O RELHO: SALMÃO-DO-ATLÂNTICO (Salmo salar) ou TRUTA MARISCA (Salmo trutta trutta)?
Ao longo do curso do Ave, nas Memórias Paroquiais, são quatro os relatos de párocos de freguesias ribeirinhas que registam a existência de “relhos” nas águas deste rio. Três são de freguesias tirsenses da margem norte do rio: Santiago de Areias[1], São Miguel da Lama[2] e São Martinho de Sequeirô[3]. O quarto é da freguesia de Ronfe[4], Guimarães. Nas quatro não se cita a existência do salmão ou da truta marisca.
O termo “relho” surge com alguma frequência como designação de um peixe de rio, supostamente anádromo. Contudo, na documentação antiga, o termo é impreciso[5]. Tenhamos em conta as variantes regionais e locais, que as designações poderiam ter. Algumas, hoje, são-nos já desconhecidas. Há que referir que a implementação do sistema do botânico sueco Carl Linnaeus, que marcou o início da nomenclatura zoológica moderna, publicado em 1758/59. Em Portugal, apareceu através de um processo gradual, inserido no contexto da modernização científica dos finais do século XVIII, pelo que ainda não está presente em inúmera documentação, inclusive, em muita do século XIX. Por outro lado, são escassos os documentos escritos por biólogos, muito menos os que se referem ao rio Ave.
Sobre o dito “relho”, vejamos então que:
- O salmão, no passado, também era conhecido por “relho” ou “salmão relho”, como referem Rafael Bluteau[6] e José Leite Vasconcelos[7], conforme já se referiu no artigo anterior.
- “Relho”, por norma, significa “velho”. Daí, a sua aplicação ao salmão de retorno – o “salmão relho” – aquele que já se reproduziu e que, sem a gordura corporal com que subiu os rios, os desce muito mais magro, destituído do sabor que o caracteriza, com as mandíbulas pouco proeminentes e de pele escurecida, fosca, manchada e sem brilho. Em 1931, o Pe. João Loução, que paroquiou freguesias de Cerveira e Monção, na sua “Lexicografia das Margens do Minho”, refere que o termo “rêlho” é o “nome que dão ao salmão do ano anterior, pai dos do ano da pesca: é espalmado, escaveirado e produz desinteria”[8].
- Rafael Bluteau, no seu dicionário, informa também que, além de salmão, o termo também pode indicar uma truta: “he nome de certo peyxe (salmões relhos, trutas […])”[9];
- Na atualidade, alguns dicionários referem que o “relho” é uma truta-marisca[10];
- O facto de o salmão e a truta marisca serem anádromos e partilharem muitas características morfológicas, leva a que sejam confundidos. Ambos têm semelhanças na cor alaranjada da carne, no formato corporal, nas barbatanas e na distribuição das sarapintas pela pele;
- Além disso, ainda há documentos que referem o relho como uma espécie distinta das trutas mariscas e dos salmões. São exemplo disso os escritos do já citado Mestre António de Guimarães (vide artigo anterior)[11] e Duarte Nunes de Leão que, na sua “Descripção do Reino de Portugal”, publicada em 1720, explica que nos rios “Mondego, Vouga, Douro, Leça, Ave, Neiva, Cávado, Lima, e do Minho, é admirável coisa a multidão que dão de sáveis, lampreias, trutas, ireses, linguados, solhos, salmões, relhos, e outros pescados preciosos (…)”[12]. Veja-se também, entre inúmeros exemplos, os relatos dos párocos redatores das Memórias Paroquiais de 1758[13] de Campo de Gerês[14], Chamoim[15] e Vilar[16], no concelho de Terras do Bouro, que, da mesma forma, distinguem os relhos dos outros dois peixes;
Por fim, e a título de curiosidade, note-se o que descreve o reitor João do Couto Ribeiro, pároco de Ronfe, Guimarães, nas suas Memórias Paroquiais de 1758: “as trutas se vão fazer relhos ao mar e tornam, principalmente ao rio Minho, salmões”[17]. Num período em que os estudos científicos sobre os animais ainda não tinham a maturidade que a centúria de novecentos veio proporcionar à ciência, as reflexões sobre as observações de comportamentos e migrações demonstram o interesse. Se conjeturavam, era porque o aguçar da sua curiosidade procurava explicações.
[1] [ANTT], Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 61, p. 335 a 338. Código referência PT/TT/MPRQ/4/61.
[2] Idem, vol. 19, nº 28, pp. 153 a 156. Código referência PT/TT/MPRQ/19/28.
[3] Idem, vol. 34, nº 126, pp. 927 a 930. Código referência PT/TT/MPRQ/34/126.
[4] Idem, vol. 7, nº 76, pp. 1257 a 1262. Código referência PT/TT/MPRQ/7/76.
[5] Num estudo sobre o Lima, os autores de uma apresentação, referem a espécie como “não identificada”. In AZEITEIRO, Ulisses; BASTOS, Maria; DIAS, João Alveirinho; VIDAL, Alexandra; VIEIRA, Ovídio de Sousa – “A Fauna Fluvial do Rio Lima nas Memórias Paroquiais de 1758”. [Poster], Poster apresentado no III Encontro da Rede BRASPOR, Ponte de Lima, Portugal, 22 a 24 de julho de 2013. https://www.researchgate.net/publication/279996508_A_FAUNA_FLUVIAL_DO_RIO_LIMA_NAS_MEMORIAS_PAROQUIAIS_DE_1758
[6] BLUTEAU, Rafael – “Vocabulario Portuguez, e Latino (…)”. Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Vol. VII. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, 1720. P. 220.
[7] VASCONCELOS, J. Leite de – “Etnografia Portuguesa. Tentame de Sistematização”. Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980. P. 172.
[8] LOUÇÃO, João Luís Lourenço – “Lexicografia das Margens do Minho”. In VASCONCELOS, J. Leite de (Dir.) – “Revista Lusitana”. Vol. 29.º. N.ºs 1-4. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1931. P.265.
[9] BLUTEAU, Rafael – Op. cit.
[10] “Relho” – no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptdicionarios/lingua-portuguesa/relho [visualizado em 2026-03-05] |”Relho” – no Dicionário Estraviz [em linha]. Disponível em https://estraviz.org/relho [visualizado em 2026-03-05]
COUTINHO, Carlos – “Velho e Relho” – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa [em linha]. ISCTE-UL. Disponível em https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/correio/velho-e-relho/33558 |
[11] ANTÓNIO, Mestre António – “Uma descrição de Entre-Douro-e-Minho”. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. 32: 3-4 (Set – Dez 1959). Pp. 441-460- Porto: Câmara Municipal do Porto, 1959. P. 447.
[12] LEAO, Duarte Nunes de – “Descripção do Reino de Portugal / per Duarte Nunez do Leão, desembargador da casa da supplicação (…)”. Lisboa: impresso com licença, por Iorge Rodriguez, 1610. P. 56 v.
[13] CAPELA, José Viriato – “Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo. As Memórias Paroquiais de 1758”. Terras do Bouro: Câmara Municipal de Terras do Bouro, 2001.
[14] Idem, p.121.
[15] Idem, p.139.
[16] Idem, pp. 208-209.
[17] [ANTT], Memórias Paroquiais, vol. 7, nº 76, pp. 1257 a 1262. Código referência PT/TT/MPRQ/7/76.
