[Crónica] Ti João da Póvoa

A ti Rosa, mais que âncora, era o porto seguro onde os seus sofreavam todas as tempestades da vida. O seu peixe sabia a mar, a fresco, a sorrisos e a pregões. Maré alguma se atrevia a deixá-la em terra, a murchar-lhe o sorriso ou a emudecer-lhe o pregão. Donairosa no seu traje de peixeira, dizia, com muito orgulho, que não tinha clientes, mas freguesas. Como a vida não estava para graças, no verão, a ti Rosa tentava levedar o apuro da venda do peixe com as lides de “patroa” e, como muitas outras, cedia parte da sua casa a veraneantes. As “patroas” eram, numa só, gerentes, rececionistas, criadas de quarto e também “chefs” de cozinha, numa espécie de antepassadas das casas de turismo de habitação, longe ainda daquele chique aristocrático armado ao pingarelho, mas, há muito laureadas com um céu inteiro de estrelas na arte de bem receber.

Ai… que o meu menino está um homem”, gritou ela, à soleira da porta, enquanto me sufocava num brutal abraço que me estralejou o espinhaço de cima a baixo.

– Entrem, entrem e sentem-se à mesa. Preparei uns peixinhos que são mais frescos que uma noite de Natal e estão de lamber as beiças…

Procurei o ti João, e mal disfarçando o choque, dei-lhe um abraço, que lhe acendeu um grande sorriso.

– Sejam muito bem-vindos. Estás com sorte rapaz, vamos ter aí umas marés bem vivas como tu gostas, meu malandro, mas tem-me cuidado, ouviste? Olha que este mar não é para brincadeiras.

Sacudidas as primeiras saudades com umas rodadas de vigorosos abraços à moda do Norte, encetamos empenhadíssimos a devida homenagem a umas sardinhas braseadas, refasteladas em leito de broa de milho, ajaezadas com colares de cebola verde e de multicolores fiapos de pimentos, acolitadas por um “bouquet” de semilhas cozidas, generosamente aspergidas com sumo de azeitona virgem. Um exclusivo verde tinto carrascão servido, como manda o figurino, em alvas malgas de porcelana branca, aconchegou, com chave de ouro, a excelência da degustação. Enquanto comíamos e chorávamos por mais, o ti João, de rosto iluminado e olhar luzente, desfiou belíssimas histórias dos tempos da sua juventude e das muitas aflições que o mar lhe “botou às costas”. Já noite, encerrou as histórias com o habitual: “belos tempos…belos tempos”, enquanto se lhe amortiçava o sorriso e alheava o olhar.

Enquanto comíamos e chorávamos por mais, o ti João, de rosto iluminado e olhar luzente, desfiou belíssimas histórias dos tempos da sua juventude e das muitas aflições que o mar lhe “botou às costas”. Já noite, encerrou as histórias com o habitual: “belos tempos…belos tempos”, enquanto se lhe amortiçava o sorriso e alheava o olhar.

Adélio Castro

A velha ronca estremunhou-me para uma manhã enroscada, ainda, num restito de noite e ensopada num nevoeiro mais cerrado que os reposteiros de um lupanar. É que ali, mesmo no verão, os dias que não são de inverno, são, na melhor das hipóteses, de quatro estações. Sôfrego, fui matar saudades dos barcos, dos pescadores de ar cansado, da alegre tagarelice das peixeiras, dos estrídulos guinchos das gaivotas e da batida das ondas, lá ao longe. Mal o sol espreitou, tímido, por entre o nevoeiro, fui salvar o mar que me foi gelando os pés enquanto calcorreei de fio a pavio aquela praia a perder de vista. Já o sol tinha empandeirado o nevoeiro, quando lá ao longe despontou uma ondita que, singrando veloz naquele imenso azul sisudo, se foi encorpando até que, num gigantesco sorvo, que fez recuar numa torrente a onda que a antepassou, se encapelou enorme. Numa corrida desvairada, mergulhei-me naquela muralha de água gelada, que, num espavento de espuma, se despedaçou com estrondo na rebentação. Espicaçado por uma chusma de aguilhões de gelo, abandonei-me vogando, sacolejado por aquelas águas brutas, revoltas e francas. Momentos depois, emergi daquele torpor e, com um par de braçadas lestas, guindei-me na crista de uma onda que, sem-cerimónias, me golfou como um torpedo rebentação fora. Um ror de mergulhos depois, com a pele mais encarquilhada que o chapéu de um pobre e mais roxa que a Quaresma, alapei-me na areia cálida, afogueado por um sol resplandecente e arrepiado pela fresca de uma nortada perfumada de maresia. Com um sorriso apascaçado, futurei os próximos quinze preciosos dias naquele pedaço de boa vida, com o trabalho, aulas e os exames afundados, lá longe, bem no fundo do mar.

Aos dezasseis anos a Póvoa de Varzim era uma bem-aventurada terra onde fervilhava o melhor da vida. Era lá que estava o mar e o sol, que estilavam as mais belas miúdas, que se encontravam os amigos e que se acedia ao “glamour” cosmopolita do casino, dos cinemas, dos cafés e das discotecas da berra. O picadeiro era o centro daquele mundo, era uma passadeira onde todos os olhares se cruzavam, os namoros se semeavam, se esperançavam os amores, se pavoneavam as vaidades e, à tripa-forra, se afiavam as más-línguas. No verão, todos os passos se desencaminhavam para a Póvoa. A vida foi-me abrindo novos mundos e, com eles, umas quantas outras bem-aventuradas terras. Paraísos de mares de águas tépidas, de azul alegre, de ondas tranquilas e brisas cálidas. Praias em que os verões não conhecem roncas, nem nevoeiros e muito menos chuvas. Passada quase uma vida, é verdade que a magia da Póvoa esmaeceu, mas não há férias em que não me morda uma ponta de saudade daquelas marés vivas, daquele mar gelado e telhudo e da sua incomparável maresia. Continuo a ter muitas saudades da ti Rosa, dos seus abraços tão bravos e francos como o mar que a viu nascer, do seu peixe fresco e dos seus petiscos de chorar por mais. Mas do ti João morro de saudades… morro de saudades daquele homem valente, a quem nem os homens, nem o mar faziam tremer, mas que, à traição, a doença dos pezinhos vergou, mirrando-lhe, aos poucos, o corpo, os sonhos, a alegria e, finalmente, a vida. Não há verão que não erga uma malga de vinho carrascão à memória do ti João da Póvoa. Que o mar eterno o tenha em sua guarda.

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