A pesca fluvial dos rios portugueses nunca teve a mesma relevância que a pesca marítima, devido a dois fatores: a qualidade inferior do sabor do peixe de rio; e a maior dimensão, tanto dos espécimes como dos cardumes, do pescado marinho. Contudo, os peixes anádromos – salmão, solho, lampreia, truta marisca e sável – quando sobem os rios, levam consigo a particularidade de agradar ao palato, dado que viveram, maiormente, no mar. Na realidade, são bem mais saborosos que o peixe de rio residente que, como sabemos, tem sabor “a lodo”, como vulgarmente se diz.
Os historiadores Isabel Fernandes e António Oliveira[1], num trabalho dedicado à análise dos ofícios e mesteres vimaranenses, referem-nos que, nos séculos XV e XVI, a comercialização de peixe fresco nesta cidade era rotineira e importante. Ambos citam a obra “Uma descrição de Entre Douro e Minho”[2], redigida por Mestre António no ano de 1512. Na mesma, o autor renascentista refere a diversidade de espécies piscícolas de rio, que então se vendiam na sua cidade:
“(…) pescados: de água doce nos quais entram solhos, jereses, salmões, relhos, trutas, bogas, barbos, sáveis, lampreias, linguados, solhas, tainhas, mugens, eirós, enguias e outros muitos géneros de peixes miúdos todos mui saborosos; e da salgada do mar muitos mui saborosos de todos os géneros que no mar se possa achar, e assim mariscos que pessoa que nunca viu o mar estará em muita dúvida de os comer”[3].

Apesar de Mestre António não localizar a proveniência dos pescados, é de deduzir que, pelo óbvio, estariam em causa peixes procedentes de rios da região, não só do Ave, como do Cávado, do Douro e respetivos afluentes. Se em Guimarães se achavam peixes destes, o mesmo aconteceria, certamente, nos territórios circundantes, tais como as Terras de Refojos ou as Terras de Vermoim que, além de também terem feiras próprias, faziam parte dos itinerários que ligavam a cidadela vimaranense ao Porto, à costa marítima e aos maiores rios do Entre Douro e Minho. Relembre-se que o pescado, caso não fosse vendido fresco, rapidamente se secava, salgava ou defumava, para permitir a sua conservação. O salmão, por norma, era consumido fresco ou defumado[4]. Nas margens do Douro ainda há memória das técnicas de confeção deste petisco, como o “salmão à tanoeiro”, fumado com serrim, dentro das pipas, conforme se fazia nas oficinas destes artífices[5]. Note-se que o salmão com interesse gastronómico é o que sobe os rios para se reproduzir e que, devido à acumulação de gordura, é muito mais saboroso do que o salmão de revés. Este último, é o que sobrevive ao período de procriação. Esgotado e magro, já sem a gordura corporal que lhe dá o sabor característico, desce os rios para entrar novamente no mar. No passado, também podia ser conhecido por “relho” ou “salmão relho”, como referem Rafael Bluteau[6] e José Leite Vasconcelos[7].
Uma informação que nos confirma a presença de salmões no Ave, data da primeira década de 1700, proveniente do conhecido Pe. António Carvalho da Costa que, na sua “Corografia Portuguesa”, refere que na ponte de São João de Baixo[8], sobre o rio Ave, se viam, continuamente, “tãgrãdes barbos, como salmoes, sem os poderem pescar, pelas difficultosas lapas que alli há”[9]. Por outro lado, nas Memórias Paroquiais de 1758, entre os redatores das freguesias banhadas pelo mesmo curso de água – que analisamos desde a foz à nascente, afluentes incluídos – só os párocos de Delães[10], Sanfins de Riba de Ave[11] e Bairro[12] atestaram a existência da espécie neste rio.
[1] FERNANDES, Isabel Maria e OLIVEIRA, António José de – “Ofícios e mesteres vimaranenses nos séculos XV e XVI”. Revista de Guimarães, 113-114, Jan – Dez 2003-2004. Pp. 43-209. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 2004. P. 136.
[2] ANTÓNIO, Mestre António – “Uma descrição de Entre-Douro-e-Minho”. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. 32: 3-4 (Set – Dez 1959). Pp. 441-460- Porto: Câmara Municipal do Porto, 1959.
[3] Idem. P. 447.
[4] Henriques, Francisco da Fonseca – “Ancora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde”. Lisboa: Oficina de Miguel Rodrigues, 1731. Pp. 186-187.
[5] Rafael Bluteau também refere o hábito de colocar peixe no fumeiro. Vide BLUTEAU, Rafael – Vocabulario Portuguez, e Latino (…). Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Vol. IV. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, 1713. P. 228.
[6] BLUTEAU, Rafael – Vocabulario Portuguez, e Latino (…). Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Vol. VII. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, 1720. P. 220.
[7] VASCONCELOS, J. Leite de – “Etnografia Portuguesa. Tentame de Sistematização”. Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980. P. 172.
[8] O autor localiza esta ponte em São João de Airão. Contudo, cremos que se trata de um lapso, já que esta freguesia não é banhada por este rio. Tratar-se-á, provavelmente, da ponte de São João Batista, sita na freguesia de São da Ponte do mesmo concelho.
[9] COSTA, Pe. António Carvalho da – “Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal (…)”. Vol. 1. Lisboa: Oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1706. P.111.
[10] [ANTT], Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 11, p. 61 a 64. Código referência PT/TT/MPRQ/13/11.
[11] [ANTT], Memórias Paroquiais, vol. 15, nº 86, p. 531 a 536. Código referência PT/TT/MPRQ/15/86. Esta paróquia famalicense integrou-se na freguesia de Bairro por volta da charneira de novecentos.
[12] [ANTT], Memórias paroquiais, vol. 6, nº 6, p. 33 a 38. Código referência PT/TT/MPRQ/6/6.
