[Retrospetiva] Pinheiro, o caça talentos

Histórico treinador das camadas jovens do CD Aves e fundador das Escolinhas de Ringe, Adílio Pinheiro sentou-se no sofá do Entre Margens e contou histórias dos talentos que lhe passaram pelas mãos na primeira parte de uma conversa que se vai estender pelas próximas edições.

O futuro do futebol português começa aqui. Pelas mãos de Adílio Pinheiro durante quase quatro décadas passaram talentos inúmeros, primeiro no Desportivo das Aves onde esteve vinte anos e ajudou a revolucionar os escalões de formação, e mais recentemente com a criação das escolinhas de Ringe continua o caminho de moldar o talentos do futebol nacional a partir de um cantinho quase escondido de Vila das Aves.

O senhor Pinheiro, como é carinhosamente conhecido no mundo do futebol, é uma figura icónica e irrepetível. Seja pelo andar característico, marca ainda hoje visível do acidente que lhe terminou a carreira de futebolista, seja o bigode ou voz rouca que sublinha o tom desconcertante e irónico de cada palavra que profere. Com Adílio Pinheiro não há meios termos.

Diogo Costa, Vítor Ferreira, Rúben Moura são internacionais pelas seleções jovens nacionais e começam a despontar nos seus clubes, sendo os dois primeiros campeões europeus da Liga dos Campeões jovem. Diogo, nome mais conhecido, passou a pré-temporada a ser apontado à titularidade da baliza do FC Porto, após a reforma antecipada de Iker Casillas. Aos 20 anos é suplente de Marchesin e tem tomado conta das redes azuis e brancas nas taças.

Vítor Ferreira, 19 anos, filho do ex-jogador Vítor Manuel, será o próximo a chegar ao plantel principal do FC Porto. Capitão de equipa e seleção, foi chamado a integrar os treinos portistas durante o interregno para a taça e, diz-se nos meandros, que é visto como o “Iniesta do Olival”.

Rúben Moura, 19 anos, é jogador do Vitória de Guimarães e também ele já internacional.

Estes três nomes, em conjunto com os irmãos Lucas e Gonçalo Pereira (Gil Vicente e SC Braga respetivamente), integram uma lista de cinco magníficos que no espaço de uma época se juntou nos escalões de formação do Centro de Treinos do Olival, depois de terem passado pelas mãos de Adílio Pinheiro e de terem envergado a camisola do Ringe. Os expoentes máximos na atualidade de uma carreira a formar homens antes de jogadores.

Começar tão cedo? Coitadinhos dos miúdos

“O meu sonho era abrir uma escolinha de futebol”, revelou Adílio Pinheiro em conversa no sofá do Entre Margens que cruzou décadas e histórias e se foi multiplicando quase sem fim com o passar dos minutos.

Depois do acidente que o impossibilitou de voltar a jogar futebol em 1980, não ficou quieto à espera de ver o que iria acontecer. Juntou um grupo de rapazes, começou a treiná-los e propôs ao Aves a criação de mais escalões de formação, porque “se começava muito tarde.” Nessa época surgiram os iniciados e juvenis e só em 1988 apareceram infantis e escolinhas.

“Na altura dizia-se ‘ui, são muito pequeninos para jogar, coitadinhos’, mas o meu foco já nessa altura era par ao que estava à volta, por exemplo no Boavista”, diz Adílio Pinheiro. “O FC Porto também, mas o Boavista começava mais cedo e lembro-me quando o atual presidente da junta, Joaquim Faria, fazia parte das escolinhas do Aves e fomos lá jogar. Quando chegamos estavam a treinar os miúdos de 6 e 7 anos. Era aquilo.”

‘Aquilo’ a que Adílio Pinheiro se referia era apanhar os miúdos o mais novos possíveis para lhes dar bases de jogo e moldar o talento. “No primeiro ano em que tive escolinhas no Aves fui ceguinho sem saber o que ia encontrar”, conta, “mas no primeiro jogo, logo contra o campeão Paços de Ferreira empatamos a zero e percebi que tínhamos uma boa equipa. Agora é fácil olhar para trás e ver que tínhamos Pedro Mendes ou Ricardo Fernandes. Éramos uma grande equipa e jogávamos bem e isso motivou as pessoas.”

Vivia-se uma época dourada para o futebol de formação em Portugal, validada em 1989 e 1991 pelos títulos mundiais de sub-20 arquitetados por Carlos Queirós, aproveitando o trabalho de uma geração de treinadores que ao longo da década de 80 foi povoando os clubes de norte a sul do país.

