[Opinião] A força silenciosa da democracia

Ana Maria Lages CRÓNICAS/OPINIÃO

A leitura dos resultados eleitorais em Portugal tem vindo a ser, nos últimos anos, acompanhada por um ruído quase permanente: o da inevitabilidade do crescimento das forças populistas, como se o país estivesse condenado a uma trajetória irreversível.

Essa narrativa, repetida à exaustão em debates, comentários e análises rápidas, parece muitas vezes dispensar a observação fria dos factos. Porém, a realidade política é quase sempre mais complexa do que as profecias que se autoalimentam.

Os últimos atos eleitorais mostraram um fenómeno interessante. Apesar do crescimento de discursos que exploram o descontentamento social e a frustração com o sistema político, existe também uma capacidade de mobilização do eleitorado que valoriza princípios fundamentais da democracia portuguesa.

Essa mobilização não surge necessariamente como uma adesão entusiasmada a projetos políticos específicos, mas antes como uma reação consciente à perceção de risco institucional.
Num tempo em que a política vive cada vez mais da dramatização e da simplificação, a tentação de transformar qualquer subida eleitoral num sinal de inevitável conquista do poder revela mais ansiedade do que análise. O crescimento de determinados movimentos não significa, automaticamente, a sua consolidação como alternativa maioritária. Pelo contrário, pode ser o reflexo de ciclos de protesto que encontram limites quando confrontados com a necessidade de alargar consensos.

Importa reconhecer que o eleitorado português continua a demonstrar uma forte ligação a valores estruturais como o respeito pela Constituição, a defesa das minorias e a ideia de coesão social.

Estes princípios, muitas vezes vistos como abstratos ou excessivamente institucionais, revelam-se, afinal, fatores mobilizadores quando existe a perceção de que podem estar em causa.

A democracia não se sustenta apenas na participação eleitoral, mas também na capacidade coletiva de identificar linhas vermelhas.

Por outro lado, não seria prudente interpretar estes sinais como uma vitória definitiva do sistema político tradicional. O crescimento de forças contestatárias resulta, em grande parte, de fragilidades acumuladas: desigualdades persistentes, dificuldades no acesso a serviços públicos essenciais e uma sensação difusa de distanciamento entre eleitos e eleitores. Ignorar essas causas seria alimentar o terreno onde prosperam discursos de rutura.

O futuro político do país dependerá, em larga medida, da capacidade dos partidos democráticos para responder a essas fragilidades com soluções concretas e credíveis. O compromisso, tantas vezes desvalorizado por parecer sinónimo de cedência, é afinal uma das ferramentas mais eficazes das democracias maduras. A construção de pontes políticas não enfraquece o sistema, reforça-o, ao reduzir o espaço para discursos que vivem da polarização permanente.

Talvez a principal lição recente seja a de que a democracia portuguesa permanece resiliente, mas não imune ao desgaste. Não existem vitórias definitivas nem derrotas irreversíveis no espaço democrático. Existem, sim, equilíbrios que precisam de ser constantemente renovados através da participação cívica, do debate informado e da responsabilidade política.

Entre o alarmismo e a complacência, Portugal parece continuar a escolher um caminho mais exigente: o da vigilância democrática.

E essa, mais do que qualquer resultado eleitoral isolado, pode ser a verdadeira garantia de futuro.

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