[Crónica] Paz

Adélio Castro CRÓNICAS/OPINIÃO

Mal saíram do avião, uma brisa atabafada, voluptuosamente enroscada no inefável perfume da ancestral terra africana, abrasou-os, vívida e exuberante, como o sol que a crestava. Exatamente como da primeira vez, a vastidão daqueles horizontes a perder de vista e a beleza hipnótica quase inabarcável daquela terra imensa, sedenta e generosa esmagou-o, tolhendo-lhe, cerce e sem dó, o pouco fôlego que lhe restava.

Entalados entre densos matagais, ronceiravam já numa interminável picada, afidalgada aqui e ali por umas ralas manchas de alcatrão corroído, quando, sem aviso, uma cerrada cortina de nuvens crepusculou a paisagem, e um par de raios coriscou o ar, estremunhando-lhe as velhas memórias que, durante tanto tempo, em vão tentou sepultar.

Uns laivos da careta disforme com que tantas vezes acordava a gritar: “isto não é nada, vais ficar bem, vais ficar bem” assombraram-lhe o rosto, de pronto, a Idalina enlaçou-o, acariciando-lhe o rosto lívido e aconchegando-se ternamente ao seu peito, sentindo-lhe o coração num desvairado galope.

Ainda nem os ecos dos trovões se haviam desvanecido por completo e já uma diluviana bátega se abatia furiosamente sobre aquele chão ressequido e sedento. Encharcadas as velhas e sofridas sedes e lavada a alma daquela terra agora em júbilo, as nuvens debandaram um outro naco de céu e, de novo livre, o sol estrelou uma imensidão de gotas de chuva que languidamente cocegavam a paisagem.

Rolavam agora com as janelas do velho jipe abertas de par em par, regalados com uma imensa lufada de perfume a terra molhada. A Idalina sentiu-lhe o coração a amainar e, lentamente, a expressão de serena doçura que tanto amava foi reconquistando, uma vez mais, o rosto do seu Zé.

Olhando a paisagem onde esconde o inferno que acoita os pesadelos, os diabos e os fantasmas do seu marido, Idalina foi recordando a luta fratricida que, há mais de cinquenta anos, ambos travam contra a guerra que, sem querer, o Zé trouxe do Ultramar.

Apesar de tudo e todos lhe gritarem que estava à vista de olhos que a guerra lhe tinha arrancado a alma, a alegria, a bondade e a serenidade, ela nunca deixou esmorecer a fé de que, soterrado sob o peso daquela montanha de dor e de sofrimento, o homem da sua vida sobrevivia ainda. Acreditou sempre que aquela agressividade, a amargura, o pessimismo e o olhar mortiço não eram o seu Zé, mas apenas uma moléstia que o infetava. Rezou muito e muitas vezes para que ele conseguisse escapar do seu inferno privado e lhe voltasse a falar de amor, a futurar filhos e netos, a sonhar com a courela e a casita dos seus sonhos.  

Vinte anos de amor incondicional depois, quando pasmavam com um pôr-do-sol que dourava as nuvens que se espreguiçavam no céu, o Zé, inesperadamente, abriu-lhe as portas do seu inferno.  

Numa torrente desenfreada, falou-lhe do alferes Gonçalves que tinha sido atingido com uma “dum-dum” numa das primeiras operações em que participou, do Puto de Alijó que foi despedaçado por uma morteirada e do Coimbra a quem uma mina decepou uma perna e o sonho de ser pai.

Mas quando tentou falar do Transmontano, desabou num choro convulsivo que o sufocou. Só muito tempo depois lhe conseguiu descrever o seu castiço sotaque, a sua imensa bondade, a sua lealdade a toda a prova, os excelentes enchidos que a família lhe enviava, e que fazia questão de partilhar com ele, e as muitas aflições em que se entreajudaram.

De olhar vazio e expressão esgazeada pelo mais profundo sofrimento, conseguiu finalmente contar-lhe que, pouco depois de ter desabado, sobre a picada em que seguiam, uma chuvada tão grande que parecia querer alagar este mundo e o outro, o Transmontano foi atingido mortalmente numa emboscada.

Ela cingiu-o ao peito e, por muito tempo, ficou a embalá-lo enquanto ele repetia obsessivamente:

E eu não consegui ajudá-lo, fiquei para ali a vê-lo a esvair-se em sangue e a gritar isto não é nada, vais ficar bem, vais ficar bem.

A morte do Transmontano foi a gota que lhe inflamou um ódio desmedido e insano que as perdas anteriores tinham já acendido. Jurou que faria tudo o que pudesse para exterminar todos os que, de alguma forma, pudessem ameaçá-lo a ele, ou aos seus camaradas de armas. A partir daquele dia, tornou-se um guerreiro temível e impiedoso.

Mas o Zé era um homem bom e não tardou que à dor das perdas somasse a dor da culpa que o dilacerava por aqueles que tombavam às suas mãos.

E caiu, assim, no pior dos infernos.

Passados mais de cinquenta dolorosos anos, o Zé decidiu que era tempo de enfrentar cara a cara os seus demónios. Apoiado como sempre pela sua Idalina, viajou do Puto para a terra em que o transmontano tombou, para enfrentar o cenário do seu inferno, para homenagear os camaradas que por lá ficaram sepultados, e acima de tudo, para se encontrar com um grupo de ex-combatentes que contra ele lutaram do outro lado da guerra.

Bastaram poucos minutos para que os combatentes de ambos os lados concluíssem que arderam todos no mesmo inferno de ódio, dor, perda e culpa. Com um par de abraços sentidos, mataram e enterraram para todo o sempre aquele inferno maldito.

Já de regresso, o Zé depositou uma flor, uma oração e umas lágrimas em cada uma das sepulturas dos seus camaradas.

Quando ele acabou, a Idalina, de sorriso aceso, enlaçou-o pelas costas certa que ele finalmente encontrara a paz.

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