[Crónica] Menina dos seus olhos

Mal afagou ao de leve a primeira tecla, a agonia, que sempre a oprimia antes dos concertos, serenou. Celérrima, varou o teclado num furioso e retumbante trovão, que, súbita e inesperadamente, abonançou com maviosos silêncios e sussurrantes e delicadas sonâncias. Num absorto enlevo, as mãos voejavam-lhe soltas, delicadas e firmes, teclado fora, enquanto a música, despótica, tanto a vergava prostrada e dorida, como a reerguia pacificada e serena, ou, de supetão, a empertigava arrebatada e soberba como uma rainha. Finalmente, recortados contra o fundo negro do palco por um singelo cone de luz crua, silenciaram-se apoteóticos, ela e o piano.

Levantou-se e, ansiosa, perscrutou a plateia que se ergueu em peso num fragor de aplausos. Viu-o elegantíssimo de fato e gravata, sobraçando um enorme ramo de rosas, numa inquieta e sofrida apreensão. Impertinentes, sucessivos “flashes” matraqueavam-na, enquanto ia executando os “encores” que os entusiásticos aplausos lhe cobravam. Viu-se, criança ainda, na primeira das muitas vezes, que, sozinha, esperou em vão, que ele a viesse buscar. Sentiu, uma vez mais, a chaga de tantas ausências, a vergonha de o ver a tropeçar nos próprios pés e o pânico de o ver caído pelos cantos sem sentidos. Doeu-lhe, uma vez mais, o vexame de o ver entrar a meio das suas audições a cambalear. Recordou o terror que a encolhia num canto do seu quarto, quando ele se tornava agressivo.

O Toni, Ponchos para os amigos, num momento muito difícil da vida, deixou-se enfeitiçar pelos fugazes encantos do álcool, que, num instante, não só lhe arrebanharam o emprego, a casa, a mulher e a menina dos seus olhos, como o marcaram a fogo com o ferrete de “sem abrigo”. Com a ajuda de um amigo e uns restos da sua antiga têmpera, conseguiu escalar a traiçoeira montanha da desintoxicação. Com uma mão cheia de vitórias e outra de derrotas, tem vindo aos poucos a caboucar uma vida nova. No entanto, o terror de bater à porta daquela que foi a sua casa, e de voltar a ver a repulsa nos olhares da sua família e, especialmente, nos olhos tristes da sua menina, tem sido o demónio que lhe vem periclitando esta sua ainda tão frágil e indefesa vida. É este impiedoso carrasco que o tem, sistematicamente, esmagado à porta da casa e da vida que já foi sua.  

Penou como um danado naquela meia dúzia de dias que faltavam até ao concerto. Arengava-lhe, de um lado, a razão, que ela nunca lhe perdoaria aquele imenso mar de porcaria com que quase a afogou e, do outro, ciciava-lhe o coração que na gigantesca alma da sua menina cabiam todos os perdões do mundo. Num crescente desassossego, monologava sem parar com o seu amigo.

“Quem diria que daquelas folhas que, naquele dia, o amigo deixou às escondidas na caixa do correio que já tinha sido do Ponchos, floresceria passado tanto tempo, um tão belíssimo ramalhete de esperança”

Adélio Castro

– Já viste como a minha menina está linda? Mesmo sem pai, a minha menina realizou o seu sonho. A minha menina é pianista. E eu não estive lá, meu Deus, eu perdi isto tudo. Como é que se pode ser tão burro? O que é que vou vestir pá? Só tenho trapos velhos. Achas que será melhor oferecer-lhe flores? Achas que ela as aceitará? Pois, é claro que não. Porra, já sei que vou fazer figuras tristes, outra vez.

Numa trigança febril, correu, vezes sem conta, todas as lojas da cidade e arredores e, mesmo assim, o fato e a gravata que, finalmente, muito a custo escolheu, não lhe pareciam, nem pouco mais ou menos, à altura das circunstâncias. No dia do concerto foi ao cabeleireiro e escanhoou-se até sangrar. Duas horas antes do concerto já estava na sala a sentar-se e a levantar-se de novo a cada dez segundos.

Enquanto tentava serená-lo, o seu amigo rememorou o dia em que recebeu de uma pianista, que não conhecia de lado nenhum, dois intrigantes convites para o seu próximo concerto, e o momento em que, depois de ter dado mais voltas ao bestunto que um carrocel oito, se deu conta que a pianista tinha o mesmo apelido do Ponchos. Foi a correr contar-lhe a novidade e ele, quase o matando de susto, ficou, coisa nunca vista no Toni, durante mais de quinze longos e assustadores minutos em absoluto silêncio, dando a palavra às lágrimas que lhe corriam cara abaixo. Sulcava-lhe o rosto o mesmo sofrimento redentor que lhe viu quando, a seu pedido, se despedaçou em furibundos gatafunhos num monte de folhas onde gritou à família que já fora sua, o seu desgosto, a vergonha, a dor de os ter perdido e de não ter conseguido ser pai, nem marido. Contando-lhes as lutas do último ano, a grande vitória do primeiro trabalho, do quartito que pensava alugar, da bebida que não o vencia há meses e das vezes que caiu e que se voltou a levantar. Confessando-lhes, finalmente, o seu sonho de um dia voltar a ter um Natal em família com o precioso presente de um abraço da menina dos seus olhos.

Afinal a tão, aparentemente, infausta peregrinação do último Natal à outra vida do Ponchos, relembrou-nos que, não poucas vezes, o direito se escreve por linhas bem tortas. Quem diria que daquelas folhas que, naquele dia, o amigo deixou às escondidas na caixa de correio que já tinha sido do Ponchos, floresceria, passado tanto tempo, um tão belíssimo ramalhete de esperança.

No último “encore”, que dedicou a uma pessoa muito especial, exalçada, dilacerou-se fremente e em carne viva. Quando finalmente os aplausos abrandaram, fez-lhe sinal para se aproximar. Ele, atónito, tentando desesperadamente conter as lágrimas que o rebentavam de felicidade, subiu ao palco e, tremente, ofereceu-lhe as rosas. Ela emoldurou-lhe o rosto com as mãos, puxou-o a si e enlaçou-o num longo e sentido abraço e ele, exangue, esvaiu-se nos seus braços num apaziguador e silencioso pranto.

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