[CRÓNICA] OE 2022 – PS, um Narciso sem espelho

“Deixem a tática política, deixem o interesse partidário e coloquem o interesse nacional à frente dos interesses partidários e interesses táticos”, diz-nos o secretário-geral adjunto do PS José Luís Carneiro. A citação reproduz a popular tese “a culpa é da esquerda” (à esquerda do PS, pois claro!) pela crise política que hoje se vive, em consequência do chumbo do Orçamento de Estado para 2022.

Mas afinal que entidade mística é essa, tantas vezes invocada nestes dias, a que se dá o nome de “interesse nacional”? Pelo que sei, em democracia o “interesse nacional” mais não é do que os vários interesses que concorrem entre si. Logo, em democracia, o “interesse nacional” é, quando muito, o interesse, ou equilíbrio de interesses, que coincide com o da maioria dos eleitores no período enunciado.

“O PS quis em minoria aprovar o mesmo orçamento que apresentaria caso estivesse, sozinho, em maioria. Por outras palavras, teve a arrogância de reivindicar para os seus apenas 36% o estatuto de ‘interesse nacional'”

Hugo Rajão

Acontece que o PS representa 36% dos eleitores, que pelas minhas contas é menos do que a maioria. Por conseguinte, para que o OE passasse o PS teria de equilibrar o “interesse” dos seus 36% com o “interesse” dos restantes por forma a granjear mais de 50% dos “interesses”. E equilibrar significa negociar e eventualmente ceder. Poderia tê-lo tentado à direita, mas Costa recusou-o desde a primeira hora. Quis fazê-lo à esquerda, mas não cedeu nem um milímetro.

Ou seja, o PS quis em minoria aprovar o mesmo orçamento que apresentaria caso estivesse, sozinho, em maioria. Por outras palavras, teve a arrogância de reivindicar para os seus apenas 36% o estatuto de “interesse nacional”. Respondendo a João Luís Carneiro, o que é isto senão o PS a querer colocar o seu interesse partidário acima do interesse nacional (enquanto o que perfaz a maioria)? Não é o BE, nem PCP que o fazem, ao contrário da tese mais popular. É o PS.

Estarão BE e PCP de má-fé? O PS beneficia de juros baixos, um período sem restrições orçamentais por parte de Bruxelas, o PRR, e uma maioria de esquerda. Somando as partes, o país teria provavelmente aqui uma oportunidade histórica para colmatar as suas debilidades estruturais que o obstruem a deixar de ser tão pobre e desigual. O que faz o PS perante isto? Propõe um orçamento pouco ou nada expansionista. Não só Portugal foi dos países, na Europa, que menos gastou para responder à crise pandémica (com todos as situações dramáticas que conhecemos), pelo que terá uma recuperação mais lenta do que a média europeia, como para o próximo ano o PS insinua um nível de investimento público anémico. Em termos de IRS, oferece uma progressividade fiscal meramente simbólica. No trabalho, já fora do âmbito do OE, nem toca. Esta que era a única exigência do BE, relativa a medidas que o PS defendera no passado. E por aí adiante.

Com as devidas diferenças, o busílis ideológico da esquerda consiste em almejar prosperidade, não só para alguns, mas para todos. Face uma oportunidade excecional, em muito tempo, para dar passos significativos nesse sentido – para criar mais bolo, mais bem distribuído – como alguma vez BE e PCP se poderiam perdoar por deixar passar um OE que simboliza não menos do que deitar essa oportunidade ao lixo?

Ao invés, o ônus tem de ser imputado ao PS. Como pode um partido que se diz de esquerda ser tão pouco progressista nestas circunstâncias?

Há uns anos o PS, no seu congresso, organizou um debate para discutir a crise da social-democracia. A crise da social-democracia é fácil de perceber. Basta que os PS’s da Europa se olhem ao espelho. O PS espanhol parece ter olhado e as medidas laborais da Troika vão, ao que tudo indica, mesmo abaixo. É possível!

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