[Opinião] É urgente termos urgência

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Por duas vezes neste verão as urgências do Hospital de Santo Tirso estiveram encerradas durante a noite. Quem precisasse de assistência seria reencaminhado para o Hospital de Famalicão. Este encerramento deveu-se, aparentemente, à falta de profissionais de saúde, em particular médicos, que assegurassem os turnos.

Sabemos que é necessária uma reorganização dos serviços, otimizando o uso dos mesmos. No entanto, garantir um serviço de urgência de relativa proximidade a que todos possam usufruir é de extrema importância no município.

O Hospital de Santo Tirso sofreu vários processos de expansão, sobretudo de redução das suas valências, sendo um dos mais notáveis o encerramento da maternidade, que não é, com certeza, o único. Aceitarmos sem protesto o encerramento destes e outros serviços deixa a porta aberta à ideia de que cuidados de proximidade não são fundamentais. A ideia discutida há não muito tempo do encerramento da maternidade do Hospital de Famalicão é exemplo claro disso. Valeu a mobilização social e a contestação política para que não se tornasse uma realidade.

Com vários avanços e recuos, o Hospital de Santo Tirso passou por um processo, felizmente incompleto, de privatização. Equacionou-se entregar a sua gestão à Santa Casa da Misericórdia. Na altura, o argumento do governo era que o edifício onde o Hospital funcionava pertencia à Santa Casa e, por isso, era uma questão de justiça passar a sua gestão para a mesma. No entanto, sabemos que o usufruto deste espaço não é gratuito. Segundo informações recentes, o Estado paga uma renda de aproximadamente 130 mil euros anuais para o uso do espaço. Assim, percebemos que o argumento usado para defender a passagem do Hospital não tinha qualquer validade.

A perceção de degradação dos serviços de saúde conduz ao descontentamento generalizado dos munícipes. Serve, por um lado, para abrir a porta aos privados e, por outro, para reduzir o acesso aos serviços mais básicos por quase toda a população. Para que consigamos dar voz às preocupações dos portugueses é necessário garantir investimento, o que passa por deixar de entregar um terço do investimento em saúde aos privados e apostar no serviço público. O incremento do orçamento do SNS deve ser acompanhado do reforço da capacidade instalada em consultas, cirurgias ou meios complementares de diagnóstico, mas também no desenvolvimento de novas respostas, com especial atenção para a saúde mental e oral, que continuam quase inexistentes.

Além disso, falta material cirúrgico no Hospital de Santo Tirso, sendo comum não haver recursos para fornecer aos doentes que regressam ao domicílio, situação que, para além de sobrecarregar desnecessariamente as urgências, aumenta os internamentos hospitalares e o risco de infeção. Por exemplo, os utentes têm de recorrer às urgências de Famalicão para ter acesso a equipamentos de drenagem biliar, necessários para o período pós-operatório, visto que tanto o Hospital como as Unidades de Saúde Familiar tirsenses não dispõem de material básico (drenos e sacos coletores). Esta é uma das várias situações que demonstra a suborçamentação crónica do SNS.

Com isto ressalvo a construção de uma ala de saúde mental no Hospital de Santo Tirso, um investimento bastante positivo para a população. Apesar disso, importa não esquecer o motivo que originou o encerramento temporário das urgências: falta de médicos. O SNS precisa da contratação de profissionais especializados e, para isso, urge um plano ambicioso de retenção dos mesmos no serviço público. Só assim alcançaremos um SNS universal, geral, gratuito, público e de qualidade.

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