[Crónica] O tempo dos saramagos e da meia sardinha

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Comer ervas está na moda. De facto, além desta prática ser ecológica, a sua revivificação ajuda também a que tenhamos mais consciência sobre a nossa história sócio alimentar. Enquanto nutrimento humano, o recurso à apanha de plantas silvestres, no contexto europeu, é mais evidente na culinária das regiões mais pobres, em especial as mediterrânicas, como a Calábria, a Provença, o Alentejo ou a Andaluzia, entre outras. Nelas, os coentros, o poejo ou o funcho, fazem parte do dia-a-dia. No entanto, em zonas de clima atlântico, onde se insere o litoral norte português, este recurso está mais conotado aos períodos de fome. O último, como é sabido por todos, foi o da Segunda Guerra Mundial.

Nessa época, em que o Estado controlou o racionamento e a comercialização de cereais, farinhas e pão, deram-se muitas revoltas. Entre outros exemplos, por cá, relembre-se as de São Tomé de Negrelos e Sequeirô, rechaçadas à cacetada por batalhões da GNR vindos do Porto, no verão de 1943. Na primeira freguesia, o levantamento popular é atestado no “Livro 35” do Arquivo Municipal de Santo Tirso – “Correspondência da Câmara Municipal de Santo Tirso com o Governo Civil (18 de fevereiro de 1942 – 16 de agosto de 1945)”. Na segunda, a memória local dos mais velhos ainda a tem viva. Motivo: as populações destas duas comunidades não queriam deixar que as colheitas de milho, produzido nas quintas locais, saíssem da freguesia. No desespero de não haver pão, negrelenses e sequeiroenses pretendiam comprar o milho em questão para cozinhar a própria broa. Sinos a rebate, ajuntamento e poder popular a bloquear a saída dos carros de bois. Heróis por umas horas, apenas… Feitos corajosos que, pelo menos, duraram até à chegada de um comboio qualquer, cheio de guardas e agentes da PVDE. Confiscados os carros de milho pelas autoridades, o desamparo continuou.

Muitas pessoas, na tentativa de adquirir um pouco do cereal, na candonga, de noite, iam a pé até ao concelho de Braga. Por vezes, na escuridão das bouças, perdiam-se nos caminhos ao atravessar os montes de Joane e Airão, e por aí deambulavam até ser dia. Em Guimarães, em maio de 1944, ficou famosa a Marcha da Fome, realizada por centenas mulheres operárias com os seus filhos ao colo, entre Pevidém e a câmara municipal dessa cidade, empunhando bandeiras negras. Na sua razão, clamavam ao presidente da edilidade por pão. À ditadura deve ter sido difícil acarear manifestações de mulheres e crianças esfomeadas… 

“Aos mais pobres, muitas vezes, restou-lhes comer apenas a famosa meia-sardinha, ou sardinhas ‘ardidas’, mais baratas que as demais por estarem fora do prazo”

Em Santo Tirso não houve marcha, mas no livro do Arquivo Municipal, acima referido, não faltam ofícios do Presidente de Câmara a solicitar ao governo o envio de vagões de milho colonial, com o intuito de colmatar a grave falta de pão. Justificava-se com o facto de este não ser um concelho unicamente agrícola e de o operariado não ter terras e não viver da agricultura.     

Tal como noutros períodos de grande escassez, segundo memórias que ainda nos chegam, nesse tempo da Segunda Guerra, o respigo, a caça, a pesca e a recoleção, ganharam alento, deixando, em muitos caos, o âmbito residual a que estavam remetidos. Foi o tempo “da meia sardinha para cada um” ou “dos saramagos”, uma erva silvestre aqui conhecida como alimento de coelhos domésticos. Mas, mais do que comer meia sardinha ou ervas bravas, esse tempo é, essencialmente, lembrado como o da escassez de pão de milho, uma fonte de hidratos de carbono importantíssima na alimentação de então.

No que diz respeito às ervas, os saramagos e agriões eram recolhidos e cozidos no caldo, mas, colmatavam somente as couves, e não o pão ou os feijões, ingredientes preponderantes das sopas correntes. Aliás, a água que sobrava desses caldos, com gordura de unto ou azeite, não se deitava fora. Nela, era colocada farinha, e assim se faziam as papas para a refeição seguinte. Lembremos também que nem todos tinham hortas porque não havia nem água corrente, nem poços. Aliás, estes só se massificaram a partir da década de 1960. Além da castanha pilada (descascada), à época ainda muito comum, do arroz e da batata, no tempo da guerra outro hidrato ganhou alguma importância: a bolota. Conforme testemunham os antigos moleiros do Ave, moeu-se nalgumas azenhas para alimento animal e até para fazer pão.

“Respigadoras” (1912) de George Erler (1871-1950)

Aos mais pobres, muitas vezes, restou-lhes comer apenas a famosa meia-sardinha, ou sardinhas “ardidas”, mais baratas que as demais por estarem fora de prazo. No entanto, outras plantas e bichos se comeram. Hoje, o seu consumo está em desuso. Da caça, muitos pássaros, consumidos fritos com arroz. Em especial os pardais, apanhados pela canalha com redes, alçapões e ratoeiras. Da recoleção, fruta roubada que não era pecado por ser para comer. Também podiam ser tortulhos, refogados com cebolas no azeite ou cozinhados numa arrozada. Das criações caseiras, os borrachos, filhotes de pombos, assados ou cozinhados em arroz; e ainda os refogados de “chinos” (designação popular dos porquinhos-da-Índia). Do talho, o mais barato, os pulmões de porco e vaca, usados para arroz de bofes, muitas vezes a única carne acessível aos mais necessitados em dias de festa. Deixamos ao leitor uma dica sobre os saramagos: cozinhados como os grelos de nabos ou nabiças, cozidos e depois refogados em azeite, são deliciosos. Saboreá-los é também não esquecer a “obscenidade da fome”, como escreveu o próprio José Saramago

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