[Opinião] Cartão do Adepto

Durante quase duas épocas assistimos ao afastamento do público dos estádios, por força da pandemia. Nesse período foi aprovada uma lei no Parlamento, com os votos contra do PCP e PEV, que consiste na obrigatoriedade de ter um cartão específico para se poder estar em zonas que possibilitem utilização de bandeiras, faixas, panos, tambores e onde se possa estar de pé.

Este cartão contém os dados pessoais de quem o solicita (bem como o Cartão de Cidadão!) e fica registado numa base de dados da APCVD (Autoridade de Prevenção e Combate à Violência no Desporto) sendo emitido pela Casa da Moeda, tem um custo de 20€ e é válido por 3 anos.

Após sucinta explicação sobre o cartão, passemos à sua empregabilidade e aplicabilidade.

A APCVD e o Governo, ao implementarem esta medida, que, diga-se de passagem, já fracassou em todos os países da Europa que a tentaram concretizar, fazem-no sustentados na ideia de promover a integração numa luta contra o racismo e a xenofobia.

Vejamos então o seguinte: querem que se promova a integração e criam uma zona de acesso limitado a menores de 16 anos? Só porque seriam inimputáveis aos olhos da lei, caso incorressem em alguma infração ou crime? Vamos obrigar pais e filhos a irem separados ao futebol, caso os filhos não tenham mais de 16 anos?  Isto é promover a integração? Para além de promover o oposto, até estamos a entrar numa esfera doentia que coloca entraves às famílias que vão ao futebol. Temos que as separar como se estivessem num campo de concentração. Passo o exagero, mas estar a colocar setores específicos, delineados e separados por grades e/ou acrílicos não nos remete para as imagens de segregação racial nos Estados Unidos da América e na África do Sul, que vigoraram durante séculos? É assim que se promove a luta contra o racismo e a xenofobia?

“Como querem evoluir na relação com os adeptos do futebol em Portugal, se não os ouvem?”

Tiago Sampaio

Nos estádios, os setores específicos para adeptos que têm outra postura de apoio, sempre existiram. Um dos maiores exemplos, é a realidade alemã. Esses setores não têm cadeiras e chamam-se “Safe Standing Sector”. Em Portugal, queremos catalogar à cabeça, sem presunção de inocência. Criamos uma narrativa que coloca os adeptos que aceitem entrar nesta estigmatização, em potenciais criminosos.

Já que se referem sempre exemplos vindos da Alemanha, não sei porque não adotamos este também. Preferimos não ouvir os adeptos, as diversas associações de adeptos em Portugal, as centenas de núcleos e as claques. Como querem evoluir na relação com os adeptos do futebol em Portugal, se não os ouvem? Se são esquecidos logo à nascença, como se hão de sentir integrados?

No futebol, como em qualquer outro setor da sociedade, existe um cartão que nos identifica, o Cartão de Cidadão. Não vemos a malta que vai às touradas ou aos estabelecimentos de diversão noturna com um cartão específico, por isso, parece-me que queremos tapar com a peneira os verdadeiros problemas do futebol em Portugal. Se quiséssemos mesmo resolvê-los, fazíamos um cartão para os dirigentes que já tiveram processos na Justiça relacionados com corrupção, mas para os camarotes não se podem fazer cartões de adepto! Mais uma vez, “quem se lixa é o mexilhão”!

Os adeptos vão continuar a ir ao futebol para setores onde não é necessário o cartão, como bons sócios dos seus clubes que são. Vão mostrar que não aceitam serem segregados e vão dar uma resposta de luva branca. À exceção de estádios como Luz, Alvalade, Dragão, Famalicão e B SAD, que não possuem qualquer sector para público geral visitante. Os adeptos das equipas visitantes ou têm cartão ou não podem ir. Isto significa que qualquer criança da equipa visitante, que tenha menos de 16 anos, não pode ir ver o seu clube! Bela medida, digam lá!? Muito integracionista. Não são este tipo de soluções que devemos querer para o futebol. Viva o Aves!

Tiago Sampaio

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