Por aqui não há grutas. Há o Ave e o Vizela.

Após semanas a fio com os mergulhadores a entrarem pelas nossas televisões dentro devido aos acontecimentos na Tailândia, o Entre Margens decidiu ir aqui ao lado conversar com a secção de mergulho dos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves sobre o seu trabalho na última década e meia e o papel destes homens em situações limite.

Talvez nunca desde a tragédia de Entre-os-Rios o trabalho dos mergulhadores esteve em tão elevado destaque e escrutínio público como nas últimas semanas com os acontecimentos na Tailândia. O resgate das crianças presas na gruta teve um final feliz devido à coragem e engenho das equipas de mergulhadores locais.
Ora, o Entre Margens tomou a iniciativa de contactar a secção homóloga que de há 15 anos a esta parte desenvolve atividade nos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves para conhecer o trabalho que os sete mergulhadores integrantes do corpo desenvolvem continuamente.
José Araújo, bombeiro há mais de trinta anos, é um dos membros fundadores da secção de mergulho que data de 2003. Conhecido como “Cinquenta”, o mergulhador faz uma primeira distinção entre a sua realidade e os acontecimentos na Tailândia. “Nós cá nos bombeiros não temos [resgate grutas]”, explica, por uma razão bastante “lógica” é que na região não existem. “Temos bons especialistas cá em Portugal a nível de resgate em grutas, cá não temos, porque não temos grutas aqui na zona. Se tivéssemos aqui na zona, com certeza que teríamos essa valência.”
As valências do corpo de bombeiros estão intimamente ligadas com as características do território que os envolve. Neste caso, como explica o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves, Hugo Machado, “temos rios próximos, o Ave e o Vizela, temos também uma área específica com muitos poços e portanto esta equipa de mergulhadores está preparada para os cenários da região onde se inserem.” São, segundo o oficial de comando, “claramente uma mais-valia, até porque se evita a demora na chegada de outras equipas de intervenção.”
É fácil de perceber, portanto, que a secção de mergulho é especializada em resgates em águas com pouca visibilidade. Resgates esses que, ao contrário da tradicional missão dos bombeiros, não envolvem salvar vidas, mas sim, na maioria dos casos, resgatar corpos inanimados e cadáveres.
“O trabalho da equipa de mergulho é mais direcionado aos cadáveres, pessoas vivas raramente acontece”, assinala Hugo Machado. “A nível do pré-hospitalar, mesmo a nível dos incêndios, a missão dos bombeiros é salvar vidas e bens. A questão do mergulho é mais um complemento. Quando não dá para salvar, em meio aquático, lá terá que ser a equipa de mergulho a entrar em ação.”
Nas palavras de José Araújo, “as pessoas pensam que a nossa tarefa é mergulhar em águas limpas, ver os peixinhos, tudo muito bonito, mas não. Os mergulhadores trabalham em águas com pouca visibilidade e não é para salvar ninguém, é para retirar cadáveres.”
Desde a fundação, a secção interveio em cerca de treze cenários reais, nos mais variados contextos, um pouco por todo o distrito e até fora dele. Resgate de corpos em poços em Roriz ou Cense. Buscas em larga escala no rio Douro. Mergulhos sem visibilidade no rio Ave. Especialidades que obrigam a um nível de exigência e segurança sem falhas, conseguida por exercícios e treinos realizados mensalmente. A consolidação de uma velha máxima: “A repetição faz a perfeição.”
Neste caso a perfeição significa o máximo de segurança possível na altura de atuar. Esta equipa está habilitada a mergulhar até 45 metros de profundidade, nas mais difíceis condições de geografia e morfologia do terreno. Em rio ou mar. Em barragens ou poços. Em águas paradas ou corrente forte. Tudo é cenário de intervenção.
Segundo o testemunho de José Araújo, “ao trabalhar em águas sem visibilidade, estamos com cabos e nunca mergulha um homem sozinho, para ter sempre contacto com outro”. Depois, refere, “acaba por ser com os cabos guias conseguir com o tato tentar encontrar o que estamos à procura. Não deixa de ser muito arriscado, porque estamos sujeitos a objetos, árvores no fundo do rio, temos que ter o máximo de cuidado”, explicou o experiente mergulhador.
Mas porquê criar uma secção de mergulho? “Naquela altura não havia ano em que não existisse pelo menos um afogamento num dos rios, para onde era chamadas equipas de mergulho de fora.” À época eram poucas as corporações a nível do distrito que possuíam equipas de mergulho. “Umas quatro ou cinco”, segundo se lembra José Araújo. “A partir daí começamos a pensar em formalizar e em 2002 foi quando se deu o impulso para começar a fazer a equipa de mergulho, com a formação em Barcelos durante cerca de meio ano.”
Inicialmente, foram cinco os bombeiros que completaram essa formação e deram o pontapé de saída na atividade da secção no ano de 2003. “Já chegamos a ser nove mergulhadores, hoje somos sete mergulhadores”, totalmente equipados com o material necessário para busca e resgate.
Quando se é mergulhador não se deixa de ser bombeiro. Aliás, não se pertence a uma secção de mergulho como esta sem ser bombeiro. É uma condição sine qua non. “É uma tarefa acrescida”, diz José Araújo. “Faz a escola de bombeiro e tem as suas obrigações como qualquer outro, como piquetes, formações, prevenções.”
“Uma corporação jovem como esta criar uma secção de mergulho, com todos os custos envolvidos não é fácil”, assevera Hugo Machado. “Só em termos de equipamento é caríssimo.” Cada mergulhador submerge com cerca de 30kg de material às costas. Equipamentos sensíveis que têm que obedecer a regras de segurança de utilização apertadíssimas.
“A nível do financiamento como é natural a associação humanitária investiu grande parte das verbas para a secção de mergulho, caso contrário não conseguiríamos sequer arrancar”, sublinha José Araújo. “Depois também houve muita liberdade por parte da direção para que a secção de mergulho pudesse organizar alguns eventos, por exemplo na pista de pesca de Vila das Aves”, realizando provas a reverter para a secção.
Uma espécie de autofinanciamento. “É um pouco isso, sim, porque sabemos que custa muito à associação e que há outras prioridades no dia-a-dia.”
Foi na sequência desses eventos que a secção conseguiu comprar a carrinha que ainda hoje serve a equipa de mergulho. Uma carrinha preparada para o “teatro de operações” totalmente montada pelos elementos da secção de mergulho durante quase um ano e meio.
“Aquela carrinha era de três lugares. Hoje, é uma carrinha com nove lugares, com equipamento para nove mergulhadores”, revela José Araújo. “Os primeiros elementos andaram ali um ano e meio a trabalhar às noites, após o trabalho, para ter o carro que temos. É o mesmo veículo de 2003”, assevera.
Um orgulho para o comandante da corporação. “Temos pessoal muito hábil para fazer esse tipo de trabalhos e aproveitou-se, juntou-se o útil ao agradável. Já tivemos outras equipas de mergulho que vieram cá de propósito”, concluiu Hugo Machado.
“É diferente daquilo que se costuma fazer. É preciso gostar daquilo que se faz para conseguir gerir tudo”, confessa José Araújo enquanto conta ao Entre Margens algumas situações delicadas. Uma dessas aconteceu em Roriz, há cerca de seis anos quando foi encontrado num poço um corpo em decomposição há mais de um mês. “Claro que afeta, não somos de ferro, mas é o nosso trabalho e temos que estar preparados.”
O caso mais recente foi em Cense quando também tiveram que resgatar um corpo encontrado dentro de um poço.
Talvez a situação de maior envergadura onde estiveram envolvidos, tenha acontecido no rio Tâmega, onde um bombeiro que seguia num barco particular caiu ao rio quando o motor do barco se saltou e ele tentou agarrar-se, morrendo afogado. Com uma área demasiado vasta para ser passada a pente fino com os meios humanos disponíveis em tempo útil, a secção de mergulho improvisou uma câmara que “fazia trinta metros de profundidade, conseguindo ter a visibilidade a partir do barco sem fazer o mergulho”. A operação foi um sucesso, sendo que a câmara utilizada nessa busca acabou mesmo por ser usada para fazer vários estudos em todo o distrito.
“Já estão cá muito antes de eu ser comandante”, finaliza Hugo Machado. “Espero continuar a contar com eles e espero que continuemos a ser uma referência a nível do distrito como sempre fomos.”
“É para isso que trabalhamos”, assegura José Araújo.

