Gonçalo Levy Cordeiro, dirigente, assessor e influencer da Iniciativa Liberal, conseguiu a proeza (tão comum ao seu partido) de estabelecer uma relação entre a tragédia, na sequência da tempestade que assolou o país, particularmente a zona centro, e a participação pública na TAP e na EFACEC. Deixo de parte, por agora, a inenarrável posição da IL sobre as alterações climáticas, que têm vindo a agudizar este tipo de fenómenos, que vai do negacionismo ao quietismo.
Por via das dúvidas, mais vale não fazer nada, mas culpar o socialismo e retirar dividendos da tragédia.
Cordeiro divulgou prontamente um vídeo que viralizou, comentando a alegada insuficiência de fundos do Governo para enfrentar as necessidades decorrentes da tragédia. Cordeiro culpa o dinheiro investido na TAP e na EFACEF, num país, nas palavras do próprio, pobre.
É um raciocínio que tem tanto de demagógico quanto de preguiçoso (como é seu apanágio, aliás).
Em primeiro lugar, seria preciso calcular o “gasto” em relação ao “impacto” que a não intervenção nessas empresas teria na economia (o que não invalida que se possam ter boas razões para se ser, em alguns casos, contra o regate estatal a empresas. É outra discussão).
Em segundo, tece uma falsa equivalência entre dinheiro para X ou dinheiro para Y num governo que herdou um excedente orçamental (de um governo socialista, vejam bem), não obstante a despesa a que se refere.
Em terceiro, é estranho que Levy Cordeiro não tenha tido a mesma preocupação com o “pobre” país, diante da forma como este governo decidiu desbaratar o excedente herdado. Relembro, com borlas fiscais. Borlas fiscais regressivas, que impactam apenas nos que menos precisam.
E há pelo menos uma diferença fundamental entre a despesa com a TAP e com estas borlas fiscais. A primeira aconteceu uma vez, não é recorrente, as últimas são permanentes. É uma receita retirada, doravante, dos recursos públicos. A sua ausência repetir-se-á em todos os orçamentos anuais. É só fazer as contas, como diria um ex-primeiro-ministro socialista!
Portanto, seguindo o silogismo de Levy, se um país é pobre para poder “escolher” a TAP em detrimento das famílias de Leiria, então também o é, por maioria de razão, para se dar ao luxo de dar uma borla fiscal aos ricos, cuja receita bem fazia falta a estas famílias.
Obviamente, não mereceu a mesma consideração da sua parte, pois essa medida representa todo um programa da IL para a sociedade. É o que têm para oferecer.
Ironia das ironias, aceitar as premissas de Levy Cordeiro implica concluir a inviabilidade do programa económico da IL.
A lógica é tramada e até para ser populista, é preciso ter o mínimo de argúcia.
