[Opinião] Quando tudo falha, vê-se quem governa

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Na série sobre a família real inglesa, The Crown, vemos a representação de um evento real em que a rainha Isabel II demora vários dias a visitar Aberfan, uma localidade onde um deslizamento de resíduos de carvão matou 144 pessoas, a maioria crianças. A decisão é apresentada como racional e respeitadora do protocolo. Mas, quando esta se torna inevitável, a visita finalmente acontece, mas já é tarde para alterar a perceção que ficou: a de um poder distante, incapaz de compreender a urgência do momento e a importância de estar presente.

Leiria viveu recentemente a sua própria tragédia e também aqui houve atraso, distância e incapacidade de resposta. A tempestade não expôs apenas a fragilidade das infraestruturas. Expôs a fragilidade de um modelo de governação que não está preparado para responder às necessidades reais das pessoas.
Durante dias, milhares de casas ficaram sem eletricidade, as comunicações falharam e empresas foram obrigadas a suspender a atividade. No terreno, foram as autarquias, os bombeiros, as associações e as populações a resolver aquilo que deveria ter sido coordenado de forma imediata pelo Estado. Faltou capacidade. E, de forma incompreensível, enquanto faltava essa capacidade, não faltou a cobrança de portagens a quem entrava na região para ajudar.

À falta de preparação seguiu-se o guião habitual: visitas institucionais, declarações de solidariedade e anúncios de apoios que agora se revelam muito menores do que o esperado. O ministro da Economia disse que os apoios iriam chegar, mas que, até lá, as pessoas teriam de viver com o salário do último mês, num país onde, em condições normais, esse salário já mal chega para as despesas básicas. Muitas famílias perderam a casa. Muitas empresas ficaram sem condições para trabalhar e entraram em lay-off. E, mesmo assim, o Estado não garante a totalidade do salário a quem ficou sem rendimento por causa da catástrofe. Estas pessoas perderam a estabilidade, perderam os seus bens e vão perder também parte do seu rendimento. Isto é uma escolha política.

Num país que fala constantemente de resiliência, transição energética, coesão territorial e modernização, bastou uma tempestade para mostrar redes elétricas vulneráveis, comunicações sem alternativas e uma resposta dependente da boa vontade dos municípios. E, como era “longe” da capital, não mereceu a atenção imediata dos nossos governantes.

Sabemos que fenómenos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes. O que ainda não sabemos é se o país está disposto a preparar-se para eles. Os planos de prevenção ficam sempre para depois. Só regressam ao discurso quando acontece uma tragédia. E depois voltam a desaparecer sem acompanhamento nem execução. Assim, quando tudo se repete, a surpresa é sempre a mesma.

Leiria mostrou que ainda não chegámos ao nível de preparação de que precisamos. E mostrou outra realidade, a distância entre o poder e o território. O Portugal real continua a existir apenas quando há uma tragédia. Num país moderno, a energia e as comunicações não podem colapsar ao primeiro evento extremo nem ficar inoperacionais durante tanto tempo. Num país que conhece o seu território, as populações não podem sentir que dependem exclusivamente das câmaras municipais e da solidariedade local para ultrapassar dias críticos.

O que se pede não é presença mediática. É presença real. Não são anúncios. É capacidade de resposta. Não são planos no papel. É preparação no terreno.

Porque governar vê-se sobretudo quando tudo falha.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

twelve − 6 =