[Reportagem] Uma tarde a recordar histórias da Revolução com o Aviscena

ATUALIDADE

Companhia de teatro avense juntou cerca de duas dezenas de pessoas para gravar os seus testemunhos relacionados com o 25 de Abril de 1974 que serão compilados num documentário a apresentar no dia 27 de abril.

No hall de entrada do salão nobre da junta de freguesia de Vila das Aves sentia-se o pulsar de antecipação entre as cerca de vinte pessoas que acederam ao convite do Teatro Aviscena para prestarem o seu testemunho e recordarem a Revolução de 25 de Abril de 1974.

A caminho da celebração dos 50 anos, a companhia de teatro avense quer garantir que a história não desvanece com o passar dos anos. Para tal, avançou com a realização de um documentário para fixar para a posteridade os testemunhos sobre as vivências daquela época.

Ao Entre Margens, Cristina Ferreira, presidente do Aviscena, explica que o seu “maior receio” é a “dificuldade” de passar esta informação às gerações mais jovens que, muitas vezes, “não dão valor ao que se passou realmente no 25 de Abril”.

“Cinquenta anos não vai assim há tanto tempo”, acrescenta. “Se pensarmos que não tínhamos direitos, vivíamos na pobreza, as pessoas emigravam para viver melhor e para fugir à Guerra Colonial, pensei que tínhamos de marcar a data em Vila das Aves até porque foi uma experiência diferente de quem vivia em Lisboa ou Coimbra”.

Essa ausência de um registo de índole local foi a alavanca que impulsionou todo o projeto, dando voz a todos os que estivessem interessados, elementos da Universidade Sénior de Vila das Aves e a algumas figuras da terra para que no final, o documentário fosse uma amostra o mais compreensiva possível.

Após uma tarde onde foram gravadas cerca de duas dezenas de entrevistas, começaram a traçar-se algumas linhas gerais sobre a experiência relacionada com a Revolução.

“Primeiro, muitas pessoas emigravam para fugir à pobreza e não estavam cá no 25 de Abril”, começou por apontar Cristina Ferreira. “Ficaram muito felizes com o que estava a acontecer em Portugal porque sabiam a diferença entre viver em França ou na Alemanha e em Portugal”.

Em segundo lugar, “entre os que cá estavam” existiu alguma dificuldade em perceber imediatamente o que se estava a passar, porque praticamente só pela rádio se difundiam as informações fidedignas, não se experienciando o êxtase coletivo vivido sobretudo nas grandes cidades.

Terceiramente, algo que surpreendeu a própria dirigente associativa, está relacionado com algumas pessoas, sobretudo mulheres, sentiam a ditadura. “Não se apercebiam da ditadura fora de portas, porque a verdadeira ditadura se vivia dentro de casa”, realça.

Por fim, o “medo” e o “terror” da PIDE sobretudo para quem tinha pais ou familiares que frequentavam cafés e podiam estar sujeitos a ser levados por dizerem a cosa errada na hora errada.

Segue-se agora um processo de edição e montagem de todos os testemunhos para criar coerência temática e narrativa. Quando o projeto final for apresentado ao público no dia 27 de abril, incluirá não só o documentário como também um componente musical e teatral para complementar a obra.

“Não queria ficar só pelo documentário”, revela Cristina Ferreira. “Vai ser intercalado com música e teatro em momentos chave. Por exemplo, um monólogo da Senhora dos Cravos ou as senhas e contrassenhas que passaram na rádio. Queremos criar um momento único para que fique gravado na memória das pessoas”.

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