Secções de Grande Ângulo e Cinotécnica
Como complemento com as equipas de mergulho e desencarceramento, os Bombeiros Voluntários de Vila das Aves iniciaram uma secção de Grande Ângulo que se traduz no “salvamento por cordas, em altura, ravinas ou profundidade.” Segundo a Comandante Hugo Machado, “quando aconteceu essa situação em Cense, tínhamos pessoal já com formação em grande ângulo e trabalharam ali as duas equipas em conjunto. As cordas, as técnicas para meter o homem dentro do poço, retirar o cadáver, retirar o bombeiro, são tudo técnicas específicas que trabalham aqui em conjunto.”
A corporação conta com onze elementos com esta formação realizada e paga, na altura pela associação humanitária, uma vez que a Escola Nacional de Bombeiros não estava a disponibilizar esse curso. Mais tarde, quando voltou a existir, cinco desses onze já foram complementar a formação que tinham obtido na escola nacional.
Ainda em fase embrionária encontra-se a cinotécnica, busca e resgate com cães. “Já cá existiu, mas entretanto os cães que tínhamos “começam a ficar cansados e teve parada algum tempo.” Agora, afirma, “temos 4/5 elementos a iniciar a sua formação, felizmente sem custos e estamos a dar um passo de cada vez.”
“Os animais são do bombeiro o que significa muito trabalho que inclui os treinos que têm em casa diariamente”, esclarece o comandante. O objetivo é que dois se tornem um, “caso contrário o trabalho também não é fiável.” O fruto deste trabalho é habilitar a criação de uma equipa especializada em busca de pessoas desaparecidas.

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