“Vemos idosos a cuidar de idosos, com grandes dificuldades económicas e baixa literacia em saúde”

ATUALIDADE

UCC Provida, instalada no Centro de Saúde de Negrelos, está há nove anos no terreno a intervir no âmbito comunitário e domiciliário. Fragilidades dos cuidadores e da população mais idosa são principal preocupação.

Como é que se mede o impacto da intervenção de um serviço de saúde numa comunidade? Numa altura em que celebra nove anos de trabalho na zona nascente do concelho de Santo Tirso, a UCC (Unidade de Cuidados na Comunidade) Provida, instalada no edifício do centro de saúde de São Tomé de Negrelos, aproveita para fazer o balanço de uma atividade intensa e que tem deixado frutos no território.

Cassilda Gomes é a enfermeira coordenadora da unidade que serve as freguesias de Rebordões, São Tomé de Negrelos, Roriz, Vila Nova do Campo e Vilarinho para um total de população superior a 30 mil habitantes, e explica em conversa com o Entre Margens o trabalho que esta unidade leva todos os dias para a rua.

“No fundo é um serviço multidisciplinar de intervenção a nível domiciliário e comunitário”, começa por dizer a responsável da unidade que atua nas mais variadas áreas, seja relativa à saúde escolar, da saúde materna, infantil e mental, intervenção no âmbito do Rendimento Social de Inserção, mas também com os restantes atores e intervenientes da Rede Social. Trabalho esse que se desenvolve diretamente no terreno com utentes e pacientes, como também em ações de formação e esclarecimento nos diferentes cenários.

Contudo, talvez o rosto do trabalho da UCC Provida esteja na Equipa de Cuidados Continuados Integrados (ECCI), que diariamente se faz à estrada e à bate à porta de casa dos utentes para prestar cuidados de saúde. Uma equipa que pertence à Rede Nacional de Cuidados Continuados, cujo serviço não implica internamento, mas sim cuidados transitórios. Uma espécie de linha avançada de natureza preventiva, curativa, reabilitação, ação paliativa e apoio social.

Colóquio apresenta projeto “Ressurgir Pós Cancro da Mama”

Este sábado, dia 28 de maio, pelas 15 horas, a UCC Provida organiza um colóquio no salão nobre da junta de freguesia de Vila das Aves para dar a conhecer o projeto “Ressurgir Pós Cancro da Mama”. Iniciativa surge na sequência de um estudo realizado com 45 mulheres recuperadas da doença em toda a zona nascente do concelho de Santo Tirso e pretende trabalhar a dicotomia reabilitação/imagem corporal e dimensão psicossexual.

Diagnóstico do território

Após nove anos de porta em porta, pelas ruas da zona nascente do concelho, a ECCI é um instrumento muito eficaz para identificar e perceber as grandes fragilidades da comunidade, sendo a principal a grande percentagem de população idosa, que acaba muitas vezes por ser cuidada por outros idosos. “Idosos a cuidar de idosos, com grandes dificuldades económicas e com baixa literacia em saúde”, explicou a coordenadora.

É aqui que entra o trabalho desta equipa, constituída por doze membros entre especialistas em enfermagem médico-cirúrgica, saúde mental, reabilitação, médicos de medicina geral, uma assistente social e um nutricionista.

“Acontece muitas vezes vermos casais de 70 ou 80 anos a cuidar do outro que está acamado, mesmo sem capacidade física nem mental para o fazer. Só que os filhos trabalham, estão longe, podem ter um sobrinho que vai lá dar apoio, mas passam o dia sozinhos. É muito complicado”, sublinha Cassilda Gomes.

A questão dos dependentes e dos respetivos cuidadores é sempre um tema complexo. Recentemente, foi aprovado o Estatuto do Cuidador Informal, tão badalado na praça pública, no entanto, o seu conteúdo, traduzido para a realidade, resulta em muito pouco.

“O estatuto está na lei, mas os critérios são tão restritivos e rigorosos que pouca gente vai atingir. E aqueles que atingem, é um valor irrisório”, assevera a enfermeira Manuela Azevedo ao Entre Margens. “Sinceramente, fico desmotivada.”

O cenário para qualquer pessoa com um familiar dependente não tem soluções fáceis. “Ou se tem uma rede familiar muito forte, ou então é muito complicado”, elucida. O desgaste físico e emocional, 24h sobre 24h, sete dias por semana, é uma carga emocional tremenda. E para agravar o panorama, a resposta por parte de lares e IPSS é escassa e muitas vezes não corresponde às necessidades da população.

A proposta das enfermeiras é simples: “há um buraco na intervenção social e se não é colmatado nos lares, devia-se criar condições para que as famílias possam fazer esses cuidados”, aponta Cassilda Gomes.

O estatuto vai pagar “cento e pouco euros” aos cuidadores informais, mas se esse familiar for para um lar, a Segurança Social paga muito mais pelo lugar. “Porque não dão o mesmo ao filho ou à filha para tomar conta em sua casa? A pessoa estava muito melhor, no seu ambiente, rodeada da sua família”, remata.

Orgulho é a “mudança de comportamentos”

Ao longo deste período de intervenção direta no terreno, o maior legado não passa apenas pelos resultados dos inquéritos de satisfação, que atinge quase cem por cento, é a mudança de comportamentos das pessoas.

“Quando intervimos e vemos que houve ganhos em saúde e mudança no comportamento, sentimos que os nossos objetivos de intervenção foram cumpridos”, sublinha Cassilda Gomes.

E até a literacia em saúde tem melhorado imenso, com o trabalho que é feito em contexto escolar desde muito cedo. Claro que “é fácil alterar conhecimentos. Difícil é alterar comportamentos”.

Para o futuro, ficam os projetos que vão para além da “carteira básica de serviços” de qualquer unidade deste tipo. Na sequência do diagnóstico feito entre os cuidadores do território de intervenção, foi criado em 2018 o projeto “Tempo de Retribuir”: uma rede de voluntários que substituem os cuidadores durante algumas horas por semana, de maneira a que possam resolver questões pessoais. Uma iniciativa que tem tido uma excelente resposta por parte de dependentes, cuidadores e voluntários.

Agora, no próximo dia 28 de maio será apresentado num colóquio a realizar na junta de freguesia de Vila das Aves o projeto “Ressurgir Pós Cancro da Mama”, resultado também de um diagnóstico efetuado na área de intervenção do centro com 45 mulheres recuperadas do cancro e que pretende trabalhar a dicotomia reabilitação/imagem corporal e dimensão psicossexual. Este projeto é um instrumento de apoio para as mulheres sobreviventes de cancro da mama, com o intuito de as ajudar a ressurgir após esse infortúnio, promovendo o seu bem-estar. Será realizada uma consulta inicial de enfermagem pela unidade, sendo posteriormente referenciadas para uma consulta de enfermagem de especialidade. “Tenho a certeza que terá tanto ou mais sucesso como o Tempo de Retribuir”, concluiu a coordenadora.

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