[Crónica] Ainda estamos cá

CRÓNICAS/OPINIÃO Hugo Rajão

Quanta liberdade cabe dentro de uma ditadura? Foi a primeira questão a ecoar na minha cabeça após a primeira meia hora do filme brasileiro “Ainda estou aqui”, indicado para os Óscares. Uma família reúne-se, brinca, ri, ouve música, recebe outra para jantar. Que diferença há em relação a nós, às nossas relações familiares? Mas lá no fundo do escritório os homens conversam sobre assuntos sérios com uma surdina que não estamos habituados. As crianças vão à praia, com ou sem os pais, e mergulham, comem gelados, fazem castelos na areia. Tal como todos nós (com o azar de não podermos fazê-lo no Rio de Janeiro, como eles, contudo). Mas, entretanto, passam duas viaturas de militares armados. Os jovens entram no carro rumo à boémia. Um sábado normal. Mas debaixo do viaduto são parados pela Polícia Militar. Não para se submeterem a um teste de álcool, mas sim a um teste brutal à sua subjetividade.

Assim percebemos o modus operandi da opressão. Começa com uma pequena sombra, que se avista aqui e ali. Depois uma presença permanente, mas relativamente evitável. Até que um dia nos entram pela casa, tampam-nos a boca e levam o que querem. E aí a liberdade passa a ser um recôndito bunker de acesso limitado.

Muito diferente do nosso modo de vida, certo? Afinal não estamos no Brasil dos anos 70. E apesar de tudo o Brasil conseguiu virar a página não apenas da ditadura, mas também do seu revivalismo bolsonarista.

De facto, há diferenças significativas, mas infelizmente não nos devem animar. A sanguinária ditadura militar brasileira tinha de se haver com a pressão internacional, perante a qual procurava “camuflar” a barbárie praticada dentro de portas. Trump, ao leme da maior potência mundial, não se deixa pressionar. A ameaça do regime brasileiro, esbarrava na fronteira. Trump tem o maior exército do mundo, e pode, se quiser, abalar a paz mundial. Além disso, a extrema-direita está num processo de internacionalização, com sucursais com peso representativo em todas as democracias ocidentais (e nalgumas já são governo). Acresce que a SNI, polícia da ditadura brasileira, não reunia sobre a população do brasil um quinto da informação que os oligarcas de Silicion Valley detêm sobre o mundo todo. Oligarcas estes que se aliaram a Trump e ao governo do país mais poderoso do mundo.

Mas de facto o que vivemos, ou até os norte-americanos nos primeiros dias de Trump, não é compaginável ao que os brasileiros sofreram nesses tempos. Voltando os olhos para Portugal, somos uma democracia plena e vivemos livremente. Mas é inegável, de que hoje há uma sombra que não havia. Primeiro avistou-se lá ao longe, nos EUA, no Brasil, na Hungria. Depois começou a galopar no parlamento. Primeiro começaram a falar mal dos “outros”. Agora estes são encostados à parede. E ao que tudo indica, a critério maioritário para escolher o próximo presidente na República consiste na sua aptidão para “colocar isto tudo na ordem!”.

É ainda uma sombra? Talvez. Mas já se adensou. E não se enganem. Como o filme nos mostra, quando o cerco aperta, nem a classe média branca se salva. O “outro” é um caminho para açambarcar a totalidade. Adaptando, à minha maneira, o poema de Martin Niemöller: primeiro encostaram os outros à parede. Um dia tentarão fazê-lo a mim.

Ainda estamos cá!

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