Quando olhamos para a Venezuela de hoje, é difícil não sentir uma mistura de incredulidade e um peso profundo de responsabilidade histórica. Aquilo que alguns apelidam de “tempo dos monstros” é, na verdade, um sinal de que as nossas categorias tradicionais como a soberania, a democracia, a intervenção e a geopolítica, estão a ser reconfiguradas em tempo real, diante dos nossos olhos.
Nos últimos anos, o país caribenho passou por uma das mais dramáticas crises políticas e humanitárias do hemisfério. O chavismo, sob Hugo Chávez e depois Nicolás Maduro, concentrou poder, desmantelou instituições independentes e sufocou a oposição.
Isso resultou não só num colapso económico e social como também em milhões de venezuelanos forçados a sair do seu país para sobreviver, criando uma diáspora enorme e um vazio de esperança entre quem ficou.
A captura de Maduro por forças externas em janeiro de 2026 (um momento que marca uma rutura radical) assinala não apenas o fim de um ciclo autoritário, mas, paradoxalmente, o início de outro tipo de incerteza.
A ação militar que retirou o líder venezuelano do poder, conduzida por uma potência estrangeira, coloca questões fulcrais sobre soberania, legitimidade e o verdadeiro papel da comunidade internacional num país que sempre pareceu condenado à luta entre superpotências e interesses económicos.
Vozes críticas argumentam que esta intervenção é uma grave violação do direito internacional e que quem detém força raramente abdica dela. Nem que seja em nome da democracia.
Outros apontam, com certa ironia amarga, que enquanto se discutem rótulos e legitimidade, a população venezuelana continua a sofrer, independentemente de quem esteja formalmente no poder. A verdade é que o poder sem legitimidade é apenas mais um monstro no tabuleiro.
Mas será que estamos realmente a assistir ao fim de uma tirania e ao início de um novo capítulo democrático, ou simplesmente a mais uma página escrita pelos interesses de potências externas?
A resposta, apesar de óbvia para muitos analistas, é mais complexa do que aparenta.
Sim, Maduro representou um regime opressor que mutilou a democracia interna, mas retirar um líder através de uma operação militar estrangeira abre um precedente perigoso: a normalização da força como instrumento de mudança de regimes.
Isso não é um avanço, é um alerta.
O essencial, no entanto, não está noutras capitais nem nos conselhos de transição propostos por potências regionais ou blocos internacionais. Está na Venezuela, na capacidade dos seus cidadãos de recuperar a voz que lhes foi arrancada, de participar ativamente num processo genuíno de reconstrução institucional.
É aqui que reside o verdadeiro desafio: garantir que a transição não se torna apenas uma troca de elites ou um tabuleiro de xadrez para interesses energéticos e estratégicos externos.
Precisamos de perguntar se o mundo está preparado para um novo paradigma de respeito pela vontade popular e pela autodeterminação, ou se, mais uma vez, vai sacrificar esses princípios no altar de interesses geopolíticos mais amplos.
Porque a história recente ensinou-nos que os monstros não surgem apenas dentro das fronteiras de um país; surgem também quando as grandes potências decidem que a sua vontade é a única que conta.
No fim, a Venezuela está em jogo não só como país, mas como símbolo de um dilema ético global: como conciliar justiça, soberania, dignidade humana e intervenção externa sem produzir mais monstros do que aqueles que pretendemos derrotar?
