Caminhar pelas paisagens perdidas II

A segunda edição da rúbrica “Percurso de Verão” desta feita meteu pés ao caminho na freguesia de Monte Córdova, percorrendo o circuito “PR1 STS – Histórico Pré-Industrial” que atravessa algum do mais importante património natural e edificado do concelho: Castro Monte Padrão, Carvalhal de Valinhas, Quedas da Fervença e Serra Hidráulica de Pereiras.

Há vistas difíceis de esquecer. Lá em cima, no topo do Castro do Monte Padrão, onde há milénios civilizações ancestrais fizeram vida, o olhar atravessa a história quase a 360 graus. Subimos ao que resta dos muros que demarcavam as casas de outrora, vemos lá ao fundo a grandiosa Igreja de Nossa Senhora da Assunção como uma pérola cravada na montanha, e em baixo, o vale que acolhe a modernidade. Tudo à distância do campo de visão.

Na segunda edição do percurso de verão do Entre Margens, o caminho traçou-se por entre as encostas de Monte Córdova. Denominado “Histórico Pré-Industrial” o trilho conduz os aventureiros literalmente por “montes e vales” pontuado por algum do mais relevante património natural e edificado de todo o concelho.

Com extensão variável, devido às três ‘variantes’, o ponto de partida dá-se no Centro Interpretativo Monte Padrão cujo estacionamento permite deixar o carro e iniciar o percurso tranquilamente.

É aqui que se apresenta a primeira decisão. O traçado original (1.0) conduz os viajantes pela direita, ou seja, pela extensão mais longa. Optamos pela esquerda em direção ao Castro do Monte Padrão, pelo intitulada variante 1.2 onde damos de caras, primeiro, com a capela do Senhor do Padrão e depois sim, a subida ao Castro.

“Valinhas mantém uma mística ancestral palpável. Há comunhão entre a natureza e a vertente comunitária do espaço fortuitamente simbolizada pela senhora que lavava a roupa no tanque ali existente e a colocou a secar pendurada numa árvore em que sol incandescia”

Regressamos à capela para retomar o percurso sinalizado e descemos encosta abaixo pelo meio da floresta com pendentes acentuadas, mas trilhos bem demarcados, onde as vistas da natureza circundante são preciosas até chegar a Valinhas.

Aqui, para além do famoso maciço de carvalhos-alvarinho, onde se incluiu uma árvore centenária e classificada, atravessemos um conjunto de moinhos e azenhas, hoje em dia abandonados, outrora utilizados na moagem de cereais.

Valinhas é um local sobejamente conhecido pela maioria da população, mas mantém uma mística ancestral palpável. Há comunhão entre a natureza e a vertente comunitária do espaço fortuitamente simbolizada pela senhora que lavava a roupa no tanque ali existente e a colocou a secar pendurada numa árvore em que o sol incandescia.

É também em Valinhas que surge nova decisão sobre o percurso. Aqui, a escolha faz-se entre atalhar caminho em direção às quedas de Fervença ou descer monte abaixo até à ponte das Cabras para aí sim, subir mãos dadas com o leito do rio Leça.

Optamos pelo mais longo e descemos continuamente até à rua da Granja e por fim até à afamada ponte que dá acesso às quedas de água. Neste dia de verão bem quente, o leito do rio corre esparso e tranquilo, fazendo das quedas meras bicas de água que delineiam os rochedos que pontuam a encosta.

Daqui, o ponto mais baixo, até regressar a uma área mais central de Monte Córdova, o percurso empina e de que maneira. A determinada altura sentimo-nos como uma espécie de homem-aranha, a saltitar de rocha em rocha, montanha acima, qual Peter Parker nos arranha-céus de Nova Iorque. A paisagem, essa, compensa o esforço físico.

O próximo destino é a Serra Hidráulica de Pereiras. Se nunca ouviu falar, deve passar a constar da sua lista de pontos de referência. A antiga serração de madeira para uso industrial e doméstico, recorria à força da água como motriz do engenho, sendo que desde a década de 50 lhe foi adicionada a função de moagem. Classificada como interesse público, a serra é um belo local para um piquenique de fim de tarde nas margens do Leça.

A envolvência é de um pequeno reino encantado saído de um conto de fadas da Disney. Árvores esguias de folhas esvoaçantes pontuam o curso do rio, formando uma espécie de microcosmos verdejante.

Dali ao centro da freguesia, de regresso ao ponto de partida do circuito, não há nada que enganar. Sobem-se ruas residenciais de Monte Córdova até dar de caras com o alcatrão da Av. Dr. Délio Santarém que entrecruza com a rua da Sra. do Padrão, onde iniciamos a aventura.

No total, o percurso “PR1 STS – Histórico Pré-Industrial” estende-se por 7,1 quilómetros, sendo que o percurso realizado, utilizando a variante 1.2, perfez 5,6 quilómetros. A previsão de duração temporal da informação oficial aponta entre 3 e 4 horas, sendo descrito como “dificuldade III – algo difícil”.

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