[Reportagem] Odisseia pelas fontes, tanques e fontanários de Vila das Aves

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Território que floresce entre rios nunca teve falta de água no subsolo. Fontes, fontanários e tanques públicos são resquícios de um património comunitário por onde também se conta a história da vila.

Para o orçamento de 2026, o executivo da junta de freguesia de Vila das Aves inscreveu a intenção de avançar com um plano de reabilitação de fontes, fontanários e tanques públicos. A intenção de Joaquim Faria não é nova. Já a tinha revelado em anos anteriores, mas parece agora ganhar fôlego. Partindo deste desígnio, o Entre Margens meteu os pés ao caminho e cruzou Vila das Aves à procura deste património comunitário que, mesmo tendo caído em desuso, ajuda a contar a história de um território em crescimento durante o século XX.

Geograficamente posicionada entre os rios Ave e Vizela, à “península abençoada”, como classificou Adélio Castro nas suas crónicas, nunca faltou água no subsolo. O padre Joaquim da Barca descrevia na sua monografia de São Miguel das Aves que, “não obstante não haver grandes elevações de terreno no seu âmbito, têm as Aves bastantes fontes de água potável de primeira qualidade”.
“Como se está a ver, há no subsolo de São Miguel das Aves grandes mananciais de água. E toda esta água é muito boa; tão boa que febres e tifos de carácter epidémico é coisa que não tem havido”, acrescenta.

À época, o padre Joaquim da Barca descreve um conjunto de fontes de água potável de carácter público, espalhadas por todo o território avense, de Sobrado a Bom Nome, de Poldrães a Cense, Lubazim e à Barca, possibilitando o acesso e o consumo de água para diversas atividades. Além das fontes públicas, aponta cerca de 20 bicas particulares em quinteiros, jardins e quintais; uns 400 poços de “sarilho e balde e bombas manuais” e uns 80 de “grupos de eletro-bombas”. De 1937 em diante, a freguesia passou também a ser servida por uma rede de fontanários públicos, pertencentes à junta de freguesia, que alimentava “vários domicílios à razão de 2$50 o metro cúbico”.

Mas nem só de consumo se traçam as necessidades de utilização da água sob o ponto de vista comunitário. E o padre Joaquim da Barca coloca o foco na falta de lavadouros públicos para que as mulheres pudessem lavar a roupa.

“De tanto ou mais que fontanários, precisam as Aves de lavadouros higiénicos e cómodos”, refere. “O mais higiénico lavadouro que as Aves tem para o verão é o rio Vizela, mas nem toda a gente pode lá ir. As lavadeiras que o frequentam vêm para casa com a espinha doente devido à incómoda posição em que têm de estar aos ardores do sol”.

Num retrato do panorama que se vivia naquele tempo, o padre Joaquim da Barca dá o exemplo da “poça de Ringe”, procurada “durante todo o ano por lavadeiras de Sobrado, Quintão e Tojela” e que no verão obriga a que se vá para lá “de madrugada a fim de tomar vez”.

“Não seria acautelado construir-se lá um lavadouro em condições, amplo, jeitoso e coberto a fibrocimento para livrar as pobres lavadeiras da chuva, no inverno, e do sol, no verão? Aqui está uma obra em que a nossa junta podia fazer boa figura e alcançar os louvores de todos”, remata.

A este panorama, acrescenta-se a joia da coroa: o Amieiro Galego, uma “abundíssima nascente de águas sulfurosas, a treze graus centígrados, cuja composição deve ser igual à das Caldas da Saúde, Vizela e Taipas, que muitos têm usado com feliz êxito contra o reumatismo, sífilis, feridas e doenças de pele”.

O que fica do património
As memórias desse património perdido no tempo continuam visíveis nos recantos da freguesia. No recém-reabilitado Largo Braga da Cruz, bem no coração da vila, um dos fontanários da rede criada em 1937 mantém-se em posição de destaque na borda do jardim.

Está inoperacional, mas ainda resiste, ao contrário do seu análogo do entroncamento entre a rua da Fábrica e a rua Silva Araújo. Por lá, apenas o ornamento no muro denuncia a presença do ponto de água durante uma época onde aquela via era um dos mais importantes acessos à parte norte da ‘Rio Vizela’, sendo hoje lugar apenas para dois contentores do lixo.

Também na Barca é possível admirar um exemplar desse rede com quase noventa anos. O fontanário, a poucos metros da fronteira com Riba de Ave, mantém-se operacional e são muitos os carros que param por ali para abastecer garrafões com água. A curiosidade é que desde 2003 não está sozinho.

Como homenagem ao pioneiro das chaminés industriais, Manuel José Moreira Garcia, foi criado um pequeno parque de lazer onde pontifica uma fonte precisamente em forma de chaminé, a que se juntam dois monumentos simbólicos (Penedo da Cabeça das Duas Meninas e o Penedo da Raposa) e ainda um tanque público. Apesar de resultar de um investimento de Augusto Garcia, o parque está no domínio público através de um protocolo assinado com a Câmara Municipal.

