“Gostava era que as aulas fossem diferenciadoras no uso da tecnologia”

A escola na era das tecnologias de informação. Na primeira grande entrevista desde que foi eleita vereadora da educação nas eleições de outubro passado, Sílvia Tavares fala da preparação para o ano letivo que se avizinha, do tema quente da descentralização e da utilização de tecnologias nas escolas, uma das suas bandeiras desde que chegou ao cargo.

Sinónimo de azáfama, ansiedade e preocupações, o início do mês de setembro simboliza o retorno à realidade depois das aventuras de verão. O “regresso às aulas” é um fenómeno transversal que une miúdos e graúdos no planeamento minucioso do dia-a-dia para os próximos dez meses, onde tudo é novo e recomeça do zero, pleno de novidades.
E novidades não apenas para as famílias e alunos. Eleita em outubro de 2017, Sílvia Tavares, assumiu a vereação da educação na câmara municipal de Santo Tirso e enfrenta agora, a sua primeira “abertura do ano letivo” na gestão de uma pasta sempre delicada. Com futuro na palma da mão, Sílvia Tavares promete não ficar por aqui.
Primeira abertura do ano letivo enquanto vereadora da educação. Está tudo preparado? Quais são as responsabilidades do município num contexto onde o Estado é o grande protagonista?
O início do ano letivo preocupa sempre os pais e a nós também. Fizemos um planeamento antecipado, em julho, com as escolas, sempre num trabalho cooperativo indo ao encontro das suas necessidades. Vamos dar continuidade a projetos, como o “Agir” de promoção do sucesso escolar, porque apesar de termos uma educação de excelência no Município, queremos sempre inovar e ser diferenciadores. Juntamos a isso uma equipa multidisciplinar, Centro Integra, que colabora com as escolas num trabalho muito incisivo com os alunos em vias de retenção escolar. Durante estes meses de trabalho, sobretudo com alunos do 4º ano, concluímos que tivemos muito sucesso e a retenção de apenas um aluno.
Quanto a novidades, vamos implementar nos alunos do 1º ciclo ciências experimentais e robótica, no âmbito do plano de competências digitais; em conjunto com a área metropolitana vamos levar o teatro, neste caso à escola secundária D. Afonso Henriques, como forma de promover a disciplina de português; também as escolas D. Dinis e São Martinho do Campo vai implementar projetos inovadores.
Anunciada anteriormente foi a parceria entre a câmara municipal e a Federação Portuguesa de Ciclismo para o programa “Ciclismo vai à Escola”, onde todas as escolas do 1º ciclo vão receber uma equipa de professores e técnicos com bicicletas para promover o uso da bicicleta.
De relembrar que o projeto de “reeducação alimentar”, em vigor desde janeiro vai expandir-se este ano, não só com lanches e refeições saudáveis mas também com a criação de uma mascote e caderneta de cromos alusiva.
Estamos sempre com estes projetos diferenciadores com o intuito de trabalhar para além dos resultados, trabalhar para os valores, para a criatividade e desenvolver no aluno o espírito crítico e ir ao encontro do perfil do aluno deste século.
Depois de uma fase onde a grande preocupação era social de ajuda aos alunos e aos familiares, estamos a entrar numa nova etapa onde a ideia é inovar.
Nós queremos inovar e ser diferenciadores, mas nunca deixamos a nossa aposta nestes apoios sociais que a câmara sempre teve. Cerca de 60% do orçamento municipal são medidas de coesão social, porque para as crianças estarem bem na escola e estarem predispostas a utilizar estas novas tecnologias têm que ter me casa essa segurança. Estamos a falar do cheque escolar, o apoio nos transportes e refeições e todos as outras medidas de apoio à família, seja no arrendamento, na saúde ou noutras. Temos várias medidas que continuamos a apoiar, mas queremos fazer mais e inovar. Porque a família já tem as condições necessárias a nível de apoios sociais, mas há que inovar na escola para que os alunos tenham mais sucesso escolar. Daí que queiramos ser diferenciadores e estarmos a apostar nestes projetos todos.