Adílio Pinheiro recorda o primeiro curso de treinador que fez após terminar a carreira de futebolista lecionado entre outros por Henrique Calisto. Depois de ficar entre os dez melhores no distrito do Porto, foi chamado para uma formação da FIFA pouco tempo mais tarde onde o formador francês, “sentado numa secretária de um hotel da cidade do Porto, equipadinho de Adidas e perna debaixo do rabo”, não teve dúvidas em dizer: “eu não venho aqui ensinar nada. Vocês são os melhores formadores do mundo. E acreditem que vão começar a aparecer bolas de ouro e treinadores de topo mundial”. As palavras foram premonitórias e mais de três décadas depois ainda fazem sentido.

Do Aves para os Pinheirinhos

No Desportivo das Aves foram vinte anos como treinador dos mais variados escalões de formação para cima e para baixo até que um dia disse chega e decidiu lançar-se ao caminho de concretizar esse sonho de ter uma escolinha de futebol.

A primeira versão desse sonho surgiu com a criação da Escola de Formação Pro Futebol, na sua génese ligada ao núcleo do Sporting em Vila das Aves, onde o objetivo era começar com miúdos de 4 anos e formar não só jogadores, como dirigentes, árbitros, treinadores, massagistas, o que fosse. Rapidamente juntou em seu redor quarenta miúdos entre os 4 e os 10 anos de idade para a aprender a jogar futebol. “Treinávamos em qualquer sítio, no campo de terra do ciclo ou estacionamento do Estádio, até que um dia o Joaquim Faria perguntou se não queríamos ir para Ringe. Eles só tinham um ringue em cimento, mas lá fui eu”, relembra o treinador.

À época o bairro de Ringe tratado pelos restantes habitantes da Vila das Aves como zona a evitar. O estigma da habitação social era imagem de marca e como conta o ‘Pinheiro’, que hoje é um sobrenome sinónimo do local, “dos quarenta miúdos que tinha apareceram lá quatro para treinar.”

A transferência da escolinha para Ringe levou a que Adílio Pinheiro tomasse conta da equipa sénior da Associação de Moradores de Ringe, “uma equipa que há quarta jornada já tinha dois jogadores irradiados e três vermelhos” no campeonato concelhio. “Perguntei-lhes o que queriam e eles responderam, campeões.” A reviravolta foi total. Com enfoque na disciplina dentro de campo, onde as vitórias pouco interessavam, o importante era terminar os jogos sem cartões amarelos, a equipa do Ringe terminou a temporada com quinze jogos sem ver cartões uma surreal vitória na taça disciplina.

“Não fomos campeões, mas subimos de divisão”, conta Adílio Pinheiro. “Na entrega dos prémios, quando anunciaram que a Associação Moradores de Ringe tinha ganho a taça de disciplina, o presidente da câmara na altura, o Castro Fernandes, pensou que tinha sido engano. O Ringe ganhar uma taça disciplina era impensável. Ganhamos quatro taças disciplinas consecutivas.”

Foi essa aventura no concelhio com os seniores que despertou o interesse para o trabalho que estava a ser desenvolvida com os miúdos no bairro. Um trabalho que ia para além do futebol e que aos poucos foi desmontando o estigma e levava as pessoas, dentro e fora da vila, a entrarem no bairro.

Quando finalmente as Escolinhas de Ringe se afirmavam e ganhavam o cognome do seu fundador, “Pinheirinhos”, Adílio cometeu o que o próprio diz ter sido uma loucura e mandou retirar o ringue fora para tentar forçar a construção de um campo maior, se possível sintético.

“Disse ao Faria, vamos alagar isto tudo. Ringue fora, vamos pôr isto em terra. Só ficaram os balneários e a bancada”, garante. “O Castro Fernandes disse que era maluco, mas eu disse que o que era preciso para ali era um relvado sintético”, um pedido feito quando no concelho ainda não existia um único relvado desse tipo.

O pedido foi feito à câmara municipal de Santo Tirso e ao empresário Joaquim Abreu que, numa icónica visita ao local onde chegou de Rolls Royce, foi informado que o projeto par ao complexo desportivo de Ringe teria o nome da esposa. A ideia era sincera, relembra Adílio Pinheiro, “o senhor já merece uma homenagem, se não quer no seu nome, na nossa humildade fizemos no nome da sua mulher.”

Os imbróglios burocráticos da obra atrasaram todo o processo, mas ao fim de alguns anos de implementação os frutos começavam a aparecer. “Primeiro comecei com a malta lá do bairro e foi só por volta do terceiro ano que o pessoal começou a notar” e o talento a surgir.

“O momento em que aquilo deu o boom foi num torneio da câmara onde jogavam crianças dos 4 aos 11 anos, todos uns contra os outros. Primeiro jogo contra o São Mamede. Eles todos grandes e nós são com os pequenos. Ganhamos 13-0. Crianças de cinco e seis anos contra matulões de dez e onze. Não demos hipótese. Estava muita gente a ver começamos a ter mais crianças até porque não havia mais ninguém a treinar com aquela idade”, conta Adílio Pinheiro no seu estilo desconcertante.

