Os recentes acontecimentos na Venezuela – caracterizados por agressão militar aberta e o sequestro do seu Presidente – constituem mais uma manifestação de uma lógica constante: a de subjugar pela força estados soberanos para a pilhagem de recursos e a sua submissão aos interesses da oligarquia norte-americana. Caíram de vez as máscaras liberais que apelavam à intervenção militar para “exportação da democracia”. Assume-se agora, sem pudor, os objetivos explícitos de controlo do petróleo e restantes recursos, procurando reduzir países ao mero estatuto colonial. Esta lógica de ingerência estende os seus tentáculos por toda a região, ameaçando governos patrióticos que não se submetem aos ditames dos EUA, como tem sido o caso de Cuba, do México ou da Colômbia, procurando que nenhuma nação que reivindique o direito a traçar o seu caminho esteja a salvo. Até mesmo territórios europeus, como a Gronelândia, tornam-se objetos de cobiça. O imperialismo dos EUA não reconhece limites geográficos ou políticos. Basta notar que esta forma de atuação só tem sido possível pela cumplicidade ativa de um bloco de Estado subalternos, comprovada pela bajulação recorrente de vários governos europeus, com destaque para o governo português que, lamentavelmente, legitimou uma intervenção de cariz colonial, qualificando-a de intervenção com fins “pacíficos e democráticos”. Não é surpresa, assim foi na invasão do Iraque, da Líbia, no genocídio do povo palestiniano, e perante o autoritarismo à escala global que pretender submeter todos os cantos do mundo aos seus interesses.
É a hipocrisia de uma tal “ordem internacional baseada em regras” em que impera a total impunidade desfrutada pelo bloco imperial: os bombardeamentos e sanções unilaterais praticados pelos EUA e seus aliados nunca enfrentam as consequências que seriam imediatamente impostas a qualquer outro país, nomeadamente cortes de relações comerciais, sanções económicas, solidariedade de todo o tipo com os agredidos. Gozam de impunidade absoluta, garantida por uma concentração sem precedentes de instrumentos de dominação: a hegemonia do dólar nas transações internacionais, o controlo das instituições financeiras mundiais, a NATO como braço armado, uma supremacia militar. E para manter esse domínio, exigem aos subalternos aumentos drásticos dos gastos militares (os referidos 5% do PIB), apesar da história demonstrar que a corrida global aos armamentos conduz sempre ao encurtamento do ciclo de guerras e à sua expansão. Sendo tais consequências particularmente inquietantes quando se aprofunda a capacidade tecnológica de destruição e a tendência à difusão das armas nucleares, como único recurso de defesa.
Perante esta arquitetura de poder e o caminho de abismo que se avizinha, um internacionalismo consequente deve reconhecer que o bloco imperialista liderado pelos EUA constitui o principal obstáculo à paz mundial e ao direito à autodeterminação dos povos. Exige-se, por isso, a rejeição da lógica belicista que nos querem impor. Isto significa exigir o aprofundamento do investimento social público (educação, saúde, habitação, ambiente, salários), em contraciclo com o desvio desses recursos para alimentar a indústria de armamento. A afirmação, em todos os fóruns internacionais, dos princípios da soberania, da não-ingerência e da cooperação mutuamente benéfica para resolver crises globais, do combate às alterações climáticas à prevenção de pandemias, colocando a tecnologia ao serviço das necessidades humanas. A defesa de uma política externa diversificada, rejeitando o alinhamento com blocos ou grandes potências, aprofundando relações com os nossos vizinhos (Espanha), os laços históricos com os países da CPLP, as relações com a China, a Índia ou a África do Sul, num quadro multilateral e equilibrado. Só assim Portugal poderá reclamar uma soberania real e contribuir, objetivamente, para um mundo de relações internacionais mais democráticas.
