[Opinião] A justiça está a prejudicar a democracia

CRÓNICAS/OPINIÃO Rui Baptista

Estamos oficialmente em crise política e vamos ter de voltar às urnas para escolher um novo Parlamento e um novo Governo após 14 meses das últimas eleições. Nos últimos 10 anos tivemos quatro Governos e, apenas um deles conseguiu cumprir a legislatura até ao fim. Já houve quem fizesse uma comparação com a primeira República, onde em 16 anos tivemos 8 Presidentes e todos sabemos como acabou o regime nessa altura.

O que mais nos deve fazer pensar são os motivos que nos levam a estas crises políticas e sucessivas eleições, não se tratam de opções políticas e estratégicas que ditam o desentendimento dos partidos e consequentemente a queda dos Governos, mas sim questões relacionadas com a Justiça e com a ética. Na minha opinião este ponto é mais grave do que propriamente estarmos em eleições todos os anos.

Que a Justiça em Portugal funciona mal, tarde e a más horas, presta um mau serviço aos cidadãos e ao funcionamento da nossa economia, contudo estamos agora a assistir que essa mesma Justiça está a prejudicar o sistema político democrático em Portugal.

António Costa demite-se por uma investigação ao Governo tornada publica por um comunicado da PGR, onde foi colocado um paragrafo final que nada dizia, mas parecia dizer tudo sobre uma alegada investigação ao Primeiro-ministro. Claro, consequência imediata foi a demissão do PM e a convocação de eleições.

Na Madeira tivemos 3 eleições num ano, depois de um avião da Forca Aérea aterrar na Madeira com dezenas de inspectores, com a comunicação social à sua espera, e até hoje nada de concreto se soube, não quero dizer que não venha a existir, mas o que é certo que até haver acusações concretas, haverá eleições sob este manto de suspeições e o voto popular passa a ser o passaporte de idoneidade para se governar.

À hora que escrevo este artigo já sabemos que os madeirenses reforçaram a vitória do PSD na Madeira, seguramente fartos de instabilidade e dando um resultado que garante uma estabilidade mais duradoura. Relegaram os critérios de ética e idoneidade para segundo plano, porque hoje a Justiça já não consegue separar o trigo do joio.

Quando a Justiça que investiga, acusa e depois julga e condena de forma célere e sempre no recato dos tribunais, conseguiríamos saber o que é trigo e o que é joio.

Recentemente faleceu Miguel Macedo, foi um importante dirigente do PSD, deputado e ministro, uma pessoa integra, mas que a Justiça fez o favor de o levar à chapa e, como era um homem de valores, saiu imediatamente de cena, certamente sabendo que nada havia contra ele, nós só o soubemos mais tarde, mas o PSD perdeu um bom ministro e o país um bom político.

Mais um exemplo de que parece que a Justiça quer mesmo é misturar o trigo com o joio.

Estas situações de investigações que duram anos, fugas de informação, pessoas que são investigadas e nunca acusadas em tribunal, mas apenas em praça publica criam o lodaçal onde os partidos extremistas gostam de se mexer e depois permite-lhes colocar cartazes a dizer que são todos corruptos. Isto porque a nossa Justiça não nos consegue dizer os que são e os que não são.

A própria Justiça é que esta a dizer a Portugal que os políticos são todos corruptos, depois admirem-se quando votam como votam.

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