E no ano seguinte apareceram os cinco magníficos. “Treinava-se bem, é certo, mas tive a sorte de me aparecer um grupo de miúdos que dava gosto. Não há milagres.”

Talento, talento e vontade

Não é todos os dias que surge uma fornada de jovens talentos como os cinco que num curto espaço de tempo arrasaram a competição interna e deram o salto para outros voos e Adílio Pinheiro sente-se um sortudo por ter podido acompanhar cada um deles durante os seus primeiros passos no futebol.

O mundo do futebol é cruel porque Cristiano Ronaldo há só um. “É importante desde o início que os pais e os miúdos tenham isso bem claro.” Uma coisa é o talento que salta a vista, como Vítor Ferreira ou o Lucas Pereira a quem “bastou ver a forma como ele corria atrás da bola para perceber que tinha ali jogador”. Outra diferente é a vontade, personificada em vários níveis por cada um dos cinco.

O Diogo Costa era um ano mais velho que os colegas quando chegou ao Ringe e, nas palavras do técnico, “um matulão”. “Já tinha uma equipa jeitosa para frente e perguntei-lhe se não queria ser guarda-rede. Ele calou-se e ficou assim. À noite o avô telefonou-me a dizer que o rapaz estava zangado. Eu vi a forma como ele jogava, era grande, tinha boa visão de jogo, podia ser um bom guarda-redes mas também jogava bem à frente. No treino a seguir chegou de luvas e calções almofadados. Exigiu que fosse eu a treiná-lo porque não se queria atirar para o chão. Eu disse-lhe que ele não se precisava de atirar para o chão, só precisava de se meter à frente das bolas”, lembra Adílio Pinheiro. “No primeiro jogo que fez num torneio em Santo Tirso, marcou um golo de baliza a baliza.”

Veja-se o caso de Rúben Moura. “O que queria era jogar. Fosse onde fosse, mas era tramado porque se no fim de um treino não tivesse feito um golo ninguém o aturava. Não gostava perder por nada. E demorou tempo para ele aprender a controlar-se. Só que ele tinha o mais importante, um talento fenomenal”, revela o treinador que acolheu aos seis anos no Ringe.

A mesma idade com que Vítor Ferreira, ou Vitinha como Pinheiro lhe chama, chegou ao clube. Aos seis anos passou dois meses pelo Aves até que a oportunidade de jogar no mundialito de escolinhas no Algarve o levou ao Ringe.

Num torneio onde estavam presentes nomes como Real Madrid, Barcelona, Benfica, FC Porto, Sporting, o Ringe poderia ser apenas uma nota de rodapé. “Estávamos ali a jogar num canto, mas como os golos começaram a aparecer no nosso campo, veio tudo para lá ver. Nem sabiam dizer o nosso nome, mas foram ver o nosso jogo. Ganhamos 9-0 às escolas do Veloso, mas a jogar bem. Apareceram lá golos, coisas estudadas, com o Vitinha a comandar ou Rúben a marcar livres ao ângulo. No fim, já ninguém quis saber do Real ou do Barcelona”, revelou Adélio Pinheiro.

O assédio dos olheiros foi imediato. “Apareceu o Aurélio Pereira de jornal de baixo do braço a querer falar com os miúdos” e como ele todos os outros nomes associados aos grandes nacionais.

Diogo Costa, Vítor Ferreira e Rúben Moura estiveram dois anos no Ringe e foram caçados pelas redes do Benfica, tendo ido jogar para a equipa das águias com sede em Prado. Fizeram duas épocas com o emblema das águias ao peito e depois com o aparecimento do centro de treinos do Olival, o FC Porto levou-os para a sua academia para onde entretanto já tinha ido Lucas Pereira e um ano mais tarde o irmão Gonçalo. Cinco ‘pinheirinhos’ à conquista do FC Porto. 

Entretanto, só Diogo Costa e Vítor Ferreira continuam de dragão ao peito e têm escancaradas as portas do plantel sénior e futuro do futebol nacional, sendo ambos múltiplos campeões da europa, em seleções e clubes. Rúben Moura joga agora no Vitória de Guimarães, fazendo parte do plantel de sub-23 com apenas 19 anos. Lucas Pereira foi para Barcelos representar o Gil Vicente enquanto o irmão está nos juvenis do SC Braga.

Para Adílio Pinheiro “se alguns deles derem jogadores de futebol, ótimo, mas o mais importante é formar homens”, diz, enaltecendo o facto de quer Vítor Ferreira, quer Rúben Moura ser alunos de mérito escolar. No futebol tudo muda muito rapidamente, mas uma coisa parece certa. O panorama do futebol nacional tem em Vila das Aves, Ringe e em Adílio Pinheiro um cantinho que será certamente seu.

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