[Reportagem] Diogo Gonçalves: “Ninguém me garante que vá ter sucesso, mas tenho sensações que não tinha há meses e isso dá-me alento”

ATUALIDADE DESTAQUE

Após o acidente de mota que o deixou paraplégico devido a uma lesão medular, Diogo Gonçalves não se sente condenado ao destino que lhe querem traçar. Agarra-se à esperança que o processo de reabilitação lhe vislumbra, impulsionado pela família, amigos e uma onda solidária imensa. Campanha de angariação de fundos pretende ajudar a financiar tratamento.

É um raro dia de folga para Diogo Gonçalves. Entre Riba d’Ave, Porto e Braga, as sessões de fisioterapia e reabilitação seguem-se a um ritmo vertiginoso, quase implacável. É um “trabalho árduo”, admite, mas que tem “permitido grandes ganhos”.

Depois de semanas de tempestades consecutivas, o sol ilumina a sala de estar do apartamento por onde agora circula de cadeira de rodas e recebe o Entre Margens com vontade de falar de futebol. É sintomático do seu estado de espírito. Ao mesmo tempo que se adapta à nova realidade, não desiste de procurar a normalidade quotidiana possível e de ambicionar por uma vida com o máximo de autonomia.
Aceitar o “destino”, como referiu a Cristina Ferreira e Claúdio Ramos, não significa ficar condenado a um qualquer desígnio cósmico, escrito a tinta permanente e sem possibilidade de desvio. Depois do acidente de mota que sofreu em abril do ano passado que o deixou paraplégico devido a uma lesão medular, Diogo Gonçalves tem usado a expressão para tentar intelectualizar o que lhe aconteceu: num dia como qualquer outro, decide ir de mota para o treino de futsal e, num ápice, a sua vida muda. Sem avisos ou explicações. O “destino”, o que quer que isso seja, pode tê-lo encaminhado para aquele sítio, àquela hora, naquelas circunstâncias, mas não vai condicionar o que quer para si e para a sua vida.

Passaram-se cerca de dez meses desde o acidente. O primeiro mês foi praticamente passado nos cuidados intensivos do hospital de São João, num coma que se tornou complexo devido a complicações derivadas de um traumatismo craniano que sofreu no acidente. Já livre de perigo, passou três meses no hospital de Famalicão para recuperar das mazelas. Daí, começou a reabilitação no CRN de Vila Nova de Gaia. Encontra-se, de há quatro meses a esta parte, num ping-pong constante entre consultas e sessões de fisioterapia.
O diagnóstico inicial apontava para uma “lesão completa” porque, comunicaram-lhe os médicos, não sente as pernas. Ou seja, os comandos do cérebro não estão a chegar aos membros inferiores, o que significa que as hipóteses de recuperação da paralisia eram “basicamente nulas”. Só que com o passar do tempo, Diogo foi-se apercebendo que poderia não ser assim tão linear. Começou a sentir sinais contraditórios.

“Por exemplo, eu não sentia o meu abdómen e agora já sinto. O mesmo com formigueiro nas pernas”, revela em conversa com o Entre Margens. “Segundo os livros, tenho de aceitar esse facto porque não sinto, mas se há informação a ser transmitida…”

A mensagem que recebia via “caminho institucional” era de que a nível clínico não havia hipóteses quase nenhumas de recuperação e que o mais importante era aprender a viver com a situação. Ora, para Diogo aceitar a nova realidade e continuar a procurar outros caminhos não são ideias mutuamente exclusivas. Pelo contrário. “Obviamente que gostava de sair desta situação, mas se não conseguir, tenho de saber lidar o melhor possível”.

Entre as “mil e uma clínicas” e terapeutas que “prometem tudo”, encontrou o local no Porto onde hoje faz uma parte significativa da sua reabilitação, indicado por um caso de sucesso idêntico à situação do Diogo. À inovadora clínica de Braga chegou também através do testemunho de um outro caso bem-sucedido.

“Tenho recebido boas notícias a nível da recuperação e mesmo dos sinais do meu corpo que há três meses não sentia”, garante. “Se tivesse ficado pelo institucional não estava com as melhorias com que estou hoje. Tinha estagnado. Sinto que a janela de recuperação está mais aberta”.

