Nos últimos anos, tive algumas discussões relacionadas com o jogador de futebol Vinicius Júnior, em que o defendi, bem antes do incidente ocorrido no jogo entre o Real Madrid e o meu Benfica.
A tese que ouvi várias vezes e que sempre tentei desmontar é a mesma que agora vemos proliferada nas últimas semanas, um pouco por todo lado.
Esta tese, em primeiro lugar, sustenta-se numa falsa equiparação entre a conduta supostamente provocatória em campo e os atos de racismo de que é vítima (a esta altura está por apurar se foi o caso com Prestianni). Chamo esta equiparação falsa porque os dois termos em comparação são moralmente incomensuráveis. Qualquer ato menos correto por parte do jogador não tem paralelo, em termos de gravidade, ao racismo. Vinicius pode ser vaiado, criticado, eventualmente sancionado (levou um amarelo pelo festejo) e pago na mesma moeda (o que fez Otamendi ao ostentar o seu troféu de campeão do mundo). Aliás, negar esta possibilidade seria também incorrer numa forma de racismo, eventualmente ingénuo, ao infantilizar Vinicius, negando-lhe a capacidade de responder pelos seus próprios atos. Mas o racismo não é a mesma moeda, não é uma moeda aceitável em nenhuma circunstância. Posso queixar-me da indelicadeza de alguém no trânsito, mas não posso fazê-lo puxando o revólver.
Da equiparação parte-se, precisamente, para um nexo causal entre os dois termos, o que resulta na falácia da “minissaia”, na qual se invertem os papéis da vítima e do carrasco. Na boca de muitos foi a provocação que espoletou o racismo. “É sempre ele”, dizem. Há uma diferença fundamental entre algo ter ocorrido na sequência de outro ato e ter sido da responsabilidade desse ato. Podemos dizer que alguém foi assassinado na rua na sequência de ter saído de casa, mas seria absurdo dizer que a vítima é a responsável pelo seu homicídio por ter saído de casa. É o que acontece invariavelmente com Vinicius.
Basta um simples exemplo para desmontar esta falácia. Quando um jogador caucasiano é provocador e não faltam exemplos, nunca é atacado, em resposta, pela cor da sua pele. Só este fato denota um problema na nossa sociedade.
A esta altura não podemos confirmar o que aconteceu (no caso de Prestianni, mas o racismo de alguns adeptos está mais do que confirmado). Aguardamos a investigação.
Infelizmente, o meu Benfica portou-se francamente mal na reação. Partilhou um vídeo em resposta ao testemunho de Mbappé, como se tratasse de um fora de jogo ou de um penalty por assinalar. Mourinho esteve ao mesmo nível, em declarações nas quais não só incorre nas falácias abordadas neste artigo, como também oferece uma nova versão do típico “até tenho amigos que são”, associando Eusébio ao Benfica.
A reação dos responsáveis do Benfica reflete, lamentavelmente, os vícios que a nossa sociedade tarda em largar.
Sempre aconteceu, dizem outros. Mais uma falácia, a da antiguidade.
