[Crónica] Por onde vamos a banhos

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

O tratamento de doenças através da água foi divulgado pela ciência dos séculos XVIII e XIX que, aos poucos, popularizou não só as termas como o veraneio à beira-mar. A procura dos benefícios do iodo da água dos oceanos veio transformar a paisagem de inúmeros países, levando à atual sobreocupação costeira. Na primeira metade do século XX, grande parte das praias da costa norte portuguesa ainda permaneciam incólumes, não passando de baldios desérticos, ocupados apenas pelas casas de madeira das comunidades piscatórias ou das gentes que se dedicavam à apanha do pilado e do sargaço que, depois de secos, eram vendidos aos lavradores para adubar os campos. Contudo, desde o século XIX que várias localidades nortenhas como Espinho, Foz do Douro, Póvoa de Varzim ou Vila do Conde albergaram as elites burguesas e intelectuais das redondezas, interessadas nos banhos e ares da praia. Aos poucos, foram-se instalando e construindo casas de verão, a maior parte delas de arquitetura distinta, marcas do poder económico dos seus proprietários, chalés que ainda hoje caracterizam algumas das suas avenidas principais.

Por cá, a Póvoa e Vila do Conde eram os destinos mais próximos e preferidos das elites industriais do têxtil. Porém, mesmo com o comboio a chegar à Póvoa através da linha de Famalicão, no início do século XX o imaginário das classes trabalhadoras pouco aspirava ao veraneio balnear. Na realidade, além de não ter férias, a maior parte das pessoas também não possuía poder de compra para sair de casa.

No tempo do assistencialismo, algumas (muito poucas) empresas forneciam aos filhos dos seus trabalhadores colónias de férias. Era o caso da Colónia Balnear Narciso Ferreira em Vila do Conde e que funcionava associada ao universo das fábricas deste industrial de Riba de Ave: a Sampaio Ferreira & Cia. Lda.; a Oliveira Ferreira & Cia. Lda.; e a Empresa Têxtil Elétrica de Caniços. Desde o segundo quartel do século XX que esta instituição proporcionou a muitas crianças das freguesias mais orientais de Famalicão e Santo Tirso a oportunidade de passar algumas semanas nos areais vilacondenses. Para os outros, as únicas praias acessíveis eram as dos rios, como a de Portos, na Lama ou a de Santo Tirso que, num tom jocoso, consciente do espaço da baixa condição, eram alcunhadas como as “Praias dos Tesos”.

“Por cá, a Póvoa e Vila do Conde eram os destinos mais próximos e preferidos das elites industriais do têxtil, porém, mesmo com o comboio, o imaginário das classes trabalhadoras pouco aspirava ao veraneio balnear.

Nas décadas do pós-guerra, com a massificação do ímpeto turístico, muito mudou junto à costa. A partir daí, os mestres fabris e os pequenos comerciantes aspiravam já em ir à Póvoa ou Vila do Conde passar alguns dias com as suas famílias. Os pescadores, muitos deles agora alojados em bairros, tal como outros habitantes mais pobres, no verão sobrelotavam as suas habitações com gente no aluguer de quartos. Findo o estio, pelo outono a Póvoa enchia-se ainda de lavradores proprietários, também eles de Santo Tirso, Famalicão e Guimarães. Os poveiros apelidavam-nos de “ceboleiros”. Atarefados com as regas e as colheitas, só podiam veranear após as vindimas e os afazeres do vinho, nos meses de outubro e novembro.

Aos poucos, na década de 1970 a Póvoa e as Caxinas transformaram-se também num grande espaço de sociabilidade dos operários que aí chegavam de comboio e autocarro. A maior parte trabalhava em fábricas que paravam no mês de agosto. Tal como os “ceboleiros”, levavam consigo a cesta do merendeiro e o garrafão porque não tinham poder de compra para ir ao restaurante. Na praia, os mais velhos nunca tiravam a roupa e só as crianças iam à água. Na década de 80 enchiam as nacionais do litoral com motorizadas 50cm3 onde, além do pai e da mãe, ainda transportavam dois ou três filhos. Conscientes dos riscos das duas rodas, aos poucos, começaram a adquirir automóveis.

Vila do Conde acolhia também operários, mas em menor número. Eram maioritariamente de Santo Tirso, Paços de Ferreira, Famalicão e Guimarães. Com menor afluência de autocarros, um urbanismo mais a salvo da pressão imobiliária e da oferta de quartos baratos, permaneceu mais elitista e mais cara, inacessível às carteiras mais leves. Aí, na linha de costa, ainda hoje se destacam as grandes casas e quintas dos maiores industriais da têxtil do Ave.

A montante, este rio de fábricas, doente e moribundo, é um mundo de trabalho. A jusante, cura-se no mar que tudo lhe aceita e dilui, e transforma-se num mundo de férias.

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