Tocou em dois pontos sempre sensíveis no recomeço das aulas, as refeições e os transportes escolares. Está tudo preparado para o novo ano em ambas as questões?
Sim. O planeamento foi feito já em julho para que este ano letivo começasse de forma adequado. Temos reunido com a empresa que trabalha connosco, a Uniself, para acautelar todos os procedimentos e toda esta logística. As aulas iniciam entre 14 a 17 de setembro e reunimos novamente com os diretores dos agrupamentos e ver todas as necessidades.
Em relação aos transportes igualmente. Temos numa outra novidade, uma aplicação que gere quer as refeições, quer os transportes, entre outras opções. Os pais fazem a inscrição dos filhos para que pudéssemos antecipadamente ter acesso às necessidades dos alunos. Às informações dessa aplicação têm acesso a câmara de Santo Tirso, as empresas parceiras para que tudo fosse acautelado cuidadosamente.
Há pouco menos de um ano com a pasta à sua responsabilidade, como é que tem sido o processo de transição da Sílvia Tavares, quadro da câmara municipal, para a Sílvia Tavares decisora política?
Enquanto assessora do presidente adquiri muita experiência. Apoiava o presidente em várias áreas, incluindo a educação, e isso permitiu-me conhecer com algum pormenor o funcionamento destas áreas. No entanto, a minha experiência de vida como professora e formadora permitiu-me conhecer estas áreas e saber lidar com todas estas temáticas. Tem sido muito gratificante, não senti grandes dificuldades, tive o apoio de todo o executivo e de todos os assessores do presidente e correu muito bem.
Tive a sorte a sorte e a oportunidade de implementar e lançar projetos novos e diferentes, trazer novas ideias, porque a experiência de cada leva-nos a ter personalidades e ideias diferentes. Tivemos um ano letivo recheado, sempre com um fio condutor e com as nossas estratégias bem delineadas. E para este ano letivo, o planeamento está feito, as estratégias já estão delineadas.
Herdou a vereação da sua colega de executivo, Ana Maria Ferreira após longos anos sob sua alçada. Como é que se gere o legado e o percurso que tem sido trilhado nos últimos anos com as ideias novas que tem para a pasta?
A gestão da educação é uma pasta sensível e delicada, sobretudo quando havia um bom trabalho no Município. É uma grande responsabilidade. Dei continuidade aos projetos que já tinham sido iniciados e com ideias novas fui tentando colmatar uma ou outra lacuna que pudesse existir no sentido de inovar. Apesar de sentirmos que se trabalha bem na educação, penso que temos que inovar. Há que fazer algo diferenciador para termos uma educação de excelência. Tínhamos uma boa gestão, mas ideias novas surgem sempre, as pessoas são diferentes, e tendo eu experiência na área do ensino, da formação, das tecnologias, tive a sorte ao relação ao pelouro que e foi atribuído porque sinto que me diz muito.
Claro que sendo das tecnologias criei o pioneiro plano municipal de competências digitais, que ligado à educação, tem como objetivo apetrechar a escola com novas tecnologias. Acho importantíssimo que os alunos começarem desde cedo a ter contacto com estas ferramentas, por isso é que temos a robótica a iniciar, tablets nas escolas, mais quadros interativos, porque os professores precisam de ter estes recursos.
O tema da descentralização está na ordem do dia, ouvimos muitas vezes o presidente da câmara referir que em Santo Tirso se faz descentralização mesmo sem lei em vigor. Considera que no caso específico da educação, a transferência para os municípios das responsabilidades do Estado é o caminho que deve ser seguido?
Eu diria de imediato que sim, se fossem transferidos para os Municípios os recursos humanos e o pacote financeiro que necessitamos. Se assim fosse eu não teria dúvidas que era o caminho a seguir. Temos estado atentos e temos feito o trabalho de casa de analisar quais os gastos que as escolas têm com os recursos humanos, com água, a luz, todas as suas para que tenhamos conhecimento da realidade e conseguirmos dizer que o valor que nos estão a transferir não é valor que corresponde à realidade. Os Municípios não vão aceitar este pacote de descentralização porque estamos a verificar que apenas nos estão a transferir tarefas e não nos estão a transferir os recursos humanos e as verbas que precisamos para conseguirmos dar resposta. Seria o ideal, porque as câmaras municipais trabalham próximo das escolas e dos munícipes e seria concerteza uma boa solução. Nós, que conhecemos tão bem a realidade local gerimos melhor.
