Caminhar pelas paisagens perdidas

Num verão atípico, onde as deslocações serão mais circunscritas, o Entre Margens meteu os pés ao caminho e realizou o percurso “Entre Mosteiros” que conecta um conjunto de património secular da zona nascente do concelho: entre Roriz, São Mamede de Negrelos e Vilarinho.

O turismo vive da iconografia. Dos monumentos com relevância histórica. Das paisagens de cortar a respiração. Das estórias milenares que atravessam gerações. São os pontos de interesse que focam as atenções dos viajantes. Que fixam os olhares e servem de base para outras expedições.

A câmara de Santo Tirso tem um vasto conjunto de percursos pedestres mapeados e delimitados que, servindo-se do património edificado e natural espalhado pelo território, pretendem mostrar o que muitas vezes não está à vista mais desarmada. Aquilo que está por trás da cortina. O que está para lá da visão comum do quotidiano.

Num tempo de férias estivais em que as deslocações para o exterior são desaconselhadas, o Entre Margens meteu os pés ao caminho e foi conhecer que segredos tem para contar o percurso “Entre Mosteiros” que conecta um conjunto de património secular e religioso da zona nascente do concelho de Santo Tirso, mais precisamente em Roriz, São Mamede de Negrelos e Vilarinho.

Muito mais do que os mosteiros

O maior chamariz deste percurso, como o próprio nome indica, são os mosteiros. Não é por acaso que ele é traçado para conectar este património edificado, conjugando estruturas que datam do século XI até edificações mais recentes, quer do século XIX quer do século XX. No entanto, é literalmente “entre mosteiros” que se encontram as pérolas mais brilhantes e possivelmente mais desconhecida.

Comecemos pelo início. Ou melhor, antes do início. Embora, o percurso oficialmente se inicie na Igreja de Roriz, recomendamos que comecem a viagem um pouco mais acima, numa parte do percurso pedestre conhecido como “Moinhos de Fojos”. É ali, no topo de Roriz, vista panorâmica para todo o vale do Vizela e mais além, com a linha do horizonte desenhada pelos cumes das serras longínquas do norte do país.

A descida até à Igreja de Roriz e logo de seguida até ao Mosteiro de Santa Escolástica faz-se por travessas esquecidas entre socalcos de terrenos agrícolas.

A arquitetura românica encanta pela simplicidade e robustez granítica que contrasta com a leveza e doçura presente na hospitalidade da comunidade religiosa de Santa Escolástica. O paralelo do pavimento da rua dá lugar a uma afunilada via em terra, pintada pelo colorido das árvores dos terrenos do mosteiro que desagua num cenário onde a visão ganha perspetiva: vastos campos agrícolas como se de um faroeste verdejante se tratasse.

A referência cinematográfica não é por acaso. A iconografia transporta para um ambiente de grande angular que cruza o cenário agrícola e casas senhoriais com uma delicada linha de terra batida.

É no final deste pedaço que damos de caras com o Mosteiro de Singeverga. Singelo e quase indecifrável na sua fachada exterior, é no interior que guarda os seus maiores tesouros. Há um Tintoretto à espera de ser apreciado.

A nova fase do percurso é mais íngreme e, portanto, mais fisicamente exigente. É também um encanto. À entrada da rua de Sta. Maria de Negrelos, percurso muito movimentado por carros, já que conduz os veículos praticamente desde o concelho de Paços de Ferreira até à VIM, faz-se um desvio abrupto que leva o caminhante por um conjunto de vias agrícolas que atravessam os terrenos de cultivo do lugar de Samoça e irrompe serra acima em direção à Igreja de São Mamede de Negrelos.

São pedaços de terra habituados a estarem longe dos olhares. Tímidos, mas generosos. Esquecidos lá longe num passado indeterminado. A subida para o topo de São Mamede de Negrelos é acentuada. Sobe-se monte acima, pedra a pedra e no topo a recompensa. Não só o património ancestral negrelense que nos remete a viagens milenares daqueles que outrora percorriam estas serras em direção ao rio Vizela, bem lá no fundo do vale. A história sente-se no ar, como se assim estivéssemos numa fusão intemporal com os nossos antepassados.

De São Mamede a Vilarinho somos conduzidos pelas entranhas da encosta de Paradela que divide fisicamente as duas localidades. Por aqui não há carros que passem. É a mais isolada das etapas. São caminhos de montanha que serpenteiam pelo declive entre rochas intocadas com visão imaculada sobre o caótico quotidiano que preenche de vida todo o vale.

Já em território da mais nascente das freguesias do concelho de Santo Tirso, somos levados pelo lugar de Paradela em descida vertiginosa, novamente por socalcos agrícolas até chegarmos às traseiras da quase milenar Igreja de Vilarinho. Românico à partida, românico à chegada.

No total, trata-se de um percurso de 10,5 km de extensão que o município de Santo Tirso prevê ser realizável entre 4 a 5 horas. É descrito como um percurso “algo difícil” com nível 3 em 5 de dificuldade.

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