Enquanto o “comboio de tempestades” atravessa o país, sobretudo o centro, deixa atrás de si um rasto que parece saído de um cenário de guerra: telhados arrancados, fábricas destruídas, árvores tombadas sobre estradas, muros caídos sobre carros, bairros inteiros sem luz, sem água, sem comunicações, sem acesso a dinheiro. Em poucas horas, o que chamamos “normalidade” — os serviços, as cadeias logísticas, as instituições — entraram em colapso parcial. E então, no meio dos escombros, revelou-se a dita “natureza humana”.
Dizem há décadas (até séculos) que a natureza humana é, por essência, egoísta e competitiva. Que cada um zela apenas pelo seu próprio interesse ou da sua família. Que, em situações extremas, impera a lei do mais forte. Mas o que se viu foi o contrário: uma maré de cooperação, de solidariedade, de auto-organização popular. Pessoas que abriram as portas, partilharam comida, emprestaram geradores, carregaram móveis, limparam ruas, cozinharam para quem nada tinha. Muitos dos episódios que ocorreram em resposta à catástrofe encontram respaldo num livro recentemente lido – “A Cooperative Species: Human Reciprocity and Its Evolution”, dos autores Samuel Bowles e Herbert Gintis. Esta obra demonstra que, ao contrário da ideologia dominante, a cooperação é um traço evolutivo profundamente enraizado na espécie humana. Com inúmeros exemplos históricos, provam que ocorreu uma evolução genética e cultural, impulsionada por intensa competição, guerras e desafios ecológicos, em que os grupos fortemente cooperativos superaram os demais. Tal evolução faz com que, em contextos de ameaça coletiva, o instinto desperte, dando origem a redes de ajuda mútua em torno da defesa do bem comum.
E foi exatamente isso que vimos, por exemplo, na Marinha Grande, onde o centro de trabalho do PCP transformou-se num verdadeiro quartel-general de ação coletiva: Formaram-se brigadas para confecionar e distribuir refeições, equipas para desobstruir estradas e reparar telhados, grupos para ajudar lares e creches a salvar o que restava, deslocando os utentes e equipamentos para locais seguros. A organização política deu forma a essa vontade coletiva. Estes dias mostram que, quando as engrenagens habituais do capitalismo falham, não estamos fadados a mergulhar no caos. Pelo contrário, existe potencial de reorganização. Descobrimos, na prática, que cada um depende de todos. E nessas situações-limite nasce também uma consciência: a de que a sobrevivência, a par da reprodução da vida social, é sempre um ato coletivo.
Porém, por muito que estas redes de apoio possam desempenhar um papel relevante enquanto experiência prática de cooperação e produção de confiança coletiva, desconstruindo a ideologia individualista, também são sintoma de lacunas graves e contêm limites. Quando milhares de pessoas ficam dias sem eletricidade, água ou comunicações, estamos perante uma falha estrutural do Estado, cuja capacidade de resposta é cada vez menor face a décadas de desinvestimento, privatizações e desmantelamento dos serviços públicos. Pelo que estas redes de apoio são, também, fruto dessas lacunas graves. Por outro lado, podemos distribuir alimentos, limpar ruas, transportar móveis, mas só uma entidade pública poderá religar redes elétricas, reconstruir telecomunicações ou garantir abastecimento de água em larga escala. Isso exige planeamento, meios, infraestruturas públicas fortemente capacitadas e controlo público de setores estratégicos.
Por isso, a transformação social não pode ficar-se pela ajuda imediata. Essas redes de apoio só se tornam verdadeiramente transformadoras quando se ligam a uma luta política mais ampla, capaz de mudar as relações de poder e reorganizar estruturalmente a sociedade. Sim, só o povo salva o povo. Mas só o povo organizado emancipa o povo.