Reconta um dos exercícios para demonstrar esse progresso. A terapeuta coloca um dos pés em cima de um skate e pede-lhe para o arrastar. Mentalmente, esforça-se para fazer o movimento. E vê-se o skate, “devagarinho”, a movimentar-se. Continua a não sentir o toque físico. Para já, são tudo “sensações interiores”, mas os sinais estão lá.

Pode parecer simples, mas exige “um esforço mental de tal maneira que desgasta”. O objetivo é fazer com que não se perca a associação entre a imagem mental do ato de arrastar a perna com a sua concretização física, o movimento em si. Ou seja, “a ligação não se pode perder”. É um ponto fundamental de todo este processo de reabilitação.

“Ninguém me garante que vá ter sucesso e que vá voltar a andar, mas tenho sensações que não tinha hás uns meses atrás e isso dá-me alento”, remata.

“A vida não pode ser só tratamentos”
A azáfama do dia a dia nem sempre é fácil gerir. Não é só o desgaste das sessões e do processo em si, mas também a gestão das vidas de quem o rodeia que exige cooperação em uníssono. A namorada, Claúdia Costa, chega do trabalho, entretanto, e junta-se à conversa. Diogo não tem meias palavras. “Eu não tenho a força dela. Felizmente que a tenho ao meu lado”.

Sabe os horários na ponta da língua. Terças e quintas para ali. Segundas e sextas para acolá. Concilia todas as consultas e tratamentos com o trabalho, tentando ao máximo criar uma sensação de normalidade sobretudo ao fim de semana. Aí abre-se uma outra janela para a comunidade que, desde o primeiro dia, tem apoiado a causa de Diogo Gonçalves.

“A vida não podem ser só tratamentos”, começa por dizer Claúdia Costa. “Temos de tentar ter uma vida normal fora disto. E esse novo normal que temos tentado criar, neste momento, envolve muitos amigos”.
Se durante a semana, a sua vida se pinta em tons neutros das paredes de consultórios médicos, ao fim de semana ganha cor e vivacidade. Diogo diz que sempre foi uma pessoa “sociável”, mas mesmo assim não deixa de se surpreender pela quantidade de pessoas que se têm associado à sua luta.

Mesmo que nem sempre esteja predisposto a sair do conforto de casa, esteja a passar por um dia menos bom, sente que marcar presença nas iniciativas que vão acontecendo em seu nome é não só “gratificante” como uma forma de não ficar fechado dentro de quatro paredes, abrindo-se ao mundo, espairecer, conviver.

“É uma descarga diferente”, acrescenta Diogo Gonçalves. “Saber que posso estar com os meus amigos é o mínimo que posso fazer para aquilo que eles têm feito por mim”.

Por esta altura, está a decorrer uma campanha de angariação de fundos para ajudar com os custos da reabilitação e recuperação do Diogo. Foi lançado um “Go Fund Me” com páginas no Facebook e no Instagram associadas onde pode seguir todo o processo, bem como acompanhar todas as iniciativas solidárias que têm sido levadas a cabo. E têm sido imensas, sem sinais de abrandamento. Os gestos de solidariedade têm aparecido um pouco de todo o lado e o Diogo corresponde com um ímpeto inabalável de que efetivamente vai conseguir melhorar.

“Neste momento, não penso em mais nada que não seja acreditar piamente que vou conseguir sair desta situação”, afirma, resoluto. “A partir do momento em que veja que afinal não vou ter sucesso, terei de aceitar, obviamente. Mas acredito que vou conseguir”.

As suas esperanças não são desmesuradas. Os ganhos dos últimos meses comprovam-no, mas nestas coisas é preciso manter os pés bem assentes na terra para não criar expectativas irrealistas. Uma lesão medular não é como uma lesão desportiva. O progresso não se mede de forma linear. Há momentos de avanço repentinos complementados por períodos de estabilização. Faz tudo parte de um processo onde paciência vai ser chave.

Os livros, diz, apontam para um caminho de cinco anos para recuperar de uma lesão medular. Para Diogo, ainda nem um ano se passou. Ainda está na linha de partida, não de um sprint, mas de uma maratona. Ninguém lhe promete um destino, sabe que para lá chegar, seja onde for, a esperança é o seu combustível.

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