[Opinião] Presidenciais, fragmentação e o efeito do voto útil

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

No penúltimo domingo conhecemos os resultados das últimas eleições presidenciais. Houve um número elevado de candidatos numa eleição em que poucos eleitores se sentiram verdadeiramente representados por uma campanha agregadora em torno de um nome forte. Isso levou à multiplicação de candidaturas, tanto à esquerda como à direita.

Esta fragmentação fez também com que muitos candidatos, em vez de discutirem ideias e projetos para o país, passassem grande parte dos debates e da campanha a atacarem-se mutuamente, procurando mostrar ao eleitorado porque seriam a melhor opção em comparação ao outro.

Até ao fim, o resultado foi algo imprevisível. A segunda volta parecia inevitável. Sabia-se que havia cinco candidatos mais bem posicionados para lá chegar, mas mesmo dentro desse grupo houve várias mudanças ao longo da campanha. Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes surgiram inicialmente como favoritos, mas acabaram por ficar nos últimos lugares desse conjunto de cinco.

André Ventura e João Cotrim de Figueiredo ficaram em segundo e terceiro, respetivamente. Apesar dos estilos diferentes, representam opções que não são assim tão distintas. Cotrim apresenta uma imagem mais polida, mas defende uma visão constitucionalmente diferente, assente numa maior desproteção de quem tem menos, aumentando a desigualdade, numa subserviência aos que têm mais. Um defensor discreto, mas firme, da ideia de que quem paga o baile escolhe a música.

À esquerda do PS, o resultado foi bastante fraco, penalizado em grande medida pelo voto útil promovido pelas sondagens quase diárias.

António José Seguro venceu a primeira volta e, disputando a segunda com Ventura, tem grandes possibilidades de vir a ganhar. Todos os democratas são chamados a apoiar António José Seguro. Ainda assim, o primeiro-ministro Luís Montenegro afirmou que não apoiaria nenhum candidato por não haver ninguém que representasse o PSD. Como se o partido estivesse acima do país. Para quem fala tanto de Sá Carneiro, segue pouco os seus conselhos.

Marques Mendes e Cotrim também optaram por não apoiar nenhum candidato, deixando claro, aos olhos de todos, que a defesa da democracia pouco lhes interessa.

Em condições normais, também não apoiaria Seguro. Mas neste caso somos chamados a lutar pelos nossos direitos mais básicos, apoiando alguém a quem possamos, depois da eleição, exigir avanços concretos e com quem seja possível manter um diálogo democrático.

Em muitos países, e com sucesso, os democratas apoiaram candidatos que, apesar de defenderem ideias diferentes das suas, atuavam dentro do campo democrático, aconteceu em França, nos Estados Unidos e mundo fora.

Isto significa que não existem diferenças profundas dentro do campo democrático? Claro que não. Mas em momentos como este é essencial perceber quem será o melhor interlocutor para avançar e quem, do outro lado, defende ideias autoritárias, espalha mentiras em vez de factos para ganhar votos à custa do medo. Quando alguém diz que Portugal precisa de “três Salazares”, a escolha deveria ser óbvia.

O meu maior desejo é que, no futuro, não tenhamos apenas de defender a opção democrática, mas possamos escolher quem é capaz de imaginar e construir um futuro melhor. Mamdani, em Nova Iorque, mostrou-nos como uma visão diferente e um plano alternativo àquele que nos tem falhado pode vencer. Um futuro diferente é possível. Que a luta pelos direitos que já temos não nos impeça de lutar por mais, por um país diferente, que funcione para todos e não apenas para alguns!

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