No entanto, já estamos a fazer várias tarefas que são da responsabilidade do Estado, por exemplo, no âmbito da requalificação do Parque Escolar. Compreendendo as necessidades avançamos com estas obras que no fundo, uma grande percentagem do valor é financiado pela câmara. Desde 2013, dos 5 milhões de euros investidos apenas 3 milhões advêm de fundos comunitários, sendo o resto suportado por nós. Sem referir o financiamento dos transportes escolar, onde vamos muito para além do que seria nossa obrigação, mesmo acontecendo com os manuais.
Foram referidos anteriormente variadas medidas sociais de apoio às famílias e comunidade educativa. Até onde gostava de ver essas medidas alargadas? Qual é o teto?
Claro que gostávamos de ir mais longe. No caso dos manuais escolares, deveriam ser até ao secundário, neste momento abrange até ao segundo ciclo, mas o ideal seria até ao final do ensino secundário para que todos tivessem o mesmo direito. A realidade é complicada, devido aos escassos orçamentos quer da câmara municipal, quer do Estado.
A nível das bolsas do ensino superior atribuímos cerca de trinta bolsas a alunos, mas gostávamos que o número aumentasse. Também no caso do cheque escolar, estamos a atribuir 25 euros, mas no futuro queremos aumentar um bocadinho. Mas em todas estas medidas já estamos a sair fora do nosso âmbito, são competências do Ministério e nós estamos a assumir muitos encargos que não nos dizem respeito.


Com formação na área da tecnologia e da informática, tem apostado num conjunto de programas ligados a plataformas e competências digitais. Até onde quer levar esta apetência?
Sinceramente, o que eu gostava era que as aulas fossem diferenciadoras no uso da tecnologia. Mas primeiro temos que formar os professores para o uso das tecnologias, porque ainda se nota alguma resistência a esta mudança. Temos que começar por aí, com um plano de formação muito forte neste campo.
Gostava era que todas as salas de aula tivessem um quadro interativo e os alunos tivessem um equipamento à sua disposição, fosse ele um tablet ou telemóvel, para que pudessem acompanhar as aulas através desse equipamento e teriam manuais digitais. Claro que valorizo o uso dos livros, atenção. Penso é que há espaço para em conjunto utilizarmos o livro impresso e o acesso à tecnologia.
A escola do Bom Nome, que vai ser inaugurada brevemente, terá praticamente todas as salas apetrechadas com quadro interativo. Assim como fornecemos 120 tablets no âmbito do projeto “Agir” para o sucesso escolar. Queremos canalizar ainda mais verbas para fornecermos às escolas mais tablets com o objetivo de os alunos terem a possibilidade no contexto de sala de aula cada um terem o seu equipamento. O professor expõe a matéria através do quadro interativo com todas as potencialidades do equipamento e o aluno possa acompanhar. Está provado que os alunos conseguem interiorizar mais facilmente a matéria se experimentarem. Se tivermos vários alunos por computador não têm a possibilidade de tirar proveito desse potencial.
Está prevista alguma atualização, não só do material informático como das redes que os suportam?
Uma das nossas grandes apostas é o alargamento da rede wifi. Temos constatado que as escolas têm um sinal de rede de internet muito baixo e estamos a trabalhar com o Ministério, porque é responsabilidade do Estado fazer a manutenção das redes. Contudo, a câmara de Santo Tirso, atenta e para que este projeto tenha o máximo de sucesso, temos que criar também nós algumas condições como a implementação de routers. Além disso, estamos a fazer a atualização do hardware e do software nas escolas.
Quais diria são as capacidades que uma criança precisa necessariamente aprender para sucederem na sociedade de hoje?
