Está muito a acontecer com a tomada de posse da nova administração Trump. Austeridade é uma palavra que não utilizam, mas quem já a viveu sabe bem que é isso que está a ser feito. E sabemos que irá afetar todos os outros países nas mais diversas áreas. O que tem aparecido nas notícias são as grandes medidas e aquelas que a comunicação social decide discutir, mas esta administração tem afetado muitas mais áreas do que as que vemos nas notícias. Um dos maiores cortes em curso é na ciência, com o objetivo claro de desmantelar o sistema científico.
Os Estados Unidos têm estado na vanguarda da ciência biomédica. O país tem um investimento significativo nesta área, mas isso está prestes a mudar. A partir de 7 de fevereiro, Trump pretendia cortar os fundos indiretos do NIH. Uma pequena explicação: o NIH (National Institutes of Health) é o equivalente à nossa FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). Este instituto é federal, recebe fundos públicos e abre bolsas de investigação para que todos os investigadores do país possam concorrer. Quando um investigador de uma universidade ganha uma bolsa, o seu grupo de investigação recebe o valor atribuído, denominado custos diretos. Já os custos indiretos correspondem ao valor dado à universidade onde o trabalho será desenvolvido. Estes custos financiam infraestruturas, internet, eliminação de resíduos, acesso a revistas científicas, suporte administrativo, etc. Estes fundos garantem ainda a existência de organismos reguladores, como os comités de ética responsáveis por aprovar estudos envolvendo seres humanos. Esta medida já colocou em causa vários ensaios clínicos, levando à sua interrupção.
Até agora, a percentagem e o valor dos custos indiretos eram negociados diretamente entre o NIH e as instituições, variando geralmente entre 20% e 70% do valor dos custos diretos de cada bolsa. O que esta administração pretende fazer é reduzir este valor para 15% para todas as instituições, de forma repentina, sem aviso prévio e aplicando a medida a bolsas e projetos já em vigor. Para se ter uma noção dos valores, em 2023, dos 35 mil milhões de dólares gastos em bolsas de investigação, 9 mil milhões foram para custos indiretos.
Um dos argumentos para esta medida é que os fundos para investigação devem ir diretamente para a investigação e não para gastos administrativos. No entanto, qualquer pessoa que trabalhe em ciência sabe que, sem esta administração, é difícil, se não impossível, ganhar estas bolsas e executá-las. Para além disso, estes custos indiretos servem também para garantir infraestruturas e apoio técnico na execução de técnicas complexas de investigação. Também não está previsto nenhum aumento do valor das bolsas de investigação, tornando isto um falso argumento. Esta decisão já está a enfrentar resistência e dúvidas sobre a sua constitucionalidade. Um juiz suspendeu a implementação deste corte e está marcada uma audiência para 21 de fevereiro.
Para quem afirma que estas instituições devem procurar financiamento no setor privado, é importante reforçar que, com apoios privados, não se fará o que é feito pelo setor público, nem se defenderá o interesse público. O tipo de ciência financiada também será alterado com Trump. A investigação sobre mulheres e a sua biologia poderá ser significativamente reduzida, com palavras proibidas em candidaturas. Mas isso é matéria para outro artigo.