Pouco mais de vinte anos após a inauguração, o espaço pode passar despercebido ao transeunte comum, mas uma inspeção in loco revela uma obra feita com desígnio. O problema está na escassa utilização e nos vários acidentes que o excesso de água que transborda para a rua, em cima de uma curva, tem provocado ao longo dos anos.

Adjacente também a uma estrada movimentada, a fonte de Poldrães encontra-se em posição de destaque à entrada de Vila das Aves. Não é, no entanto, a original. Aquando da criação da passagem superior sobre a linha do comboio, em meados dos anos 90, foi possível manter a fonte não muito distante do local onde primeiramente foi erguida.

Os tanques que outrora serviram de centro nevrálgico para a vivência comunitária, sobretudo no feminino, são agora apenas espectros das conversas, fofocas e risos que pontuavam longas horas de trabalho árduo de todas aquelas que faça chuva ou faça sol, calor ou frio, metiam as mãos na água. Templos à vida comum esquecidos pela modernidade.

Em Sobrado, nem a ameaça de tempestade afugentou a necessidade de cumprimento das tarefas domésticas. De impermeável vestido, uma senhora esfregava com afinco uma carpete que desenrolou no lavadouro, depois de já ter colocado os garrafões de água a encher na fonte. Retrato vivo de um quotidiano que se foi perdendo.

Enquanto se fotografava o momento, uma vizinha aborda a equipa do Entre Margens. Maria Margarida Neto, cuja garagem de casa convive paredes meias com o tanque público, vem queixar-se das constantes inundações. Já não é de agora. Diz que já falou com o presidente da junta e que sabe da promessa de fazer obras no tanque, mas sublinha que começa a ficar impaciente com a espera.

A conversa deixa as reivindicações do presente e prossegue para as memórias. A moradora recorda-se da antiga presa usada pelos lavradores, numa zona onde as quintas eram prevalentes, onde os animais iam beber, mas também do tanque rudimentar que ali existia apenas a escassos metros da localização atual, cuja inscrição remete para a década de 70. “Estava mais encostado à casa ali à esquerda e lembro-me de as pessoas lavarem a roupa aninhadas”, lembra.

Na baixa da vila, junto ao rio Vizela, à entrada da Fábrica, um olhar atento revela os trilhos desse passado percorrido pelas lavadeiras. Em frente aos antigos correios, um caminho que se mantém público até aos dias de hoje dá acesso à margem do rio, por onde durante anos fios as bacias de roupa davam colorido à paisagem. O lugar funcionava a par com o lavadouro da margem oposta, na rua Conde Vizela, cujos relatos apontam para filas para “ganhar vez”.

O seu posicionamento não era ao acaso. Estavam estrategicamente localizados em locais de passagem com muita afluência. Veja-se o exemplo da fonte de Quintão. Nos dias de hoje completamente abandonada, coberta por mato, foi construída num ponto de fundamental para quem queria chegar ao centro da vila. Desse passado, ficaram apenas vislumbres confirmados por antigo poste de eletricidade que ainda se mantém de pé.

A vertente comunitária destas infraestruturas é possível de observar na forma como são enquadradas. Nunca estão isoladas ou fechadas em si mesmas. Abrem-se aos cidadãos através de pequenos parques com árvores e bancos de jardim.

Em Cense, a fonte inaugurada em 1928 quase que escapa ao olhar por se encontrar numa espécie de mina, abaixo do nível da estrada, mas a bela árvore e os bancos de jardim denunciam esse pretérito cujas ruínas ermas resistem desprezadas à passagem do tempo.

A notícia publicada no Jornal de Santo Thyrso, à época, reflete a “transformação de coisa tosca e suja” num “magnífico e higiénico fontanário onde até os pachorrentos bois encontram uma linda pia de água fresca” e as raparigas um “espaçoso lavadouro para as suas roupas”.

Só o Amieiro Galego continua no léxico corrente da comunidade avense. O parque e a fonte termal passaram por um carrossel de episódios ao longo das últimas décadas, sendo nos dias que correm propriedade da junta de freguesia. A intenção da autarquia de Vila das Aves passa por tentar impulsionar a atividade termal a médio/longo prazo, conjugando-a com um parque verde recheado com mais infraestruturas. Na calha, está a criação de um parque aquático dirigido aos mais novos, bem como a chegada da ligação pedonal através da ecovia que vai conectar o Verdeal à Rabada. Quanto ao aproveitamento da água termal, o sonho terá de ter luz verde das entidades superiores.

O plano para a reabilitação deste património ainda não foi publicamente revelado pela junta de freguesia. Certo é que uma intervenção compreensiva destas infraestruturas seria uma mais-valia para a comunidade, sobretudo para as povoações mais afastadas do centro da freguesia que podem passar a olhar para estes resquícios esquecidos como um pequeno ex-libris à porta de casa.

Fotos de Fábio Martins

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