[Crónica] Memórias da fauna piscícola de Ambos os Aves (VI)

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Salmão-do-Atlântico (salmo salar)

Caraterísticas: Em Portugal, o salmão-do-atlântico, ou salmão-comum[1], é um peixe considerado como “criticamente em perigo”. Em regra, os adultos possuem entre 70 e 80cm de comprimento. Porém existem fêmeas que podem ter 1.20m e machos com 1.5m de comprimento. Este anádromo, tal como a lampreia, vindo do mar, sobe os rios para se reproduzir e crescer. Atualmente, desde o início da primavera até final do outono, já só entra nos maiores cursos fluviais do Entre-Douro-e-Minho, exceto o Ave, principalmente no rio Minho e, em menores quantidades, no Lima, no Cávado e Douro. Chegado às zonas de cabeceira destes cursos fluviais, desova em leitos de cascalho e de areia, pouco profundos, em locais cujas águas correntes produzem a oxigenação necessária à subsistência dos ovos aí depositados. Após a postura, alguns voltam para o mar, entrando em novo ciclo de crescimento, e outros morrem no local de reprodução. As larvas que eclodem dos ovos – os alevins – vivem as primeiras semanas nos sedimentos arenosos do rio e, posteriormente, saem para delimitar e proteger territórios de crescimento individuais, o que fazem com alguma agressividade. Por norma, na Península Ibérica, permanecem na água doce entre um e dois anos e, seguidamente, descem até aos estuários da foz para se adaptarem à salinidade das águas oceânicas. Neste período, os juvenis tornam-se menos territoriais e adquirem comportamentos mais sociáveis, formando cardumes que migram até ao Atlântico Norte, para os mares das Ilhas Faroé, Islândia, Gronelândia e Labrador, a mais de 5000km de distância. Depois, passados de um a três anos, regressam aos rios onde nasceram para reiniciar novamente o ciclo de reprodução e de vida.

Nos rios, os juvenis alimentam-se, sobretudo, de larvas e os adultos de insetos, moluscos e crustáceos. No mar, consomem peixes, molusco e crustáceos, sobretudo “krill[2].

***

O salmão terá desaparecido do rio Ave de forma definitiva, muito provavelmente, na charneira de 1900, aquando da construção das primeiras mini-hídricas para aproveitamento hidroelétrico. Contudo, deduzimos que, antes desse processo, a espécie já haveria de ser escassa. Note-se, por exemplo, que, em 1842, no Inquérito Paroquial do Concelho de Guimarães, entre as muitas espécies píscolas, referidas como existentes nos cursos da bacia hidrográfica do Ave deste município, o salmão não é mencionado[3].

Em 1887, o Jornal de Santo Thyrso[4] ainda noticiava a pesca, um pouco a jusante da ponte de Santo Tirso, de um salmão admirável, de 7kg e com o comprimento de 1m e 7kg. O artigo refere que o mesmo foi oferecido, certamente para degustação, ao torna-viagem mais conhecido da então vila, o Conde de São Bento. De notar que, por norma, um exemplar desta dimensão já é bastante experiente, dado que subiu e desceu o curso de água diversas vezes. Quando os rios estavam livres de barragens, os salmões de maior dimensão eram os que tinham a capacidade de transpor inúmeros obstáculos e chegar às zonas do curso superior, mais altas, perto das nascentes dos rios[5].

Nos inquéritos das Memórias Paroquiais de 1758, no Ave, não se registaram salmões nas paróquias a montante de Ronfe, Guimarães. Note-se que, em situações análogas, como nas localidades da bacia do Cávado, os redatores do mesmo inquérito referem a presença deste peixe em freguesias montanhosas, como, por exemplo, as do concelho de Terras do Bouro[6].  Podemos entender que, já no século XVIII, o Ave não possuía as mesmas condições naturais que os outros rios do Entre Douro e Minho, designadamente, o Cávado, o Lima ou o Minho, por ter uma bacia hidrográfica menos extensa.  Por outro lado, podemos considerar que, essa dimensão mais reduzida, aliada a uma maior pressão demográfica, traduzida num elevado número de atividades e estruturas de atividades piscícolas, sistemas de regadio e aproveitamentos da força hidráulica para moagens, lagares de azeite, serrações hidráulicas, engenhos de linho e pisões de lã, diminuíam já, consideravelmente, o número de salmões no rio.

(continua)

Legenda: Salmão (Salmo Salar). Gravura de Gabriel Bodenehr (1673-1766) do livro BLOCH, Marcus Elieser et. al. – “Ichthyologie, ou Histoire Naturelle Generale et Particuliere des Poissons”. Berlim: Chez l’auteur, & chez François de la Garde libraire, 1785. Retirada de www.meisterdrucke.es a 11 de janeiro de 2026.


[1] Leite Vasconcelos registou outras grafias e pronúncias da designação deste peixe, tais como “salmom”, “sarmão” e “sermões”. Vide VASCONCELOS, J. Leite de – “Etnografia Portuguesa. Tentame de Sistematização”. Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980. P. 172.

[2] Informações retiradas de: MAGALHÃES MF, AMARAL SD, SOUSA M, ALEXANDRE CM, ALMEIDA PR, ALVES MJ, CORTES R, FARROBO A, FILIPE AF, FRANCO A, JESUS J, OLIVEIRA JM, PEREIRA J, PIRES D, REIS M, RIBEIRO F, ROBALO JI, SÁ F, SANTOS CS, TEIXEIRA A, DOMINGOS I. – “Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental”. Lisboa: FCiências.ID & ICNF, I.P., 2023. Pp. 200-203.

[3] Sobre este assunto consulte-se: LAMEIRAS, Alberto – “Inquérito Paroquial de 1842 “.Revista de Guimarães, 108 Jan- Dez. 1998. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 1998. Pp. 9-644.

[4] “Salmão” – Jornal de Santo Thyrso. Ano VI, n.º 273, 28 de julho de 1887. P.2.

[5]MAGALHÃES MF, et al., op. cit., p. 202.

[6] As Memórias Paroquiais das freguesias deste concelho, registam a presença do salmão nas freguesias de Rio Caldo, Vilar e Valdozende, que superam os 400m de altitude, e também Vilar de Veiga, já acima dos 700m. Além deste anádromo, também registam a subida de algumas lampreias e trutas mariscas aos territórios bourenses mais montanhosos.  Vide in CAPELA, José Viriato – “Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo. As Memórias Paroquiais de 1758”. Terras do Bouro: Câmara Municipal de Terras do Bouro, 2001.

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