[Crónica] Matam o corpo, mas a alma não

Uma triste notícia trouxe-me à memoria o dia daquele egrégio setembro de 1999, em que um grupo de crianças vestidas de branco, alinhadas sobre a Ponte do Espírito Santo, me fez parar. Sufocando um soluço, vi cada uma delas a lançar uma flor ao Rio Vizela, enquanto, ao som do hino

Ai Timor

Calam-se as vozes

Dos teus avós

Ai Timor

Se outros calam

Cantemos nós,

estilhaçado pelo som dos disparos no cemitério de Santa Cruz, se anunciava na TSF “são dez horas no continente, menos uma nos Açores e cinco da tarde em Díli”.

Pouco dias antes, mais precisamente no dia 8, vi, siderado, este país completamente parado e em estrondoso silêncio durante três longos minutos. Arrepiado, vi as imagens da Ponte 25 de abril apinhada de veículos imobilizados, vi, nos mais recônditos recantos deste nosso jardim, uma miríade de cidadãos anónimos recolhidos em profundo silêncio nas varandas, janelas e ruas, ao lado de lojas, cafés, restaurantes, oficinas e fábricas fechadas. Nesse mesmo dia, um belíssimo sonho arrebatou, à velocidade da luz, o coração dos portugueses e, como por magia, mais de dez quilómetros de mãos se deram fraternalmente, para cingir num único e gigantesco abraço as embaixadas dos países do Conselho Permanente de Segurança da ONU, com o maior cordão humano jamais visto.

No dia 10, a visita do bispo de Díli a Lisboa rastilhou uma gigantesca manifestação espontânea em que uma imensa e emocionada mole humana o exalçou em delírio durante todo o percurso entre o aeroporto e a igreja dos salesianos. Uma portuguesa, entre um abraço, gritou-lhe a frase que se tornaria lema: “matam o corpo, mas a alma não”. D. Ximenes Belo disse, no dia seguinte, que esta manifestação: “Foi a alma de um país que ontem quis gritar a dor que lhe vai dentro.“.

Dois dias depois, todos os caminhos levaram a Madrid. Sete mil portugueses abarrotaram carros, autocarros, comboios e aviões e invadiram Espanha. Gritando palavras de ordem, brandindo cartazes, cantando, abraçando, chorando e xingando partejaram a maior e a mais bonita manifestação política internacional de que há memória.

Ininterruptamente e sem um único anúncio publicitário, a TSF emitiu, durante duas semanas, 24 horas por dia, exclusivamente, notícias sobre Timor.

O cruzamento de ruas em frente à delegação da ONU em Lisboa, foi aclamada pelo povo Praça Timor Lorosae, local de peregrinação e altar de constantes manifestações de apoio ao povo timorense. Vigílias, orações, velas, cânticos, concertos, espetáculos culturais e desportivos de apoio à causa timorense inçaram aos milhares pelo país fora. Os portugueses, os edifícios e os automóveis aperaltaram-se de branco. Imensos murais e cartazes, quase tantos como as dores do povo timorense, gritaram pungentes nas frontarias dos edifícios, nas portas, nas janelas, nas ruas, nos veículos, os seus mais que justos anseios e esperanças.

Em todos os momentos deste inolvidável mês de setembro de 1999, sentimos como nosso o sangue derramado pelos timorenses. Nem por um segundo deixámos de sofrer as suas dores, as suas feridas, as suas perdas e os seus medos. Nem por um minuto deixamos de os acolher nos nossos corações, nas nossas vidas, nas nossas casas e nas nossas preces. Com eles, gritamos ao mundo, aos homens, a Deus e ao vento por justiça. Com eles, choramos as suas dores, derrotas e revolta. Nem uma única voz discordante se fez ouvir. Na verdade, não recordo sequer um único português indiferente.

Timor era, para a esmagadora maioria dos portugueses, apenas uma fugaz e longínqua recordação nos livros de história e de geografia da velha escola. Naquela altura, tal como agora, não se descortinava ali nenhum interesse económico ou estratégico que pudesse granjear mais-valia que se visse. O que gerou, então, esta tão inusitada fratria por aquele parente tão pobre e por aquele pequeno pedaço de chão lá nos confins do mundo? O que desfraldou a indomável alma lusa, esta avassaladora irmandade, esta vontade férrea, esta tão inteira harmonia?

Vinte e dois anos depois, continuo tão boquiaberto e sem resposta como então. Sei, no entanto, que alguns de nós se excederam, que foram os mais bravos porta-bandeiras deste mágico e transcendente momento. Recordo como se fosse hoje, aquele português franzino, de ar tímido, mas vontade de aço pelejando intrépido no maior palco do mundo, a CNN, com a desenvoltura e a audácia dos justos. A bradar grosso e incansavelmente, às orelhas dos poderosos deste mundo, a ignomínia da indiferença e a iniquidade cúmplice dos seus silêncios. A mexer todos os mundos e fundos que pudessem trazer futuro aos timorenses. Recordo-o a varar noites a fio, de olhar vigilante no estonteante desenrolar dos acontecimentos, amargando derrotas, disparando argumentos, apelos, pedidos de socorro, cobrando alianças, decência e respeito. Sempre firme na linha da frente, nem por um breve momento vacilou, incentivando, apoiando, confortando, abraçando e chorando com os portugueses e timorenses.

            Devo-lhe o inolvidável momento em que me senti plenamente orgulhoso de Portugal, dos portugueses e, até mesmo, pasme-se, de todos os políticos portugueses. Naqueles dias acreditei, que o meu país era o melhor de todos.

            Se Jorge Sampaio nada mais tivesse feito, e fez, oh se fez, só por isto, mais que merece o eterno reconhecimento dos portugueses e timorenses.  

            Jorge Sampaio será sempre o rosto do melhor momento da História deste país. Recordá-lo-ei sempre a testemunhar em lágrimas o reconhecimento da autodeterminação do povo timorense, conquistada à custa de demasiado sangue e sofrimento. Mataram-lhe o corpo, mas a alma não.

Até sempre Presidente Jorge Sampaio.

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