O Pórtico da Glória restaurado

 

O Grupo Coral de Vila das Aves no passado dia 17 de junho deslocou-se em passeio à Catedral de Santiago de Compostela onde terá tido uma das maiores frustrações com que obviamente não contávamos. Chegando à cidade compostelana, abeiramo-nos da Catedral e deparamos, numa das praças laterais contígua às torres sul, com longa fila que conduzia naturalmente ao interior do templo, sem mais opções que a de nela nos incorporarmos e ir andando, passinho a passinho. Tudo indicava já um “obradoiro” de andaimes e procedimentos de limpeza e reparações que iam quase até ao topo do edifício e, quando chegamos à entrada, logo constatamos que decorriam ofícios litúrgicos e que as limitações eram mais que muitas, com entraves imensos para os turistas, pelo que poucos foram os que ousaram fazer o habitual percurso, tendo a maioria retrocedido e resolvido caminhar em direção à “sala de visitas”, a Praça do Obradoiro, onde pudemos constatar a magnitude da Fachada principal do Templo fechada para “obras”.

Só posteriormente buscamos informação pertinente e objetiva sobre as obras que decorriam e que irão decorrer ainda com algumas restrições até ao próximo Ano Santo Compostelano de 2021, se bem que motivadas, no essencial pelo restauro e salvaguarda da jóia do românico-gótico, que é o conjunto arquitetónico-escultórico do Pórtico da Glória construído pelo Mestre Mateo, à entrada do Templo. A operação de restauro deste complexo ornamento arquitetónico durou dez anos de meticuloso trabalho de especialistas e a sua inauguração oficial decorreu nestes primeiros dias de julho, tendo os principais responsáveis pelo programa de reabilitação dado a conhecer os pormenores de uma tarefa que se complicou pela constatação das humidades que afetavam o monumento e que obrigaram a que, antes de recuperar o Pórtico, houvesse que atuar na fachada do “Obradoiro” do templo e nas coberturas, “sendo certo que o restauro do Pórtico foi o motor de todas as obras na Catedral”. (Declarações reportadas pela imprensa)

Só no final deste mesmo mês de julho, uma vez concluídas as obras na Fachada principal, é dado como garantido que possa ser permitido ao público vir a admirar a reabilitação das policromias das figuras do Pórtico que, por sua vez, foram pintadas em 3 momentos históricos concretos, na Idade Média, nos Sécs. XVI e XVII. É claro que gostaria de ter o prazer de voltar a contemplar esta “abóboda celeste”, assim liberta do “sarro” secular que sobre ela se acumulou e poder ver estas figuras tão mimosas, tão expressivas e vivazes: um profeta Daniel sorridente como Gioconda, um Isaías de olhar presciente e nítido e todas elas tão levemente coloridas e frisadas em suas cabeleiras e vestimentas, para poder entender o que ali há de original e único nesta obra que saiu da oficina do Mestre Mateo, o “architectus” a quem o Rei Fernando II, Rei da Galiza, em 1168 outorgou uma pensão vitalícia para levar a cabo a exaltação devida  a um Reino e a um conjuntura peninsular ocidental que era a da Língua e da cultura trovadoresca Galaico-Leonesa- Portucalense que encontra até motivos inspiradores nos instrumentos de que se servia o coro dos anjos na iconografia escultórica do Pórtico para aí louvar a Deus e exaltar o seu Rei.

Mil anos decorridos, o discurso oficial compostelano-espanholista distorce ou minimiza naturalmente as circunstâncias históricas do que esteve na génese deste espírito fundador inconcebível sem a existência dum Reino, o da Galiza e sem o que representavam Fernando II e Afonso VIII, sepultados no Panteão Real da Catedral por sua expressa vontade. Mas não esqueçamos que os anos gloriosos do Mestre Mateo, “o Santo dos Croques” que se encontra ali mesmo ao lado do Pórtico e que os peregrinos e visitantes têm por hábito abordar e dar-lhe três turras com a cabeça para ficarem cheios da sua sabedoria, foi contemporâneo do nosso primeiro rei D. Afonso, que teve que desautorizar sua mãe porque andava perdido de amores por um fidalgo galego. E não esqueçamos também que Braga ou “Bracara Augusta” e a sua Catedral, desde o tempo dos Suevos que rivalizavam já com Compostela e disputavam a primazia.

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