Há muitas razões para não se gostar deste governo. No essencial, tem falhado em tudo. Mas isso não confere automaticamente credibilidade à moção de censura proposta pelo Chega.
Trata-se de um embuste e nenhum partido deve associar-se nem ao objeto do texto nem à motivação que lhe subjaz.
Comecemos pela última. O Chega não está realmente preocupado com os problemas reais do país nem com a resposta incompetente que o governo lhes tem dado. Aliás, a reação quase inexistente face à crise dos exames, provocada pelo Ministro Fernando Alexandre, que impactou na vida de uma parte substancial dos jovens do país, prova isso mesmo.
Com esta moção de censura, o Chega tem apenas dois objetivos. O primeiro é colocar-se no palco na réentré da política nacional. O segundo, e mais relevante, é fazer um ajuste de contas com Luís Neves.
É inegável que Luís Neves deve prestar explicações ao país e, se for o caso, assumir as responsabilidades devidas, de acordo com as conclusões da investigação que vierem a ser obtidas. Os eventuais erros de Luís Neves não deslegitimam, no entanto, ao contrário do que o Chega procura fazer, o seu trabalho na PJ no combate aos crimes associados à extrema-direita e à desmistificação da falsa associação entre imigração e criminalidade, que o Chega fez de seu programa.
Uma coisa não invalida a outra, e que nos leva ao texto da moção.
Este resume-se ao seguinte. Para o Chega, Portugal vive um estado de crime e de insegurança. Este estado de coisas deve-se às minorias étnicas e à imigração. A atuação, supostamente permissiva, de Luís Neves, enquanto diretor da PJ, face às minorias étnicas contribuiu para esta situação. Consequentemente, não tem idoneidade para ser ministro. Como o primeiro-ministro se recusa a demitir o ministro, a falta de idoneidade de Luís Neves foi transferida para o governo e, por isso, o governo tem de cair.
A moção de censura limita-se a repetir a mesma propaganda falsa que o Chega usa até à exaustão. Vamos por partes. Não, Portugal não vive um estado de crime e insegurança. Também não há qualquer associação entre o aumento da criminalidade e o da imigração. São factos inequívocos e estatisticamente demonstrados, como Luís Neves, para irritação do Chega, fez questão de nos comunicar várias vezes. Por conseguinte, Luís Neves não pode ser acusado de permissividade em prol de um estado de coisas que só existe na imaginação da extrema-direita, e que é desmentido pela realidade.
Assim sendo, este governo deverá cair pelos motivos certos, e nunca por este embuste motivado por uma agenda falsa e indecente.
