Áustria, Eslováquia, Galiza e Portugal, no cartaz dos seus nove concertos, constam nomes como os portugueses Dobaú, um projeto assente nas brincadeiras linguísticas e nos modos populares de aprendizagem da percussão: os trauteios e as lengas lengas; os italianos Mascarimiri, referência mundial da folk-eletrónica, representantes, não só, da cultura cigana do sul do seu país, como da música pizzica; o tunisino Amine Ayadi, um dos gaiteiros mais proeminentes de África, tocador eminente de mezoued, uma gaita de fole norte-africana; o eslovaco Juraj Dufek, um exímio construtor e tocador de gajdys, a gaita-de-fole do seu país; Tarwa N-Tiniri, um grupo de berberes marroquinos, que nos trazem os sons do Saara; a energia e a pujança dos portugueses Retimbrar;  o groove dos Fanfara Station, uma banda eletro-folk multinacional, que nasceu inspirada nas fanfarras dos emigrantes tunisinos em Itália; o coletivo nascido no GEFAC, da Universidade de Coimbra, os Colmeia, uma das revelações da música tradicional portuguesa; e o espetáculo de uma dupla de palhaços percussionistas, os Crassh_Duo Circus, que se apresentarão em palco com o coletivo  tirsense de utentes da Cooperativa de Apoio à Integração do Deficiente – CAID.

A cultura da gaita-de-fole, gradualmente, tem vindo a ser reconhecida, pela UNESCO, como património cultural imaterial da humanidade. Tal já aconteceu na Eslováquia e em França que, tal como Portugal e muitos outros países, possuem gaitas-de-fole de várias tipologias. Esta “cultura”, de um dos instrumentos mais populares entre os países da bacia do Mediterrâneo e da Europa Atlântica, por norma, inclui, não só o conhecimento profundo das formas de construir as gaitas-de-fole (com diferentes formas, materiais, palhetas e afinações) e de as saber tocar (como a respiração e os ornamentos), tal como inclui também os vários estilos, repertórios, trauteios e todas as manifestações imateriais que lhes estão associadas, como é o caso do vastíssimo número de rituais e danças.  Porém, apesar das diferenças, de região para região ou de país para país, o conhecimento mais atento faz-nos perceber que, nestas práticas musicais, as semelhanças são muito maiores do que as distinções e que, afinal, todos os povos estão muito mais próximos do que, muitas vezes nos querem fazer crer. Na realidade, os principais festivais dedicados à gaita-de-fole das áreas atlântico-mediterrânicas, são verdadeiras mostras de multiculturalidade e de aproximação entre as nações.

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