[Reportagem] Em época de exames, as falhas do sistema exponenciaram a ansiedade dos alunos

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Depois de meses de preparação, milhares de alunos do ensino secundário viram o esforço ser ofuscado pelos problemas na classificação dos exames nacionais de 2026. Atrasos na divulgação das notas, classificações suspensas e erros na plataforma geraram indignação e aumentaram a ansiedade de quem depende destes resultados para entrar no ensino superior.
A divulgação das classificações da 1.ª fase dos exames nacionais ficou marcada por vários problemas técnicos no processo de classificação. Milhares de provas foram colocadas em estado de suspensão devido a falhas na plataforma utilizada pelos classificadores, impedindo a publicação atempada das notas e obrigando o Ministério da Educação a adiar a divulgação dos resultados para os exames afetados.
A situação teve impacto direto no calendário de acesso ao ensino superior. Muitos alunos só conheceram as classificações dias depois do previsto, enquanto outros viram as provas sujeitas a nova validação ou tiveram de recorrer à segunda fase apenas conhecendo as notas da primeira, dois dias antes. Os atrasos e a incerteza geraram críticas por parte de estudantes, famílias e escolas, que alertaram para o impacto das falhas num momento decisivo para o futuro académico dos candidatos.
Sofia Ferreira, de 18 anos, aluna do 12.º ano da Escola Secundária D. Afonso Henriques, descreve o esforço feito para chegar aos exames. “Passei praticamente três semanas seguidas sem sair de casa, a preparar o exame de português e matemática. Estudei quase oito horas por dia. Eu sei que isto é uma porta para o meu futuro, por isso dei tudo de mim.”
O choque surgiu quando começaram a ser conhecidas as falhas no sistema de classificação. Para Sofia, a situação gerou revolta e impotência. “Parece que vês o teu futuro a fugir do teu controlo sem teres culpa nenhuma.”
A estudante explica que muitos colegas foram diretamente afetados pelos problemas. “Muitos amigos meus tiveram de desmarcar férias para poderem ir agora fazer a segunda fase porque só souberam as notas dois dias antes. Outros tinham as notas suspensas e mesmo aqueles que tinham as notas ‘corretas’ tiveram de pedir para rever o exame porque era impossível terem só aquele valor, pois sabiam que só pelas respostas de escolha múltipla deveriam ter um resultado superior.”
Também Luana Ferreira, de 18 anos que estuda na mesma escola, recorda que as semanas que antecederam os exames foram dedicadas quase exclusivamente ao estudo. Além dos resumos e fichas de preparação fez todos os exames dos anos anteriores.
“Enquanto via os meus amigos a sair eu nunca fui, pois sabia que tinha de continuar a estudar porque estes exames podem decidir a entrada no curso que quero. Há uma pressão muito grande, porque sentimos que anos de trabalho podem depender de duas ou três horas de exame.”
Depois da realização das provas, o descanso nunca foi completo. A incerteza em relação às classificações manteve-se presente. “Estamos sempre a pensar se respondemos bem, se esquecemos algum pormenor ou qual será a nota. Cada vez que alguém fala do exame voltamos a fazer contas e a comparar respostas, o que muitas vezes só aumenta a ansiedade.”
As notícias sobre os problemas na classificação vieram agravar esse sentimento. Segundo Luana, depois de meses de preparação, é difícil aceitar que o futuro possa ficar condicionado por falhas alheias aos alunos.
“Quando começaram a surgir notícias de exames suspensos, problemas na plataforma e notas atrasadas, pensei logo: ‘E se isto me acontece a mim?’. Não é só uma nota. Pode significar entrar ou não no curso que queremos, mudar os planos ou até perder uma oportunidade.”
A estudante considera que a pressão associada aos exames já é suficientemente elevada e que os alunos não deveriam ter de lidar também com problemas administrativos.
“No fim de contas, parece injusto que o nosso futuro possa ficar condicionado por erros que não cometemos” *Texto de Mariana Martins e editado por Paulo R. Silva.

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