[Crónica] Hoje é Natal

Adélio Castro CRÓNICAS/OPINIÃO

Mal as longas noites de inverno começavam a amanhecer alvíssimas nos seus deslumbrantes mantos de flores de gelo, a criançada despertava com sorrisos de orelha a orelha, pois bem sabiam que estas esplendorosas auroras prenunciavam a chegada da mais mágica época do ano. A partir daí, até o caminho da escola se tornava mais leve, quase alegre, e o pipocar da terra encrostada de frio sob o peso das botifarras inverneiras soava-lhes a passos peregrinos guiados por uma estrela benfazeja em busca da boa nova.

Mofando descaradamente das suas ânsias, os dias pastelavam intermináveis, até que os pais, vencidos pelas instantes súplicas da pequenada, lá se deixavam arrastar pelos mais sombrios recantos das bouças numa eufórica colheita do musgo mais verde e mais felpudo das redondezas. Finda a colheita, atapetava-se cuidadosamente a colina que as mãos hábeis dos pais tinham montado e, no seu mais altaneiro cume, firmava-se a rústica gruta encimada por um belíssimo pinheiro. Depois, com faiscantes folhas de alumínio, rasgavam-se pela encosta abaixo, rios, ribeiros e lagos, com areia serpenteava-se uma emaranhada teia de caminhos e veredas e com um espetacular nevão de algodão em rama pintalgava-se de branco aquela verdejante colina encantada.

Agora, era chegada a ansiada hora de resgatar dos relicários, feitos de caixas de papelão surrado, as figuras do presépio zelosamente resguardadas em fartas camas de jornais velhos. Após muito põe, tira e torna a pôr, lá se encontrava o poiso certo para as figuras das igrejas, casas, escolas, moinhos e pontes. Nas encostas verdejantes dispunham-se os pastores e as suas ovelhas, junto aos rios e lagos, as lavadeiras, os pescadores e os moleiros, os lavradores e lavradeiras nos campos, e nos caminhos e veredas os cavaleiros, os almocreves, os tocadores de flauta, sanfona, ferrinhos e tambor. No início do caminho mais longínquo, colocavam-se os três reis magos montados nos seus camelos, ricamente ajaezados e na humilde gruta, os pais babados, a manjedoura, a vaca e o burro. Quando se colocava bem no alto do pinheiro a estrela e, finalmente, se deitava o menino Jesus na manjedoura, completava-se, uma vez mais, a imortal magia do presépio.

“Se o Natal é quando um homem quiser, eu quero então que hoje seja Natal. Quero uma pandemia de espírito de Natal”

A partir daí e até ao grande dia a esperança multiplicava-se, a vida tornava-se mais leve, a música mais alegre, a comida mais saborosa, os sorrisos mais bonitos e os abraços mais aconchegantes. Numa lufa-lufa, o mundo afadigava-se para descobrir a prenda perfeita, a agulha perdida no palheiro dos sonhos de cada um dos familiares e amigos. Parecia que, finalmente, a humanidade tinha tomado tino.

Chegado o dia de Natal, os lares enchiam-se de familiares e amigos carregados de votos, de abraços, de beijos e de presentes. Arejavam-se os melhores vinhos, chamava-se à liça os melhores fumados, enchidos e queijos, punham-se as mesas com as baixelas de festa, que sem tardança eram engalanadas com pitéus de estalo e guloseimas de chorar por mais. A noite enchia-se de luzes, de aromas a mesas fartas, de brindes, de gargalhadas felizes e de tropelias das crianças. Já noite velha, a pequenada vencida pelo cansaço, adormecia confiante que, mesmo tendo-se portado só “assim, assim”, o menino Jesus não deixaria de lhes pôr uns presentitos nas meias que já há um ror de dias tinham pendurado na lareira.

Fui sempre uma criança fascinada pela simbologia do Natal, bem cá para nós que ninguém nos ouve, acho que nunca deixei de ser.

O presépio devia ser o estandarte maior da Humanidade.

 Ele é um constante apelo, uma oferenda sempre renovada de um almejado novo mundo, onde, sem peso nem medida, campeiam a paz, a fraternidade e a justiça. Um mundo em que os Reis abandonam os seus palácios e peregrinam mundo fora distribuindo às crianças nascidas em manjedouras os seus preciosos tesouros. Um paraíso em que o filho de um carpinteiro pode ser tudo aquilo que quiser sonhar. Uma terra de fraternidade em que os mais pobres se apressam a oferecer aos recém-nascidos o quase nada que têm. Recanto abençoado onde, sem hesitações, até a vaca e o burro partilham a sua preciosa manjedoura.

Sempre me maravilhou aquele menino Jesus humilde, frágil, tão próximo, tão alegre e tão compassivo. Tão imensamente diferente do Deus que me pintavam na catequese sempre tão majestoso, tão implacável, tão austero e tão distante e que, por tudo e por nada, ameaçava com castigos mil. Podia-se lá duvidar, que aquele Deus de abraço fácil, nascido num estábulo perdido no fim do mundo, filho de um carpinteiro, nos criara à sua imagem e semelhança.

Encantava-me aquele Deus menino que, muito mais que pães e peixes, multiplicava a fraternidade e a esperança. Pasmava com aqueles Reis Magos que amavam o seu povo e com ele partilhavam os seu tesouros.

Se o Natal é quando um homem quiser, eu quero então que hoje seja Natal.

Quero uma pandemia de espírito de Natal.

Quero que os Reis Magos do nosso tempo montem os seus camelos e de novo peregrinem por esse mundo fora e façam ver aos “reis”, que por aí andam a tentar conquistar impérios, que a vida são dois dias e que eles, a muito breve prazo, serão apenas cinzas, pó e nada, tal como todos os seres humanos que sacrificaram no altar dos seus delírios de poder. Quero que gritem aos “reis” de Teerão, que o seu Deus ama as artes, a cultura, a música e a alegria e que é pecado mais que mortal condenar a dez anos de prisão jovens apenas por dançarem. Quero que convençam os “reis” de todo o mundo a partilhar com os seus povos o seu ouro, incenso e mirra.

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