[Crónica] O Santo Amaro da Carreira (ou de Paredes)

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

No início do ano, após os festejos de Natal e do Ano Novo, há um conjunto de festividades populares de inverno que dão continuidade às celebrações do solstício.  Entre os meses de janeiro e fevereiro, destacam-se o São Sebastião, o São Gonçalo e o Santo Amaro.

Deste último santo, pela região, evidenciam-se duas celebrações: a de Mascotelos, em Guimarães, e a da freguesia da Carreira, em Famalicão. A primeira é uma grande romaria, conhecida, em especial, pelo concurso de gado bovino e respetiva bênção coletiva dos animais. A segunda, da qual vamos falar, é mais pequena e a sua fama pouco ultrapassa os limites das freguesias vizinhas, não indo muito além de Santo Tirso, Aves, Riba de Ave, Joane e Famalicão. Localmente toma o nome de Santo Amaro de Paredes.

Segundo duas provisões, que se encontram no Arquivo Distrital de Braga, em 1750, os moradores da freguesia reformaram e ampliaram a capela. Muito provavelmente, esta campanha de obras surgiu em sequência da fundação da Confraria do Senhor da Boa Morte, sedeada neste templo, que, segundo outra provisão do mesmo arquivo distrital, submeteu a aprovação dos seus estatutos à arquidiocese em 1743. É esta irmandade que, ainda hoje, organiza a festa, o maior acontecimento da sua atividade anual. Na sua rotina do dia a dia, destaca-se por acompanhar os rituais funerários dos seus inúmeros irmãos, a maior parte deles dos concelhos de Famalicão e Santo Tirso.

Em 1755, nas memórias paroquiais, o Abade da Carreira, Francisco Álvares Martins, refere que a capela, situada no lugar do Monte de Paredes, era antiga e que, a 15 de janeiro, aí havia uma romagem com feira, e que os crentes a ela acorriam, oferecendo, ao santo, ex-votos de cera, com formas de braços e pernas, um costume que ainda hoje se mantém, dado que Santo Amaro é patrono dos ossos. Conforme relatam os mais velhos, outrora, a festa era marcada por romeiras que aí se deslocavam a pé, organizadas em trupes de cantes polifónicos informais. Estes grupos, muitas vezes, eram reunidos por determinada pessoa que, por promessa, agradecia a graça dada pelo santo a um doente agora recuperado. Regra geral, tratava-se de alguém que tinha sofrido um acidente com fratura(s) óssea(s) ou de um seu familiar. Chegados à capela assistiam à missa e à procissão.

Fotografia da capela de Santo Amaro anterior à construção da torre. Autor: Vasco de Carvalho. Retirada da página Famalicão ID: famalicaoid.org

Conforme acontece, cada vez mais, com outras festas, hoje, a vertente profana da romaria excede, em muito, a sua religiosidade. Neste âmbito, ainda há quarenta anos, o Santo Amaro era conhecido por ser um pequeno Carnaval antecipado, onde os rapazes atiravam, indiscriminadamente, confettis e serpentinas às raparigas; em que as famílias levavam farnéis e garrafões de vinho, para o piquenique do almoço; e por ser um local onde se realizavam jogos de fortuna e azar ilegais. Destes, destacava-se a ilustre “bugalhinha”, um jogo de copo de dados, em que os apostadores colocavam o dinheiro em cima de um dos números de um tapete de enrolar, disposto em cima de uma pequena mesa, na esperança que lhes saísse a sorte numérica. Esta “banca” era propriedade de uma conhecida matriarca de Calendário, Famalicão, cuja presença foi uma constante nas festividades rurais de Famalicão e Santo Tirso. Quando surgia a GNR, os jogadores dispersavam e o tapete era rapidamente enrolado. Nos inícios da década de 1990, ficou famoso o dia em que, sem ninguém reparar, um grupo de rapazes de Landim amarrou uma corda à mesa da bugalhinha, e daí a uma mota, que arrancando a toda a força, espalhou o dinheiro pelo chão do local…

Outrora, a Quinta de Santo Amaro, que possui duas entradas para o adro da capela, tinha, através de escritura, uma servidão para com a Confraria do Senhor da Boa Morte. Nela, atestava-se que o seu proprietário tinha a obrigação de, nos dias da festa, abrir os portões para que a irmandade montasse uma taberna no alpendre da eira. De facto, era um local pitoresco, de comensalidade festiva sui generis que, muito dificilmente, conseguiríamos aqui descrever.

Nesta festa, nas últimas décadas subsistiu, e ganhou alento, a corrida às tabernas improvisadas que se dispõem em torno do adro da Capela. Nestes estabelecimentos rudimentares, os homens das freguesias circunvizinhas confraternizam entre si, petiscando bolinhos de bacalhau, panados, rissóis, fêveras, rojões e enchidos acompanhando, sobretudo, de vinho palhete em grandes copos, os “sinos”, verdadeiros recipientes de afirmação masculina. Este tipo de vinho tem grande popularidade nas festas populares de janeiro e fevereiro da região, como são os casos das festas de São Gonçalo, em Covelas, e da Nossa Senhora das Candeias, em Landim.  

É caso para dizer que a Confraria da Boa Morte também proporciona aos crentes dias de boa vida.

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