[Editorial] Trump e Putin: o mesmo desprezo pelo direito internacional

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

Ainda havia ecos dos festejos de entrada de 2026 e o mundo era surpreendido pela intervenção norte-americana na Venezuela. O sequestro do presidente Maduro e a sua transferência para território dos Estados Unidos constituíram um atentado às leis internacionais e não faltou quem comparasse esta ação militar com a invasão ordenada por Putin ao território ucraniano há quase quatro anos, pois o que a Rússia pretendia fazer (e não conseguiu) era sequestrar Zelensky e colocar no poder alguém da sua confiança.

Trump justificou-se menos do que Putin, porque só o petróleo lhe interessa. Mas, no fundo, ambos desprezam igualmente o que até aqui se chamou direito internacional e ambos só reconhecem o poder da força. Com o parceiro chinês atento ao evoluir da situação, o mundo já está a ficar partilhado entre os três, que repartirão entre si influências e a exploração das riquezas naturais das zonas de influência e o controle político sobre as nações. A ordem política internacional mudou radicalmente e, muito embora ninguém saiba como vai evoluir a Venezuela ou se a Rússia aceita cessar fogo na Ucrânia, o mundo não será mais o mesmo e o papel da ONU, da NATO e demais instituições tornou-se irrelevante. E, no entanto, a própria situação interna americana não é saudável, ao mesmo tempo há ameaças a Cuba, à Bolívia e declarações de intenções imperialistas de anexação de territórios.

A Europa, neste novo contexto, remete-se a um papel de subserviência e tenta adaptar-se segundo a velha máxima, “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Os orçamentos da defesa tendem a crescer, mas a discussão pública a respeito do assunto não é alargada, nem sequer durante as campanhas eleitorais, atuais e recentes. Que Europa temos, que Europa queremos ter, que compromissos estamos dispostos a assumir para a defesa dos territórios e dos recursos e para o desenvolvimento, são questões de importância vital.

Na eleição presidencial desta semana e na perspetiva uma inevitável segunda volta, que a escolha dê oportunidade para esclarecer um pouco melhor o papel de Portugal no devir.

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