Nós temos constatado que as aulas de TIC agora começam a ser implementadas mais cedo. É preciso não só no 2º ciclo como também logo no 1º ciclo. Daí estarmos a reforçar a aposta na robótica, no tablet e mais do que isso, explicar que o telemóvel muitas vezes pode ser utilizado para benefício e proveito das aulas. Eu já começo a verificar uma mudança de mentalidade que tem que começar pelos professores. Por exemplo, eu acho que não se deve recolher os telemóveis no início das aulas, dependendo dos casos. O que temos que fazer é ensiná-los a utilizar adequadamente as ferramentas. Hoje, um telemóvel tem imensas potencialidades que nos permite aceder à internet e a ferramentas do office. Temos que saber explicar aos nossos alunos que devem utilizar o telemóvel para as finalidades que os professores entenderem e de forma correta, sem bloquear o acesso, mas sim ensinar a utilizar com cuidado, com segurança e promovendo o uso da tecnologia.
Da mesma forma que a língua inglesa foi implementada no 1º ciclo, mesmo com inúmeras vozes críticas, o que pensa da introdução da linguagem de programação informática nesse nível de ensino?
Já estamos a entrar com essas questões através da introdução da robótica que tem associada linguagem de programação. É importante não só saber utilizar, mas que entendam como é que a tecnologia funciona. Saber que existe uma linguagem de programação que lhes permite desenvolver aplicações ou fazer um robot e ser o aluno a programar. Isso é interessantíssimo.
No programa eleitoral distribuído nas eleições de outubro passado notei que não existia uma secção intitulada “educação” mas sim “talento e produtividade”. De que forma se podem moldar os cânones educativos para refletir o mundo do trabalho?
Só o conseguimos com trabalho em rede, um trabalho colaborativo e cooperativo com todos os atores envolvidos. Começa na escola, com seguimento na família, mas essencialmente com as universidades e os empresários. Estamos a criar e a fortalecer uma rede em que envolvemos os empresários do nosso Município auscultando quais são as reais necessidades do mercado de trabalho para conseguirmos depois canalizar e criar nas escolas formações e cursos profissionais que consigam formar os nossos alunos para as reais necessidades do mercado de trabalho. Nós não temos o poder de criar cursos, mas em colaboração com a área metropolitana do Porto e o Ministério da educação, fazemos essa política de proximidade utilizando também o gabinete do “Invest Santo Tirso”.
Com esta evolução tão rápida do mercado de trabalho nunca saberemos a 100% quais são no futuro as saídas profissionais de excelência. Daí que tenhamos que formar os nossos alunos não só para as unidades curriculares, mas que saibam ser autodidatas, que tenham espírito crítico, que saibam ser criativos e muito importante trabalhar em grupo.
A questão do ensino superior em Santo Tirso é sempre um tema que está na ribalta. Continua a ser uma utopia ou estamos em 2018 mais próximos que tal aconteça?
O ensino superior é nossa intenção. Como é público, temos a funcionar em Santo Tirso o curso de eletromecânica do ISEP e a intenção é termos outras áreas, para além desta. Assim como a nossa Escola Agrícola ter também um polo agrário que dê continuidade para o ensino superior. Portanto não é uma utopia, cada vez mais é nossa intenção trazer o ensino superior para Santo Tirso. Tentando aproveitar as nossas potencialidades com um foco na têxtil, no turismo e no ambiente e cimentar a partir daí.
Nós não queremos criar uma universidade só para podermos dizer Santo Tirso tem um polo universitário. Queremos que o que seja criado vá ao encontro ao que realmente é preciso para Santo Tirso. Apostar na Escola Agrária, em cursos superiores especializados nas áreas da eletromecânica, das tecnologias e têxtil. Estamos no bom caminho.
Como gostava de ver a educação tirsense em 2021?
Quero poder continuar a dizer que temos uma educação de excelência, que comparativamente com os Municípios em redor estamos muito bem posicionados, que temos uma educação inovadora que vá ao encontro do que os munícipes pretendem. Uma educação de excelência só é possível com este trabalho colaborativo e de proximidade da câmara, quer com as escolas, quer com as famílias e com todos os atores e intervenientes.

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