Meu e de mais ninguém

(publicado no Entre Margens, edição 622 de 28 de fevereiro de 2019 

A vida e muito especialmente os dezasseis anos de voluntariado num lar de idosos medalharam-me com o excruciante privilégio de partilhar demasiados fins de vida. Fins quase sempre agrilhoados a um corpo corroído, de pernas emperradas, mãos atabalhoadas, cabeça enevoada e sentidos embotados, avariado por mil maleitas, que arrancam sem piedade, a liberdade de movimentos, a independência e a autonomia.

E quantas vezes derreado e em carne viva me perguntei se valeria a pena viver assim, se um dia o futuro me trouxesse um presente destes…

A resposta, aparentemente cristalina, dardejava, mesmo ali, diante destes olhos que a terra há de comer, onde uns tantos iam morrendo fazendo amor com a vida, beijando, abraçando e sorvendo cada uma das suas migalhas. Gente que abençoava, grata, cada sorriso, cada carinho, cada alvorada e cada oração.

Só que, mesmo ao lado, outros morriam muito antes da hora da morte, esmagados pela falência do corpo, pela solidão, pela dependência e pela convicção que não eram mais que velhos fardos inúteis. Gente de olhar mortiço, que deserdou qualquer esperança, aguardando vergados o derradeiro descanso dos sete palmos de terra…

Mas a vida é pouco de preto e branco e muito de arco-íris, e por isso, às vezes, um sorriso, uma carícia, uma visita, um abraço, um quase nada, reacendia fugazmente o olhar e até o sorriso de um daqueles desesperançados… E, outras, mais uma vergastada da vida, uma enésima maleita, mais uma dependência, mais um amigo que se foi, mais um tudo-nada, estirava em prantos um dos apaixonados pela vida.

Será… que aquele efémero raio de sol é bastante para suportar a vida dos desesperançados? Será que mais este tranco da vida, somado a milhentos outros, poderá esmagar de vez os amantes da vida?

E sempre, e mais uma vez, a tal resposta cristalina, estilhaçava-se em mil novas perguntas.

Fico para morrer quando me tentam dar resposta a estas perguntas, reduzindo este imbróglio, verdadeiro nó górdio da nossa civilização, ao direito à morte digna, ou ao por favor não matem os velhinhos, aos assassinos defensores da morte ou aos anjos defensores da vida, à direita ou à esquerda, ou aos cuidados paliativos. Fico furibundo quando ambos os lados, como se isto pudesse ter lados, propagandeiam, sem qualquer pudor, a banha da cobra das suas certezas, sobre o que é melhor ou pior para o fim da vida de milhões de seres humanos a quem nunca perguntaram a opinião e que nunca viram nem mais gordos, nem mais magros.

Envergonha-me até ao vómito que os cuidados paliativos não estejam garantidos a todos os seres humanos, mas não me restam dúvidas, que o calvário da maioria dos fins de vida é incomensuravelmente maior que a dor e o mal-estar físico, que os cuidados paliativos podem mitigar.

A verdade, é que não tenho nenhuma solução para este dilacerante dilema. Não faço a mínima ideia qual é o melhor fim de vida para mim e muito menos para os meus semelhantes. Não faço a mínima ideia se no meu fim de vida alinharei pela equipa do quase céu, pela do inferno, ou por um outro qualquer purgatório. Quem me dera ter certezas, quem me dera, pelo menos, não ter tantas dúvidas, quem me dera, acima de tudo, que não me impusessem certezas vendidas em saldos pelos habituais iluminados de pacotilha.

Só três certezas se me agigantam assustadoras e firmes como uma montanha…

A primeira é que ninguém poderá responder a esta pergunta sem, pelo menos, percorrer todos e cada um dos degraus do calvário do fim da sua própria vida. E temo, que mesmo depois disso, a maioria continue uns momentos a achar que sim e outros que nem por

isso….

A segunda é que não há seguramente mortes indignas. Nenhuma vida por mais sofrida que seja é indigna, bem pelo contrário, não posso admirar e respeitar mais os que lutam pela vida até ao último alento.

E a terceira é que se o meu fim de vida me flagelar com um daqueles insuportáveis infernos, eu gostaria de poder decidir se e até quando continuarei a calcorrear aquele vale de lágrimas.

Afinal, aquele fim de vida será apenas o meu… meu e de mais ninguém.

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