[Análise] Afinal, quanto custa a magia do Natal?

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Câmaras Municipais movem mundos e fundos para captar a atenção dos visitantes e incentivar às compras no comércio local. Orçamento para o Natal em Santo Tirso ascende aos 430 mil euros, muito acima dos valores gastos por Guimarães ou Famalicão.

A quadra natalícia é sinónimo de luz, cor e… gastos. Se no caso do comum dos cidadãos, são os presentes para a família e amigos que ocupam esse desígnio consumista, no caso das autarquias ele traduz-se no embelezamento do espaço público e animação temática.

O argumento é simples: numa época onde há mais disponibilidade financeira por parte das famílias, é preciso atrair-lhes a atenção, como visitantes e consumidores, usando o comércio local como bandeira.

Como explicou Alberto Costa, presidente da Câmara de Santo Tirso, quando questionado em Assembleia Municipal, “a ACIST e os comerciantes estão muito contentes, porque nunca fizeram tanto negócio como nos últimos anos”.

Assim acontece desde que o Natal se tornou neste foco de investimento público. Já não se trata apenas de iluminação alusiva à quadra ou erguer uma árvore e uma casa do Pai Natal. As “Cidades Natal” são verdadeiros parques de diversão com oferta para miúdos e graúdos e uma conta a condizer.

Santo Tirso é, pelos dias que correm, uma cidade engalanada com espírito natalício. E não é uma novidade recente. De há vários anos a esta parte a iniciativa “Aqui É Natal” toma conta das principais praças da cidade e as artérias centrais cintilam com a iluminação elegante. Há uma roda gigante, uma pista de gelo, um carrossel para os mais novos, comboio de Natal, um mercadinho que circunda a Casa do Pai Natal e, este ano, até um circo.

Isto sem esquecer o programa mais cultural e lúdico, sendo a tradicional exposição internacional de Presépios da Confraria do Caco o ex-libris de um conjunto de iniciativas que inclui concertos, sessões de cinema, teatro e contos de Natal.

Contas feitas, segundo o portal Base dos contratos públicos, consultado pelo Entre Margens no passado dia 15 de dezembro, a Câmara Municipal de Santo Tirso apresenta um orçamento para as atividades de Natal que totaliza os 350 mil euros, ao qual se tem de acrescentar o IVA à taxa em vigor, ou seja, 430 mil euros.

Formalmente, trata-se de dois contratos. Um contrato de prestação de serviços para “organização e realização do evento de Natal 2023” avaliado em 276 mil euros que envolve toda a logística, decoração e funcionamento do evento durante o mês de dezembro, e um outro contrato de prestação de serviços para a “Iluminação de Natal 2023” no valor de 74.600 euros.

De referir ainda que o valor das receitas dos divertimentos reverte a cem por cento para a Câmara Municipal, o que ajuda a amaciar as contas finais.

Santo Tirso não é caso único. Por todo o país, as autarquias apostam similarmente forte nas atividades de Natal num cenário de competição cerrada para garantir as diversões, equipamentos e serviços. No vale do Ave, dois exemplos saltam à vista para servirem de termo de comparação: Vila Nova de Famalicão e Guimarães.

No primeiro caso, as semelhanças são evidentes. Uma roda gigante, pista de gelo, carrossel, comboio, uma cabana solidária com mercadinho de Natal onde está situado o Pai Natal e um espetáculo multimédia que, segundo a autarquia, “se tornou numa das maiores atrações do Natal em Famalicão”.

No portal Base, o Município de Famalicão apresenta um concurso público em quatro lotes que totaliza o valor de 180 mil euros, denominado “Iluminação Festiva e Decoração para Quadra Natalícia”. Ao consultar a documentação é possível distinguir as várias frações e os seus destinos: 61 mil euros para a iluminação da cidade, 44 mil euros para a árvore de Natal, 55 mil euros para o espetáculo multimédia com pórtico e túnel de luz e 20 mil euros para a iluminação de freguesias do concelho.

A esta parcela, é preciso adicionar 49 mil euros despendidos na roda gigante e os 18 mil euros na Cabana de Natal (não foi possível descortinar valor para a pista de gelo), para um total de 247 mil euros mais IVA, ou seja, 303 mil euros.

Guimarães, por sua vez, faz uma aposta ligeiramente diferente. Com o centro histórico como pano de fundo, o programa “Cidade Natal” decorre após as tradicionais festas nicolinas e do cortejo do Pinheiro, usando o largo do Toural como centro das operações. Aí, ficam a árvore de Natal, a Casa do Pai Natal e o carrossel parisiense, sendo que no espaço contíguo ficam localizados cinco divertimentos infantis e juvenis, acompanhados de um espaço instagramável. Já no Largo Condessa do Juncal fixa-se o Mercado de Natal com artesanato e produtores locais e a zona de espetáculos: duas tendas cobertas e ligadas por um “túnel”.

De acordo com os documentos do portal Base, este programa, a que se juntam os espetáculos e a animação de rua, representam um investimento de 150 mi euros. Não foi possível encontrar o contrato relativo ao investimento em iluminação festiva, no entanto o jornal Reflexo Digital refere um valor global destinado ao Natal de 300 mil euros, citando o vereador da cultura da Câmara de Guimarães, Paulo Lopes Silva. Isto significa que esse valor deverá ser parte significativa dos restantes 150 mil euros.

Entre apenas estes três municípios do Vale do Ave, o investimento direto das câmaras em iniciativas de Natal ascende, portanto, para perto dos 900 mil euros.

“Nunca vimos as pessoas tão felizes como nos últimos anos, portanto vamos continuar a apostar no Natal, porque vamos ao encontro daquilo que as pessoas e os comerciantes querem”, rematava Alberto Costa, em reposta à oposição na mesma Assembleia Municipal.

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